29 de outubro de 2013

Reivindicando o companheiro Orwell

George Orwell se tornou um espelho no qual qualquer posição política pode olhar e se ver olhando de volta. Mas não se engane – Orwell pertence à Esquerda.

Scott Poole

Jacobin

Vernon Richards Estate / the Guardian

Tradução / Durante a primeira semana de revelações sobre o programa “Prism” da Agência de Segurança Nacional (NSA), George Orwell virou moda.

Ou, mais precisamente, ler (ou pelo menos possuir) 1984 de Orwell virou moda. As vendas do clássico dispararam acima de 7000% no Amazon poucos dias após a liberação dos primeiros relatos sobre a nova e sinistra forma de nossa cultura de vigilância.

A súbita popularidade de Orwell tem um custo para o legado do autor. Ler 1984 e A Revolução dos Bichos fornece apenas uma introdução simplista a um pensador complexo. Além disso, sua escrita e ação no meio de lutas mortíferas dentro da Esquerda tornaram seu legado difícil de entender sem uma análise detalhada de sua vida e obras.

Orwell se tornou um espelho em que todo tipo de posições políticas pode olhar e, sem falhar, se ver olhando de volta. Já passou do tempo de recuperar Orwell como um companheiro na luta por um mundo melhor.

Infelizmente, há mais do que alguns cultistas do Ron Paul, anarquistas de alcance abrangente e hacktivistas libertários que vêem 1984 como um tipo de volume de companhia para A Revolta de Atlas. Mesmo Glenn Beck freqüentemente cita partes selecionadas de Orwell. O falecido Christopher Hitchens deixou as águas ainda mais turvas, usando Orwell como um arquétipo para seu próprio abandono da Esquerda no fim da vida e subsequente apoio à “Guerra ao Terror” de George W. Bush.

A Revolução dos Bichos em si merece atenção especial, uma vez que se tornou um documento importante para os apologistas do capital e conhecido o bastante para que eles possam citá-lo sem lê-lo. Orwell enfrentou dificuldades para publicar o livro – menos por causa de seu conteúdo anti-stalinista, e mais porque as editoras acreditavam que sua mensagem glorificava as intenções e objetivos originais de Outubro de 1917. O poeta profundamente reacionário T.S. Eliot, por exemplo, desgostou intensamente do livro, porque acreditava que A Revolução dos Bichos sugeria que a resposta ao comunismo era “mais comunismo”.

Obscurecendo mais ainda as questões, o conhecimento do público geral do livro vem em grande parte de uma animação de 1954, que como Daniel J. Leab mostra em seu excelente Orwell Subverted, recebeu financiamento da CIA. Feito vários anos após a morte de Orwell, o filme representa uma revisão grave do romance, sugerindo não que a Revolução Russa tivesse dado errado, mas que simplesmente nunca deveria ter ocorrido. As representações positivas de Leon Trotsky (“Bola de Neve” no livro) são suprimidas ou suavizadas. “Velho Major”, o filósofo envelhecido que é uma mistura de Marx e Lenin no romance, é feito para parecer gordo, estúpido e ridículo no filme.

Nos últimos anos de sua vida, o próprio Orwell contribuiu para a confusão sobre sua visão política. Firmemente à Esquerda, ele se associou aos socialistas anticomunistas que se tornaram profundamente desencantados com o curso da política externa soviética. Trabalhando com a Partisan Review, Orwell tornou-se um firme defensor da Oposição de Esquerda anti-stalinista.

Nos últimos meses de sua vida, ele também tomou a fatídica decisão de redigir uma lista de 35 nomes de simpatizantes stalinistas e apologistas liberais burgueses dos “julgamentos” de Stalin. Deve-se notar que Orwell esperava que o governo britânico usasse isso principalmente para propaganda; este não era o tipo de “lista” tão familiar no Comitê de Atividades Antiamericanas que assombra os Estados Unidos. Ainda assim, foi uma decisão indefensável para um moribundo que tinha um arquivo robusto no MI5 detalhando suas atividades e associados “comunistas”.

A prolífica escrita de Orwell nos fornece uma melhor compreensão desses fatos isolados sobre sua biografia. De sua caneta (e do cano de sua arma na Guerra Civil Espanhola), o fascismo raramente teve um inimigo maior, e o socialismo poucos campeões maiores.

Tomemos, por exemplo, o seu Road to Wigan Pier, uma das declarações mais fortes já escritas para a posição socialista. A primeira metade do livro apresenta um retrato profundamente comovente das condições de emprego e da experiência crua da vida, entre os mineiros de carvão no norte da Inglaterra. Ele recria o mundo “daqueles pobres burros de carga subterrâneos, enegrecido até os olhos, com suas gargantas cheias de poeira de carvão, empurrando suas pás para a frente com músculos de aço dos braços e barriga.”

A segunda metade do livro constitui uma defesa vibrante da posição de extrema esquerda. Depois de dar uma das mais completas e elegantes análises de atitudes de classe já escritas em inglês, Orwell diz essencialmente que nenhuma pessoa sã pode deixar de ver o socialismo como a única resposta real a esses problemas; apenas aqueles com a “motivação corrupta” de “se apegar ao sistema social atual” poderiam ficar em oposição a isso.

E, no entanto, Orwell sendo Orwell, boa parte da segunda parte não poupa nenhum soco na sua crítica ao marxismo como expresso na política. Ele é impiedoso em sua crítica de “esnobes bolcheviques”, que são susceptíveis de se casar com ricos e acabar conservadores quando tiverem trinta e cinco anos. Não tem paciência para intelectuais comunistas que falam para a classe trabalhadora apenas na linguagem abstrusa da teoria. Poderíamos passar, diz ele, “com um pouco menos de conversa sobre ‘capitalista’ e ‘proletário’ e um pouco mais sobre os ‘ladrões’ e os ‘roubados’”.

Em geral, Orwell via o socialismo em sua época como falhando em sua tarefa mais básica: ajudar a promover a consciência de classe. Que diferença faz, ele se pergunta em A Caminho de Wigan, quando um burguês se junta ao Partido Comunista Britânico? Não muita, conclui, como por vezes demais o cheiro de diletantismo poderia ser detectado.

O que é necessário, ele acreditava, é um compromisso inabalável com a luta de classes e não o tipo de progressismo vago que muitas vezes prejudica a construção de um movimento de massas do povo. Este ódio às panelinhas esquerdistas e ao jargão de clubes às vezes levou Orwell a uma retórica facilmente levantada hoje por charlatões conservadores. Os vegetarianos o deixavam irritado. O ethos masculino que ele compartilhava com os colegas socialistas Jack London e Ernest Hemingway o cegou às conexões entre a disponibilidade de controle de natalidade e justiça econômica. Seu tom estentóreo sobre tais assuntos surgiu de sua insistência na centralidade da luta de classes. No fim, a luta de classes significava exatamente isso: uma guerra entre os ladrões e os roubados, e não uma subcultura de escolhas políticas peculiares. Os socialistas, ele sugere, são muitas vezes a pior propaganda do socialismo.

Orwell também se prova presciente em sua discussão sobre redefinir categorias marxistas para o novo mundo que assistiu nascer. Se preocupava com o fato de que muita propaganda socialista representava o “trabalhador mítico” como o pedreiro ou mineiro corpulento em seu macacão. Ele sabia que “o trabalhador”, saído direto do Realismo Soviético, seria cada vez mais substituído por um novo tipo de proletariado trabalhando sob uma nova fase do capitalismo.

“E o exército desgraçado de balconistas e lojistas?”, ele pergunta. Sua ideia pressagia nossa consciência atual das possibilidades de construir um movimento que inclua trabalhadores de cubículo e empregados de call center, os “colaboradores” de Walmarts e trabalhadores de redes de fast food. Orwell sabia que se usarmos a linguagem de explorador e explorado, a Esquerda pode defender seus argumentos. Aqueles que enfrentam a natureza viciosa do capitalismo através das longas horas de trabalho de cada dia conhecem a exploração em primeira mão. Eles não são diletantes e, Orwell nos lembra, a revolução pertence a eles.

A luta para criar uma esquerda relevante dependerá da capacidade de falar uma linguagem de luta de classes sem cair no obscurantismo teórico comum aos marxistas na sociedade ocidental de hoje. A trincheira de Orwell em Road to Wigan Pier estaria ainda mais firme se tivesse visto o destino do marxismo nas últimas décadas. Nos Estados Unidos, o “marxista” aparece mais freqüentemente como um elemento nas subculturas acadêmicas da moda do que na ideologia de um movimento de massas.

O primeiro passo para recuperar Orwell é ler Orwell. Road to Wigan Pier e Homage to Catalonia são lugares óbvios para começar. Este último, tratando das suas experiências na guerra civil espanhola lutando com trotskistas, coloca em contexto sua posição veementemente anti-stalinista.

Também vale a pena lembrar que, antes de mais nada, Orwell era um ensaísta inveterado, um dos mais prolíficos resenhadores de livros, filmes, peças de teatro e ideias que o século XX produziu. Ensaios como “Socialistas Podem Ser Felizes?” E até peças aparentemente não relacionadas sobre Charles Dickens, Tolstoi e sobre beber chá estão cheios de análises de classe e críticas ao capitalismo industrial que ele conheceu bem.

O nome de Orwell e 1984 continuam a ter uma ressonância tão poderosa que não é de se surpreender que tantos busquem sua sanção. E, como acontece com todos os pensadores complexos, é possível encontrar o que soa como citações de apoio em sua escrita e experiência de vida para uma série de ideologias.

Usos mercenários de pedaços do trabalho de Orwell se destinam a apropriá-lo para fins reacionários, e não para os objetivos pelos quais ele passou sua vida lutando. Glenn Beck, embora um sem-vergonha, deveria ficar envergonhado. Christopher Hitchens fez um desserviço tentando reivindicá-lo como seu santo padroeiro. George Orwell pertence ao povo.

Sobre o autor

Scott Poole é o autor de "Monsters in America" e do próximo "Vampira". Ele ensina história cultural no College of Charleston.

16 de outubro de 2013

Ameaça fascista na Grécia

O partido fascista Aurora Dourada tem empurrado o partido do Governo da Grécia mais para a direita - e abriu espaço para medidas de austeridade mais profundas.

Katy Fox-Hodess



Tradução / O cada vez mais ousado Aurora Dourada precipitou uma crise política em Atenas, cuja resolução está longe de ser certa. Aurora Dourada, o maior partido fascista na Europa e o terceiro maior partido na Grécia, tem crescido rapidamente durante a crise económica, tanto por usar os imigrantes, minorias étnicas e pessoas queer como bode expiatório, como por oferecer bens essenciais como comida para os cidadãos gregos empobrecidos pelo programa de austeridade do país.

Até este mês, tem operado com o consentimento implícito do governo de coligação liderado pelo Nova Democracia, de centro-direita, apesar das muitas provas de que militantes do partido têm usado violência para aterrorizar aqueles/as que vivem à margem da sociedade grega.

Mas o partido parece ter cruzado uma linha vermelha neste mês. Em meados de setembro, cerca de cinquenta "gorilas" da Aurora Dourada agrediram membros do Partido Comunista (KKE) que colavam cartazes políticos num subúrbio operário de Atenas. Na semana seguinte, Pavlos Fyssas, um cantor de hip-hop anti-fascista, foi assassinado por um membro assumido do Aurora Dourada no bairro operário de Keratsini.

O assassinato de Fyssas, um cidadão grego, que vem na esteira dos espancamentos de membros gregos do KKE, conseguiu o que os espancamentos e assassinatos de imigrantes por parte dos membros da Aurora Dourada não tinham no passado: a indignação pública generalizada e mobilizações de massa contra o partido. Os primeiros protestos foram organizados em menos de 24 horas, culminando numa marcha de 50.000 pessoas em direcção à sede do Aurora Dourada, na semana seguinte. Hoje em dia, o centro de Atenas está coberto de cartazes políticos e graffiti antifascistas.

Por altura do último fim-de-semana, o líder do partido, Nikolaos Michaloliakos, juntamente com outros deputados do Aurora Dourada e os militantes-chave do partido, tinham sido presos e acusados de pertencer a uma organização criminosa. Dependendo dos resultados dos julgamentos, o Aurora Dourada poderá vir finalmente a ser declarado um partido ilegal.

No entanto, se é verdade que a reviravolta no destino político do Aurora Dourada, após uma mobilização em massa impressionante, pode vir a alegrar a esquerda grega, o clima em Atenas na semana passada era de incerteza. A um nível mais imediato, os radicais receiam que a repressão do governo sobre o partido possa mais tarde ser usada como pretexto para reprimir os partidos de esquerda, uma preocupação fundada no facto de a retórica de centro-direita equiparar a violência da ultra-direita fascista com as mobilizações de esquerda.

E a ameaça do fascismo dificilmente é derrotada. Um cartoon político que circula on-line capturou o sentimento geral sobre a esquerda, mostrando o presidente do partido Nova Democracia, Antonis Samaras, arrancando do solo uma pequena planta com a forma do símbolo do Aurora Dourada, enquanto um enorme sistema de raízes em forma de suástica permanece enterrado.

A actual crise económica e política na Grécia tem suas raízes na crise económica mundial de 2008. Tal como a maioria da Europa mediterrânica - em particular Espanha, Portugal e Chipre - a economia da Grécia sofreu um grave choque com a crise global. Isto criou uma abertura para o capital global, e em particular capital europeu, pudesse renegociar condições mais favoráveis de acumulação no sul da Europa ao concordar em socorrer as economias do sul, em troca de um pacote de medidas de profunda e grave reestruturação económica. O abalo político e económico não têm servido tanto para reestruturar o capitalismo no continente, como têm revelado uma verdade que tinha estado coberta por um longo período de prosperidade baseada na dívida: apesar de duas décadas de integração europeia na zona euro, a Europa continua a estar dividida entre um norte rico e um sul subdesenvolvido. Como me disse um amigo grego, como é possível que a Suécia e a Grécia sejam parte de uma mesma união económica e política?

Os três organismos internacionais responsáveis ​​pela negociação do resgate, a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional, são conhecidos colectivamente na Grécia (e por todo o sul da Europa) como a "troika", uma frase que evoca intencionalmente memórias de ditadura. De facto, a troika atua em grande medida como uma ditadura, operando através do governo grego, que se tornou uma espécie de estado fantoche, alienando muita da soberania política e económica do país no memorando que determina as condições do resgate de 110 biliões de euros, e tentando gerir a caos social em que veio por arrasto.

Nos termos do memorando, a Grécia concordou em vender empresas públicas rentáveis ​​e cortar duramente nos gastos sociais para pagar sua dívida e equilibrar o orçamento (uma exigência a que os governos do norte da Europa, incluindo a Alemanha, não se impuseram). Um importante terminal de contentores no Porto de Pireus, por exemplo, foi vendido à companhia de navegação Cosco, detida pelo Estado chinês, sem os regulamentos sociais que têm acompanhado as privatizações de portos noutros países europeus. A sindicalização é agora quase impossível, e os trabalhadores são empregados numa base diária com os salários baixos, poucos benefícios e as condições de saúde e segurança que seriam de outra forma impensáveis no país.

Este processo é muitas vezes descrito pelo termo "austeridade", um termo ideologicamente mistificador destinado a encobrir a realidade grega de 30% de desemprego geral, desemprego de 60-70% por cento entre os jovens, e cortes salariais do sector público à volta de 35-50% - além ao aumento da mortalidade infantil, a insegurança alimentar, trabalho sexual, uso de drogas, as taxas de infecção de VIH / SIDA, crime, e outros sinais de desespero económico e miséria social. Aspectos adicionais da mistificação ideológica comummente empregues no Norte da Europa para justificar a acumulação por expropriação no Sul incluem uma série de preconceitos que retratam os gregos e europeus do sul em geral como preguiçosos, irresponsáveis ​​e incapazes de se auto-governarem.

A vaga inicial de protestos anti-austeritários contínuos, a partir de maio de 2010, seguiu-se à assinatura do primeiro memorando. Seguiu-se uma enorme manifestação de meio milhão de pessoas no centro de Atenas e uma série de manifestações e greves gerais. A segunda vaga começou em 2011, durante a onda mundial de protestos de ocupação que se estenderam desde a Praça Tahrir no Egipto até à Plaza del Sol em Madrid passando pela Oscar Grant Plaza, em Oakland. Manifestantes na Grécia seguiram o exemplo com ocupações massivas de praças públicas, incluindo a Praça Syntagma, no centro de Atenas. Esta vaga durou até 2012, mas, posteriormente, houve uma relativa acalmia no movimento até este verão, despoletando um período de reflexão por parte da esquerda grega sobre como avançar na luta. Mas desde a Primavera, com a frustração de uma tentativa de privatizar a estação de televisão pública grega, o movimento tem vindo a a despertar novamente, precipitado pelo assassinato de Fyssas e pelo crescimento do movimento anti-fascista.

Abundam teorias entre a esquerda grega sobre o tipo e a extensão da ligação entre o Aurora Dourada, a Nova Democracia e a polícia, mas o que é claro é que o partido tinha até este mês conseguido operar com quase total impunidade. As autoridades policiais estão a ser investigadas por supostas ligações com "gorilas" do Aurora Dourada, diz-se que oficiais se juntaram ao partido em números assustadoramente grandes. No entanto, a crítica mais incisiva ao Aurora Dourada, da parte da esquerda, diz respeito às razões por detrás da tolerância do governo ao partido. Falei com militantes de esquerda de uma ampla gama de organizações, na semana passada em Atenas e, embora tenham sido enfatizados diferentes aspetos da situação, há um forte consenso sobre a existência de uma linha única que atravessa a crise económica, a troika, o governo austeritário e os fascistas.

Eles observaram, por exemplo, que ataques contra imigrantes não têm sido apenas prerrogativa dos fascistas, mas têm também sido levados a cabo aberta e legalmente pelo governo da Nova Democracia através de uma ampla campanha de discriminação racial e encarceramento de imigrantes sem documentos, tudo ao serviço de um objetivo declarado de deportações em massa. Estes ataques não só são legalmente sancionados pelo governo grego, como são implicitamente sancionados pelos países do norte da UE, que permitem que o Estado grego ataque imigrantes sem papéis (95% dos quais, pensa-se, entram na Europa através da Grécia) sem levantar qualquer objeção.

Na mesma linha, o governo da Nova Democracia tem realizado políticas profundamente misóginas, homofóbicas e transfóbicas tendo como alvo profissionais do sexo e pessoas VIH / SIDA, incluindo a deportação de imigrantes seropositivos/as, de volta para países onde não poderão receber tratamento adequado, e publicação online de fotos de profissionais do sexo seropositivos/as.

O Aurora Dourada, que tem profundas raízes organizacionais em muitos bairros operários pobres nos arredores de Atenas, tem sido capaz de aproveitar o espaço aberto pelas políticas odiosas adoptadas pelo governo do Nova Democracia. As duas organizações políticas têm-se desenvolvido simbioticamente, com a Nova Democracia a representar a face legal da violência racista e da opressão e a Aurora Dourada representando a face oculta, criminal. Muitos argumentam que a Aurora Dourada tem sido tolerado porque tem sido eficaz na sua organização e na mobilização do país para a direita ao nível das bases, limitando-se a levar a lógica das políticas da Nova Democracia à sua extrema conclusão.

Um segundo argumento relativo à ligação entre o Aurora Dourada e o governo da Nova Democracia enfatiza como o aumento da violência fascista fornece uma espécie de distracção conveniente, protegendo o governo de ter de enfrentar as mobilizações contra suas contínuas e duras políticas de austeridade, que têm resultado em pobreza e miséria. Quando os imigrantes, pessoas queer e esquerdistas estão literalmente a ser espancados e esfaqueado nas ruas, focar-se na luta contra os fascistas torna-se uma questão de sobrevivência. Enquanto a troika tem evitado em grande medida a discussão do caos social gerado pelas suas duras exigências, o assassinato de Fyssas atraiu críticas públicas por funcionários fora da Grécia, que sentem que ter neo-nazis a assassinar esquerdistas impunemente nas ruas de Atenas poderá vir a minar a hegemonia ideológica dos estados do norte e o capital forjado durante a crise. Mesmo continuando a diminuir proteções sociais, a Europa neoliberal deve pelo menos manter um compromisso ostensivo às normas básicas de direitos humanos para legitimar novas medidas de austeridade.

As próximas semanas e meses serão críticos para a esquerda grega, que, apesar da sua energia renovada depois da mobilização contra o Aurora Dourada, permanece dividida por velhas diferenças sobre questões como a viabilidade de uma via parlamentar de socialismo e a compatibilidade do socialismo num país com uma economia de mercado integrado na Europa. Dentro da esquerda parlamentar, a questão mais imediata diz respeito a quando convocar eleições, com alguns argumentando que as eleições antes do final do ano permitirão à esquerda capitalizar da indignação pública dirigida ao Aurora Dourada, enquanto outros argumentam que é necessário mais tempo para granjear mais apoio. Enquanto os esquerdistas de todo o espetro estão unidos na luta contra o fascismo, a questão da estratégia socialista continua a ser vexante.

Em particular, os esquerdistas fora da coligação de esquerda radical Syriza (bem como alguns dos seus próprios membros) têm questionado se será possível reverter a austeridade sob um governo Syriza sem sair da zona euro, dada a dependência económica e política do Estado grego face à troika. Esta questão tornou-se um ponto central de discórdia dentro da esquerda, atraindo críticas de alguns setores da liderança do Syriza. Ao mesmo tempo, os líderes do Syriza têm enfatizado a necessidade de se construir uma base de apoio mais ampla, para além da extrema-esquerda, apelando aos setores da classe média que permanecem ligados ao projecto europeu, a fim de disputar efectivamente o governo de centro-direita nas próximas eleições.

Questões de estratégia socialista à parte, a nível prático há uma necessidade urgente de mobilizar esforços para organizar meios de apoio e mobilização dos trabalhadores urbanos e dos desempregados de modo a neutralizar o sucesso do Aurora Dourada, que criou raízes profundas em alguns dos distritos de Atenas através de, entre outras coisas, programas de distribuição de alimentos "só para gregos". Num país onde a segurança alimentar se tornou uma preocupação real, é fácil entender porque é que essa tática tem sido bem-sucedida. Ao mesmo tempo, mais trabalho precisa de ser feito para tornar explícitas as relações entre a ascensão do fascismo e o programa de austeridade, para que as mobilizações anti-fascistas possam ser aprofundadas e ampliadas, gerando um movimento anti-capitalista revitalizado.

Socialismo ou barbárie é a ordem do dia.

Sobre o autor


10 de outubro de 2013

Além das greves na indústria de Fast Food

Por que a esquerda não deve desqualificar greves contra baixos salários.

Trish Kahle

Créditos: Steve Rhodes/Flickr.

Há pouco tempo, num dia frio e chuvoso de março, enquanto juntava carros de compras no parque de estacionamento da Whole Foods de Chicago, onde trabalho, um dos meus patrões, parado ao pé da porta, afirmou sem qualquer cerimónia: “Este tempo é mesmo chato”. Eu balancei a cabeça, laconicamente. “Mas o que é que se pode fazer?”, continuou rindo, “Uma greve?”.

Fazia sentido que ele considerasse absurda a ideia de entrarmos em greve – as greves nunca atingiram um nível de registo tão baixo, sendo praticamente inexistentes em estabelecimentos comerciais como o meu; e quase nenhum dos meus colegas alguma vez pertenceu a um sindicato. Porém, um mês depois, entramos em greve. Dez trabalhadores da Whole Foods abandonaram o seu posto de trabalho em protesto contra uma política de atendimento draconiana e contra salários de pobreza, juntando-se a 200 trabalhadores da restauração e do comércio de Chicago e a milhares em todo o país.

Sujeitos a baixos salários, os trabalhadores da restauração e do comércio assumiram, durante este Verão, um protagonismo no seio do movimento sindical norte-americano. A Campanha pelos 15 (FF15 – Fight For15) tornou-se pública em novembro do ano passado, tendo eclodido ao longo da primavera deste ano, quando trabalhadores abandonaram os seus empregos em Nova Iorque e depois em Chicago, St. Louis, Milwaukee, Detroit e Seatle. Sete cidades organizaram uma segunda semana de greves de um dia em finais do mês de julho. Então, a 29 de agosto, cerca de 62 cidades e milhares de trabalhadores uniram-se em torno de duas principais reivindicações: salário mínimo de 15 dólares à hora e o direito à organização sindical sem quaisquer represálias.

Somos parte de uma geração de trabalhadores à descoberta das nossas armas mais poderosas: o sindicato e a greve. Em plena era da austeridade, levantámo-nos. Fizemo-lo com o apoio de um sindicato que, no passado, foi alvo de muitos ataques (certeiros) à esquerda pela sua colaboração próxima com o capital. Apesar da sua história recente ter ficado marcada pela fuga ao confronto, a União Internacional dos Empregados dos Serviços (SEIU) ajudou a impulsionar uma eventual onda de militância entre os trabalhadores precários do século XXI – uma onda que, caso continue a expandir-se, poderá ultrapassar as expectativas de qualquer um.

***

Muitos de nós nunca pensaram ficar presos a um trabalho mal pago. Ao longo da minha vida, disseram-me que, se fosse para a faculdade e obtivesse uma licenciatura, viria a ter um melhor nível de vida do que até agora havia tido. Fui para a faculdade com uma bolsa, tendo pago os meus custos de vida através de trabalho em quintas do nordeste californiano. Acabei a licenciatura exatamente no período de começo da recessão, sem quaisquer perspetivas de um salário minimamente decente ou de contactos de empresas.

Após a procura de trabalho na região, consegui um emprego enquanto técnico de veterinária. Apesar de, aparentemente, constituir um trabalho “qualificado”, recebi apenas 8,5 dólares à hora e 25 dólares por semana. Fui despedido menos de seis meses depois. Durante mais de um ano, o único emprego que encontrei foi um temporário, como paisagista, com um salário de 10 dólares à hora, sem horas garantidas, sem equipamento de segurança e com habituais roubos no salário.

Candidatei-me a toda a empresa de comércio e de restauração na região, bem como aos correios e à UPS, onde nem me chamaram para trabalho temporário nas férias. Estava desesperado – e não era o único a estar. Com a inauguração da sua nova loja em Greensboro (Carolina do Norte), a Whole Foods anunciou 100 vagas de empregos disponíveis. Mais de 3000 pessoas submeteram candidaturas – um número constantemente evocado pela administração ao longo da formação. A mensagem era clara: devíamo-nos considerar sortudos por ter emprego.

Os dois anos após a conclusão da licenciatura foram um autêntico murro no estômago. Tornou-se cada vez mais evidente a impossibilidade de vir a arranjar um bom emprego. Não houve gestor responsável pelo recrutamento que não dissesse que era sobrequalificado, uma vez que era licenciado, ou subqualificado, uma vez que tinha apenas uma graduação. Quando acabei a licenciatura, considerei tornar-me carteiro. Ao invés, regressei à universidade e ingressei no doutoramento. Claro que os empregos na academia estão a desaparecer, à semelhança dos empregos na função pública. Mas, ao menos, escrever uma dissertação dar-me-ia algum tempo.

No entanto, mesmo após a inscrição num programa de graduação de uma das mais prestigiadas universidades, fui obrigado a safar-me. Hoje, no meu segundo ano, trabalho na Whole Foods, em mais dois empregos enquanto assistente de investigação e faço uns biscates como trabalhador de mudanças do departamento de ciências sociais. Por mais horas que trabalhe, emprego estável e salários minimamente decentes parecem estar fora do meu alcance.

Per si, a minha situação poderá ser descrita enquanto uma infortuna causalidade. Mas a minha história é comum entre a juventude norte-americana. Alguns designam a minha geração de «mileurista»[1], mas considero que «abandonada» seria um termo mais exato: a mais bem qualificada geração da história global, uma geração sobrecarregada com uma devastadora dívida educativa, com pouco ou nenhum acesso a um salário e emprego dignos e com poucas perspetivas de algo melhor no futuro.

E, como é óbvio, não se trata apenas de pessoas com vintes ou trinta e tais sem filhos, empregados em trabalhos como o meu. Muitos dos meus colegas têm filhos ou pessoas sob sua dependência. Se sobreviver com salários baixos já é extremamente difícil para pessoas sem filhos, é praticamente impossível para os meus colegas que são pais, em particular mães solteiras – muitas das quais confrontadas com cortes em programas sociais, como os das senhas de alimentação, Medicaid [2], segurança social e na educação.

Alguns dos meus camaradas sindicais trabalham na restauração e no comércio desde que sou vivo. Um trabalhador da McDonald´s, membro do sindicato, trabalha na empresa há 27 anos. Após uma geração a trabalhar, ele recebe menos do que 9 dólares à hora. Ele nunca se poderá reformar.

***

Salários de pobreza, assédio sexual comum, racismo no local de trabalho e o total desconhecimento de direitos ou ausência de segurança no trabalho fizeram com que valesse a pena correr o risco da organização sindical. Condições de trabalho atrozes e poucas perspetivas de saída da indústria ajudam a explicar a razão pela qual o FF15 cresceu tão rapidamente. Há, no entanto, uma terceira causa importante: o regresso da luta à imaginação popular.

O período de dezembro de 2010 a novembro de 2011 foi repleto de focos de resistência por parte dos «abandonados»: pelo mundo fora ocorreram protestos estudantis contra o aumento de propinas no Reino Unido, revoluções na Tunísia e no Egito; por cá, a reação contra o governador Scott Walker no Wisconsin e o movimento Occupy pouco tempo depois. Milhares de pessoas, na maioria jovens, erguiam-se contra a desigualdade, com sinais de um alastramento gradual da radicalização entre a população norte-americana, em particular nas suas camadas jovens. Contudo, a indignação contra a desigualdade económico-social ainda não havia tido expressão nos locais de trabalho.

Em setembro de 2012, o sindicato dos professores de Chicago deu um exemplo relevante. Os trabalhadores de Chicago pela FF15, que seis meses mais tarde abandonariam às centenas os seus postos de trabalho, estavam atentos aos professores. Vimo-los reivindicar não só melhores salários mas igualmente melhores condições de trabalho. Vimo-los confrontar o perverso racismo de Chicago, incorporado no sistema de apartheid educativo. E vimo-los fazer tudo isso por si mesmos: pela organização nos seus locais de trabalho, pelo debate democrático em torno dos ditames do seu contrato e das táticas grevistas. Vimos o poder de solidariedade nos pais que recusavam mandar os seus filhos atravessar os piquetes de greve dos professores. À medida que o centro da cidade, no primeiro dia de greve, era invadido por professores, vimos que o faziam em nome de todos os trabalhadores. Meses mais tarde, quando o Sindicato dos Professores de Chicago (CTU) foi mencionado numa das nossas reuniões organizativas, os trabalhadores presentes levantaram-se em aplausos.

Após a greve do CTU, as pessoas estavam prontas a organizar-se. Mas, principalmente no período inicial da campanha, não nos podíamos organizar sozinhos. Para grande parte de nós, a ideia de optar pela ação coletiva era aterrorizadora. Não tínhamos uma grande tradição de militância sindical no nosso local de trabalho ou entre as nossas famílias na qual nos basear.

E, como é óbvio, existia a real possibilidade de sermos todos despedidos, à semelhança de milhares de trabalhadores norte-americanos que todos os anos ensaiam a organização de sindicatos. Os sindicatos e seus observadores tinham consciência da potencialidade da nossa indústria em termos de novos participantes. Mas, mesmo perante o declínio da sindicalização nas últimas décadas – correspondendo atualmente ao nível mais baixo dos últimos 100 anos – as organizações sindicais revelaram-se incapazes de organizar iniciativas de sindicalização direcionadas à restauração e ao comércio a uma escala nacional.

O SEIU indicou o caminho. Em Chicago, a FF15 foi apoiada pelas secções locais da SEIU e por outros grupos comunitários defensores dos direitos dos trabalhadores. Ao invés de se focar numa única loja ou numa cadeia particular, a FF15 adotou uma posição mais metropolitana, organizando todos os trabalhadores da restauração e do comércio num só sindicato. Caso a campanha tivesse sido desenvolvida loja por loja, ter-se-ia permitido aos patrões isolarem-nos.

A organização metropolitana produziu resultados tangíveis. Depois da greve de dia 24 de abril, os organizadores da campanha em Chicago perguntaram aos trabalhadores se estariam interessados em entrar num autocarro e passar 5 horas em viagem até St. Louis ou Milwaukee, com o objetivo de prestar solidariedade aos trabalhadores, com greve marcada para a semana seguinte. As mãos ergueram-se. Algumas pessoas lamentaram ter turnos marcados para aquele dia. Na frente da sala, um trabalhador afroamericano de meia-idade, empregado na McDonald´s, levantou-se e afirmou: “Vamos entrar de novo em greve. Assim, podemos todos ir”.

Na reunião seguinte, uma mulher levantou-se e relatou como o seu patrão a havia sujeitado a insultos xenófobos, ameaçando despedi-la por ter faltado ao trabalho durante a sua hospitalização. Um dos organizadores perguntou se havia algum interessado em participar num comité que a acompanhasse ao trabalho, de modo a garantir que o seu patrão não a despedisse. “Apenas necessitamos de um par de pessoas”, acrescentou. Porém, quase quinze mãos surgiram no ar. Toda a gente queria juntar-se à sua camarada sindical.

Na minha loja, quando enfrentei uma ação disciplinar por ter violado a política de atendimento contra o qual nos estávamos a organizar, exigi representação sindical na reunião disciplinar, encontrando-se os meus colegas preparados a agir caso me tentassem despedir. A administração recuou e a reunião nunca chegou a ter lugar. Quando o trabalhador da Whole Foods de uma outra loja foi suspenso após ter feito greve (devido a um incidente que ocorreu duas semanas antes da greve sem qualquer ação disciplinar à altura), começamos a organizar-nos em defesa do seu emprego, tendo ela sido reintegrada e o seu salário restituído.

***

O ligeiro sabor das vitórias conseguidas através da luta transformou o modo como as pessoas se encaram a si próprias e ao seu poder no trabalho. Isto alterou as nossas relações com os colegas e fortaleceu a crença de que muito mais é possível. No entanto, alguns ativistas sindicais e de esquerda demonstram preocupações crescentes com o potencial dos movimentos e as limitações da sua estratégia – em particular, talvez, em relação à história da SEIU, feita da assinatura de contratos capitulares, de acordos com o patronato que diminuem os empregos disponíveis e, mais recentemente, nos conflitos em torno da questão da saúde na Califórnia. Outros estão preocupados com o facto dos trabalhadores não deterem o controlo da situação. Outros ainda expressam alguma apreensão relativamente ao facto de a FF15 constituir mais uma campanha de relações públicas do que uma verdadeira dinâmica organizativa.

O comprometimento e envolvimento da SEIU nesta campanha revelaram-se indispensáveis em termos dos recursos organizacionais oferecidos, da proteção legal e dos serviços aos quais não teríamos acesso de outra forma, e da relação direta com o movimento sindical mais lato e com os grupos comunitários. Por mais que o SEIU tenha cometido erros no passado – bem reais e que devem ser considerados – ele merece algum crédito por ter conduzido campanhas ousadas. Isto, enquanto muitos outros sindicatos estão em retirada ou a fingir de mortos perante leis de trabalho e outro tipo de legislação e campanha antissindicais.

A direção do SEIU está a apelar ao contínuo e escalado recurso a greves, ocupações e ação direta enquanto meios de resolução dos problemas dos trabalhadores. Eles encorajam os trabalhadores a organizarem-se nos locais de trabalhos. Eles confrontam as questões do racismo e do assédio sexual. Tal representa, sem sombra de dúvidas, algo de positivo, capaz de ajudar na revitalização e transformação do movimento dos trabalhadores.

Existe, certamente, um aspeto do movimento mais diretamente voltado para as relações públicas. No entanto, a secundarização de uma campanha com base neste momento é demasiado cínica. A agressiva campanha mediática desenvolvida pelo sindicato levou a luta a locais onde os organizadores nunca haviam estado, inclusivamente ao Sul e a áreas rurais. Ela tornou a nossa luta, e muitas outras lutas em todo o país, bem conhecidas entre o público mais mainstream. A «campanha de relações públicas» não funciona de forma isolada, mas ligada a um projeto real de construção do movimento.

Estaremos perante uma campanha gerida pelos próprios trabalhadores, os quais a conceberam e a conduziram por si sós? Ainda não. Mas é graças à participação neste movimento que, pela primeira vez na vida, os trabalhadores estão a tornar-se dirigentes sindicais.

No contexto de uma crise económica que dura há cinco anos, o SEIU abriu um espaço. Este poderá ter potencialidades bem para lá do imaginado pelos organizadores e pelos próprios trabalhadores. A campanha pode ir para lá da contenção ou do modelo com que o sindicato a iniciou. A FF15 é um movimento social sindical ainda em embrião, contendo em si o potencial de clarificar as questões sobre luta de classes levantadas pelo Occupy. Poderá voltar a ligar as lutas nos locais de trabalho às conduzidas nas comunidades. Poderá impulsionar um maior poder dos trabalhadores nas empresas, mas igualmente revindicar uma maior proteção de sindicatos e trabalhadores por parte das instituições de governo.

Os mais radicais estão numa posição que lhes permite construir este movimento através da recriação daquela que é tradição do sindicalismo revolucionário. Podemos, e já o fizemos, desempenhar um papel importante na formação desta campanha a partir da base – em Chicago, por exemplo, ajudámos a iniciar uma convenção de mulheres e concebemos e realizámos cursos de trabalhadores em torno da organização e da defesa face à retaliação dos patrões.

A Esquerda necessita de ir para lá da mera conceptualização de sindicatos como o SEIU como monólitos incapazes de mudança. Mudá-los é difícil, mas não impossível. A raiva contra as traições e a burocracia de um sindicalismo mais empresarial não nos deve levar a encarar os sindicatos como organizações completamente e inevitavelmente divorciadas dos seus membros. Ao invés, deverá tornar evidente a necessidade de organizar os novos trabalhadores e reconstruir os sindicatos desde baixo.

***

Não obstante a atenção que ganhou, este movimento ainda se encontra na sua infância. Deve ser construído com base em fortes redes sociais no trabalho e nas comunidades. Quanto mais revolucionários envolvidos no projeto, mais forte ele será. Este verão entrámos em greve por medidas bastante concretas; mas também em defesa de dignidade, respeito e poder. O nosso movimento tem de se constituir de forma concreta, exigindo o tangível e preparando o terreno para uma nova geração de militantes sindicais. Porque a militância funciona. Os meus patrões não me assustam mais caso resolva entrar em greve de novo. Após a greve consegui um aumento – e mais de uma dúzia de colegas a perguntarem-me como aderir ao sindicato.

Sobre o autor

Trish Kahle é um estudante de graduação em história na Universidade de Chicago e membro do Comitê Organizador dos Trabalhadores de Chicago.

9 de outubro de 2013

Um marxista na corte de Keynes

Maurice Dobb era um dos alunos favoritos de John Maynard Keynes. Ele também era um marxista comprometido.

Tim Shenk


Ilustração de Kotryna Zukauskaite

Nenhum economista - talvez nenhum humano - jamais foi melhor em escárnio do que John Maynard Keynes. Ele era um debatedor magistral quando queria ser. Mas, como o próprio descendente da elite britânica que era, Keynes preferia rir de seus inimigos. Em 1925, simpatizantes da União Soviética foram brindados com uma exibição de classe mundial desse desdém. Keynes acabara de voltar de sua primeira viagem à URSS e estava pronto para se tornar polêmico.

"Como posso aceitar uma doutrina", perguntou ele, “que estabelece como sua bíblia, acima e além da crítica, um livro de economia obsoleto que sei ser não apenas cientificamente errôneo, mas sem interesse ou aplicação ao mundo moderno? Como adotar um credo que, preferindo a lama ao peixe, exalta o proletariado grosseiro acima da burguesia e da intelectualidade que, com quaisquer falhas, são a qualidade de vida e seguramente carregam as sementes de todo progresso humano? Mesmo que precisemos de uma religião, como podemos encontrá-la no lixo turvo das livrarias vermelhas?” “É difícil”, concluiu ele, “para um filho educado, decente e inteligente da Europa Ocidental encontrar seus ideais aqui, a menos que primeiro tenha sofrido algum processo de conversão estranho e horrível que mudou todos os seus valores”.

Keynes nunca levou o marxismo a sério e, na maioria das vezes, nunca o faria. Mas, apesar da retórica, ele podia tratar os marxistas individuais com respeito. Em 1925, havia um marxista, em particular, que ele tinha em mente quando colocou seus pensamentos sobre a URSS – uma pessoa para quem ele estava piscando quando estremeceu com as conversões horríveis, uma pessoa que teria visto o golpe como o último movimento em um argumento de longa duração.

Maurice Dobb era um dos alunos favoritos de Keynes. Ele também era marxista e, depois de 1922, membro do Partido Comunista da Grã-Bretanha (CPGB). Hoje, fora de alguns pequenos círculos de acadêmicos radicais, Dobb está quase totalmente esquecido. Mas em sua vida, até seus críticos reconheceram que ele era um dos principais economistas marxistas do mundo. De seu posto avançado em Cambridge, onde orientou alunos que vão de Eric Hobsbawm a Amartya Sen, Dobb falou com igual confiança sobre a história do capitalismo, a prática do socialismo e o futuro do comunismo. Por toda parte, ele exibiu uma criatividade e destreza intelectual que provaram que o marxismo era uma tradição vital e viva. Como projeto paralelo, ele fundou essencialmente a tradição da rigorosa história marxista no mundo de língua inglesa com Studies in the Development of Capitalism, um relato abrangente que traçou a carreira do capitalismo inglês desde a Idade Média até 1946, data de publicação do livro. Se alguém poderia ter forjado uma união entre Keynes e Marx, por todos os direitos deveria ter sido Dobb. E houve momentos — especialmente na década de 1930, quando a esquerda britânica se viu envolvida em uma guerra civil que opunha os defensores de Marx e Keynes uns contra os outros — que pareciam exigir que ele presidisse a uma síntese.

No entanto, Dobb assistiu em grande parte à margem enquanto outros lutavam nessa batalha. Ele não chegou a uma posição estabelecida em Keynes até depois da Segunda Guerra Mundial, e mesmo assim relutava em dar a conhecer seus pontos de vista. Dobb não era do tipo que ficava calado. Ao longo de uma carreira que durou mais de meio século, ele escreveu doze livros acadêmicos, mais que o dobro de panfletos destinados ao público em geral e centenas de artigos para publicações que vão do Economic Journal ao Daily Worker. Em praticamente todos os outros assuntos, era quase impossível impedi-lo de se expressar. O que havia de tão especial em Keynes?

Parece uma pergunta simples. Mas respondê-la requer mais do que desvendar o mistério do relacionamento complicado que uniu esses dois homens. Uma explicação completa abre uma história muito mais ampla, embora em grande parte desconhecida - uma história cujas ramificações ainda vivemos hoje.

*

Cambridge em 1919 era um lar improvável para um aspirante a revolucionário, mas não totalmente inóspito. Depois de passar a infância saltando pelas camadas mais baixas da classe alta da Grã-Bretanha, Dobb chegou à universidade radicalizado pela Primeira Guerra Mundial, paralisado pela onda revolucionária que varre a Europa e ansioso para fazer sua parte para salvar o mundo. Ele se juntou à Sociedade Socialista Universitária e ajudou a formar uma camarilha quase comunista apelidada de Spillikins. Seu quarto era o ponto de encontro favorito dos radicais do campus, que sabiam que a educação burguesa de seu anfitrião garantia um fluxo constante de chá e éclairs para seus convidados. (Ele até ensinou um camarada a amarrar uma gravata borboleta.) No entanto, Dobb estava longe de ser o socialista de torre de marfim que essa imagem sugere. Ele também foi um ativista dedicado que ajudou a coordenar comícios para sindicalistas em greve e trabalhadores organizados na região economicamente deprimida fora de Birmingham, conhecida como Black Country.

Mesmo quando adolescente, Dobb estava comprometido em unir ativismo político com engajamento intelectual. Embora relativamente poucos dos textos canônicos do marxismo ainda estivessem disponíveis em inglês, ele devorava tudo o que podia. Ele decidiu cedo que queria ser economista. Os filósofos haviam interpretado o mundo, mas Dobb acreditava que no século XX seriam os economistas que o mudariam. Cambridge era, na época, indiscutivelmente o principal centro mundial para o estudo de economia, e Dobb rapidamente se destacou como um dos alunos mais talentosos de seu ano. A atmosfera enclausurada da universidade acabou sendo um presente para Dobb: para aqueles dentro de seus muros, as lutas revolucionárias trovejando pela Europa eram apenas estrondos distantes, e o marxismo de um estudante poderia ser ridicularizado como outra deliciosa excentricidade de Cambridge.

Em 1920, Keynes tirou Dobb da obscuridade da graduação e pediu-lhe para se juntar ao Political Economy Club, uma sociedade reservada apenas para convidados, reservada aos melhores aspirantes a economistas de Cambridge (conforme julgado por Keynes). Reuniões eram realizadas semanalmente nos quartos de Keynes em meio a pinturas que ele havia adquirido de um de seus amantes de jovens seminus colhendo uvas e dançando. Uma pessoa – às vezes um aluno, às vezes um estranho – lia um jornal, depois o resto do grupo comentava. Quando chegou a vez de Dobb se apresentar, ele fez uma defesa fervorosa da economia de Marx. Keynes o destruiu na discussão subsequente, mas admirou a audácia do jovem. Alguns anos depois, depois que Dobb terminou seu doutorado na London School of Economics, Keynes ajudou a garantir-lhe um cargo em Cambridge. Quando Keynes viajou para Moscou, Dobb foi como seu companheiro. Décadas depois, Dobb se lembraria com carinho que mesmo a cautela com o socialismo e a ignorância da URSS não poderiam impedir Keynes de dar sermões aos funcionários soviéticos sobre política monetária.

Mas Dobb nunca se sentiu inteiramente confortável em Cambridge. Em uma carta a um colega do CPGB, ele resmungou sobre os dias passados “ensinando exploradores de embriões como explorar os trabalhadores da maneira mais humana e atualizada”. Keynes havia declarado “o fim do laissez-faire” em 1926, mas Dobb reclamou que sempre que colocava a questão da classe, Keynes “simplesmente o entendia mal, ou então diria que ele está introduzindo considerações 'sentimentais' que não lhe diziam respeito e que não lhe pareciam importantes.” O que Keynes considerava "sentimental", Dobb considerava essencial para qualquer compreensão da teoria econômica — ou do mundo, aliás.

Em breve, nem mesmo Keynes poderia ignorar o conflito de classes. Na década de 1920, Keynes insistiu que todas as principais questões da economia haviam sido respondidas, a maioria delas por seu professor Alfred Marshall. A Grande Depressão acabou com tudo isso, lançando Keynes no que ele chamou de “luta para escapar” de suas crenças anteriores. O resultado dessa luta apareceu em 1936: A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, o tratado mais significativo em economia desde A Riqueza das Nações.

Grande parte de A Teoria Geral foi discutida pela primeira vez em discussões com uma pequena coleção de jovens economistas de Cambridge. Dobb não estava entre eles. Ele ainda fazia parte do círculo íntimo alguns anos antes, quando compôs uma resenha curta, mas ponderada, do predecessor de A Teoria Geral, o Treatise on Money, de dois volumes, de Keynes, que Dobb julgou um “marco”. Mas à medida que a década de 1930 avançava, ele se afastou do círculo íntimo de Keynes, afastando-se dos debates que giravam em torno da Teoria Geral. Em parte, sua exclusão voluntária foi uma questão de política acadêmica. O repúdio vocal de Keynes a Marshall havia dividido o departamento de economia de Cambridge. A disputa foi amarga, muitas vezes pessoal, e alguns dos aliados mais próximos de Dobb estavam do lado oposto.

A essa altura, Dobb estava gastando menos tempo em seu trabalho acadêmico. Em 1932, os superiores do CPGB iniciaram uma campanha destinada a punir Dobb por violações percebidas da linha do partido. Foi uma decisão estranha, pois de quase todas as perspectivas Dobb parecia um comunista modelo. Ele passou incontáveis ​​horas trabalhando para organizações do partido, cultivando jovens comunistas como professor em escolas de verão, servindo como “presidente da faculdade de economia” do instituto educacional do partido e até ajudando a iniciar uma empresa cinematográfica do CPGB. Qualquer que fosse o fórum, ele ofereceu defesas firmes da União Soviética em geral e de Stalin em particular. Mas, às vezes, esses fóruns incluíam jornais voltados para o que os linha-dura consideravam públicos burgueses – um pecado que, quando combinado com seu trabalho acadêmico diário, foi suficiente para colocar uma parte considerável da hierarquia do CPGB contra ele. Artigos na imprensa do partido condenando seu trabalho proliferaram sob a manchete “As distorções do marxismo de Maurice Dobb”. Esses castigos públicos foram acompanhados de uma acusação profundamente pessoal de seus camaradas no capítulo de Cambridge do CPGB. Um Dobb abalado se defendeu na frente de seus acusadores em Cambridge, mas quando a reunião terminou, ele correu para o banheiro para vomitar.

Outra pessoa poderia ter deixado o partido depois de receber tal tratamento. Muitos, de fato, saíram exatamente por esse motivo. Mas Dobb, não. Ele ainda acreditava que apenas os comunistas uniam “o tipo de organização, combinando discussão com disciplina e uma tradição de teoria política com pensamento realista diante de situações de mudança, que oferecia... a possibilidade prática de tirar a sociedade do caos contemporâneo”. Dobb preenchia sua agenda com trabalho partidário que lhe deixava pouco tempo para refletir sobre o que o CPGB havia feito com ele. Ele dava palestras constantemente, trovejando contra a “escravidão permanente, que parece a resposta do Capital a qualquer tentativa séria de melhorar a posição e o status da massa da população nesta era monopolista”. Este era o ativismo que todos no CPGB podiam aprovar.

Olhando para trás em 1965, Dobb diria que na década de 1930 ele se dedicou principalmente à “atividade política (principalmente em bases locais e regionais) e à escrita polêmica” em vez de erudição. Ele atribuiu a mudança ao seu reconhecimento dos perigos representados pelo fascismo, o que era parcialmente verdade. Esse relato, no entanto, apagou a experiência que catalisou sua reviravolta – uma experiência que, mesmo décadas depois, Dobb resistiu a discutir. Depois de sua dolorosa lembrança da importância de demonstrar seu compromisso com a causa, e com tantos outros deveres tirando sua atenção, foi fácil deixar o domínio da Teoria Geral cair de lado.

*

Dobb também tinha um poderoso argumento intelectual para manter distância de Keynes. Nos primeiros dias da depressão, antes do ataque do CPGB, Dobb previu que os economistas logo seriam forçados a escolher entre dois caminhos. Eles poderiam aderir às convenções atuais da disciplina, produzindo estudos estreitos preocupados com o comportamento dos preços nos mercados. Ou poderiam recuperar uma tradição perdida e retornar ao estudo das forças sociais mais profundas que haviam ocupado seus maiores predecessores: Smith, Ricardo e até Marx. Essa era a tradição da economia política, o estudo de “problemas macroscópicos da sociedade” em vez de “fenômenos microscópicos” de troca. Aos olhos de Dobb, o peito de Keynes palpitando sobre uma grande fuga da ortodoxia era uma mistura de melodrama e marketing. O trabalho verdadeiramente inovador estava à frente - e ele poderia ser o único a fazê-lo.

Political Economy and Capitalism foi a tentativa de Dobb de cumprir essa promessa. Desde o momento de sua publicação em 1937, ficou óbvio que o livro era uma das mais brilhantes contribuições à teoria econômica marxista desde O Capital, e sem dúvida a maior de um autor britânico. Abrangia uma gama intimidadoramente vasta de assuntos: teoria do valor, os legados da economia política clássica, as origens das crises econômicas, o caráter do imperialismo e as leis que regem uma economia socialista, para citar alguns. A análise do imperialismo, especialmente, mostra Dobb no seu melhor, amarrando a história afiada à economia rigorosa e usando a síntese resultante para abordar um problema de enorme relevância para o seu momento - ou seja, o fascismo.

No entanto, Dobb concluiu quase imediatamente que, quaisquer que fossem seus sucessos parciais, o livro como um todo havia fracassado. Ele o revisou substancialmente para uma edição de 1940, mas nem isso o satisfez. Em 1949, ele brincou sobre reescrever o livro, chamando-o de uma obra que “há vários anos detesto demais para ousar abrir”, mas abandonou o projeto para economizar energia para novo material. Refletindo na década de 1960, ele reclamou que foi “escrito com muita pressa e não baseado suficientemente profundamente no pensamento teórico” de modo que “para os economistas acadêmicos parecia muito polêmico e negativo e distante da discussão contemporânea; para muitos marxistas, parecia fazer muitas concessões à linguagem marshalliana e ter uma forma acadêmica demais”.

Eram críticas razoáveis, embora duras. Mas a imprecisão de suas referências à “discussão contemporânea” esconde um arrependimento mais específico: quando Dobb escreveu o livro, ele ainda não havia lidado com The General Theory. Mais tarde, Dobb disse a um amigo que o trabalho de Keynes “raramente era compreensível, exceto para especialistas que haviam acompanhado uma discussão específica”, acrescentando que “por algum tempo não consegui entender o que ele queria dizer; e deveria ser meu trabalho ensinar isso". Uma coleção de notas de 1938 mostra Dobb lutando com o assunto. Ele parece ter considerado o keynesianismo principalmente como uma teoria de expectativas, cuja relutância em confrontar realidades “objetivas” de produção, distribuição e exploração levaria a – e aqui ele soava como o reitor de Cambridge – “um monte de bobagens” e a “qualquer tipo de propaganda econômica”. Political Economy and Capitalism dedicou apenas parte de um único capítulo a uma avaliação indireta do keynesianismo, apenas uma fração das muitas páginas que Dobb deu à explicação de um assunto que ele acreditava ter uma relevância muito maior para o futuro da economia: a teoria do valor-trabalho, aquele guardião da objetividade e defensor contra o alarde econômico (and, presumably, tomfoolery, horseplay, shenanigans, hijinks, and monkeyshines).

Dobb também tinha preocupações mais práticas. Ele via os gastos anticíclicos como um truque que deixaria sem solução os problemas estruturais por trás do ciclo de expansão e retração do capitalismo. No mínimo, aumentar os gastos do estado tornaria uma nação mais propensa à crise ao direcionar o dinheiro para fins menos produtivos do que os empreendedores descobririam sem a intervenção do governo. Esta foi uma tese curiosa para um expoente do planejamento, e para os leitores contemporâneos a semelhança familiar com argumentos avançados pelos conservadores de hoje é desconcertante. No entanto, a tese de Dobb tinha uma linhagem entre os marxistas que remontava pelo menos a Engels, que observou que um estado ativo “pode causar grandes danos ao desenvolvimento econômico e resultar no desperdício de grandes massas de energia e material”. Em última análise, a objeção central de Dobb a Keynes era a mesma de sempre: ele era um reformador em tempos que exigiam revolução. Convenientemente, essa posição isentou Dobb de descobrir os detalhes dessas reformas.

*

O emaranhado de complicações pessoais, políticas e intelectuais que tornavam tão difícil para Dobb falar sobre A Teoria Geral retorceu ao longo de sua carreira. Em 1960, quase quinze anos após a morte de Keynes, Dobb concordou em dar uma palestra sobre Keynes em uma escola de verão do CPGB. Mas ele logo teve dúvidas e largou o dever com Brian Pollitt, um de seus alunos (e filho do antigo chefe do CPGB). Quando Pollitt reclamou que ele era muito jovem — tinha acabado de terminar o primeiro ano de graduação —, Dobb lhe disse: "É por isso que você pode fazer isso e eu não". Na discussão que se seguiu à palestra de Pollitt, Dobb não disse uma palavra.

Claro, ele nem sempre podia ser tão quieto. Keynes era ainda mais proeminente na morte do que na vida, e teria sido impossível para Dobb fugir completamente do assunto. Felizmente, o tempo e mais reflexão deram a ele uma melhor vantagem sobre a Teoria Geral. Na década de 1950, a ênfase nas expectativas havia desaparecido, substituída pelo reconhecimento da importância da atenção de Keynes para o que Dobb chamou de “o sistema econômico como um todo” e, especialmente, a vulnerabilidade desse sistema à crise. Isso não era o que Dobb havia imaginado em 1930, quando pediu um renascimento da economia política, mas reconheceu que oferecia uma “lufada de ar fresco” em um ambiente sufocante.

No entanto, esse não foi o único propósito para o qual o trabalho de Keynes foi feito. Aqui, Dobb vinculou sua interpretação a uma filosofia mais ampla da história. “Comumente acontece”, afirmou ele, “que escolas de pensamento e movimentos em uma sociedade de classes cumprem um papel objetivo que é diferente (às vezes contrário) de seu design subjetivo”. Keynes havia declarado que, em uma crise, os objetivos reais da política fiscal eram quase irrelevantes: cavar valas, reabastecer valas e explodir valas poderiam ser estímulos eficazes, desde que o dinheiro fosse gasto. Mas Dobb alertou que os estados capitalistas se mostraram muito mais dispostos a destinar recursos a imensos reforços militares do que a pitorescos projetos de obras públicas, uma tendência que foi especialmente pronunciada nos Estados Unidos. A ingenuidade de Keynes licenciou a construção de estados de guerra sob o disfarce de uma gestão macroeconômica desinteressada. “Uma vez que a teoria econômica possa empregar o deus ex machina de um estado imparcial e sem classes, acionado por propósitos sociais e resolvendo os conflitos da sociedade econômica real”, comentou Dobb acidamente, “todos os tipos de milagres atraentes podem ser demonstrados”.

Para piorar as coisas, no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, uma estranha alquimia política transformou o keynesianismo – "sempre uma doutrina do 'salvar-o-capitalismo-salvar' ou 'fazer o capitalismo funcionar'" - na essência do socialismo democrático. De alguma forma, grande parte da esquerda havia assinado uma plataforma que exigia a escalada perpétua dos gastos militares e garantia o entrincheiramento da hegemonia global americana. O pleno emprego tornou-se o horizonte da esquerda, estrangulando os programas mais ambiciosos que floresceram na Depressão. As contradições estruturais dentro do capitalismo não foram abordadas, o planejamento econômico robusto foi retirado da mesa e o retorno à crise foi garantido. Citando Stalin com aprovação, Dobb insistiu que “para abolir as crises, o capitalismo deve ser abolido”. A suposta nova variedade de socialismo democrático traficada sob o nome de Keynes era, de acordo com essa visão, outro exemplo de fantasia burguesa utópica que enganou seus adeptos para que se submetessem ao status quo vulnerável – um projeto político justificado por um keynesianismo ostensivamente apolítico, devidamente mal compreendido.

*

Os economistas se imaginaram conselheiros do soberano durante séculos, daí o “político” na economia política. Até Marx se encaixa nessa tradição – o que mais é O Capital senão um guia do modo de produção capitalista para a futura classe dominante; O Príncipe para o proletariado? Em meados do século XX, no entanto, os economistas ganharam uma influência sobre a formulação de políticas que seus predecessores nem poderiam ter concebido. Este foi o alvorecer da era do wunk, e em meio a exércitos crescentes de especialistas – demógrafos, agrônomos, matemáticos, antropólogos, teóricos de relações internacionais e muitos outros contribuíram com sua parte – os economistas tinham um valor especial. Somente eles poderiam afirmar ter dominado um assunto que se tornou uma obsessão em todo o mundo: o crescimento econômico.

Os líderes políticos há muito buscam alcançar a prosperidade, mas a identificação da prosperidade com uma economia em constante crescimento foi uma invenção recente. Antes do século XX, os economistas simplesmente não tinham as ferramentas — como a contabilidade da renda nacional ou a modelagem matemática sofisticada — que lhes permitisse afirmar que haviam tornado a economia governável como um todo. Tudo isso mudou na década de 1950. Os grandes choques ideológicos da primeira metade do século haviam entorpecido, e o debate político girava cada vez mais em torno do que o historiador Adam Tooze chamou de “as cansativas disputas da riqueza descontente”. A renda nacional em constante crescimento passou a parecer a base da legitimidade de um regime, e os economistas emergiram como os gerentes tecnocráticos ideais da economia. Sem dúvida, o estilo mais antigo de planejamento econômico — nacionalização, controle de preços, racionamento e outras medidas que Dobb considerava a verdadeira essência da governança econômica — perdurou. Mas o caráter do debate econômico, assim como o caráter da economia, havia mudado. Um novo tipo de planejamento nasceu e foi batizado de “keynesianismo”.

Enquanto isso, uma geração crescente de economistas em grande parte americanos estava refazendo sua disciplina. O texto confuso da Teoria Geral foi convertido em um modelo simples que logo se tornou um elemento básico dos livros introdutórios de economia. A ênfase de Keynes na instabilidade do capitalismo foi perdida entre garantias tranquilizadoras de que o crescimento estava praticamente garantido e que mesmo gastos anticíclicos agressivos seriam necessários apenas em emergências, como máscaras de oxigênio em aviões. Os debates econômicos entre a direita e a esquerda chegaram ao centro, na visão de Dobb, “apenas sobre se meio milhão ou um milhão e meio de desempregados serão suficientes para restaurar o equilíbrio do modo de produção capitalista”.

Os associados mais próximos de Keynes em Cambridge distanciaram-se furiosamente do keynesianismo americanizado. As ironias devem ter parecido cruéis. Seu trabalho foi substituído por rivais que se apresentavam como herdeiros de Keynes, conquistaram o gênero de livros didáticos introdutórios outrora dominado por Marshall e fizeram tudo aparentemente sem se preocupar com os uivos que emanam dos legítimos sucessores desses mestres. O próprio termo “Revolução Keynesiana” foi popularizado não por um deles, mas por Lawrence Klein, natural de Omaha e produto do programa de doutorado do MIT. Joan Robinson, ex-protegida de Keynes e uma das vozes mais proeminentes de Cambridge após sua morte, rotulou o novo estilo de “keynesianismo bastardo” e se perguntou em voz alta: “Por que os americanos esqueceram tudo o que lhes ensinamos?” A resposta deveria ser óbvia: os americanos não se importavam, não quando havia artigos para publicar, fileiras crescentes de alunos para ensinar e governos desesperados para aconselhar.

*

Para Dobb, tudo parecia uma perda de tempo. Ele reclamou com amigos de fora de Cambridge que o departamento estava atolado em uma guerra acadêmica de atrito entre os herdeiros autonomeados do legado de Keynes e uma série de céticos. Em suas palavras, o conflito “tornou-se completamente estupidificante (se é que alguma vez foi outra coisa em essência)”, repleto de batalhas que eram “obsoletas de assistir e cheirando cada vez mais a questões mortas”. Isso era verdade não apenas para Cambridge, mas para a “economia burguesa” como um todo, que havia entrado em “um período de esterilidade intelectual”. As inovações técnicas que seus colegas achavam tão atraentes lhe pareciam distrações dos fatos históricos mundiais do declínio do capitalismo e da ascensão do socialismo. Dobb continuou a depositar suas esperanças, como fizera por décadas, na promessa da União Soviética — a potência econômica que ele previu em 1953 logo proporcionaria a seus cidadãos um padrão de vida melhor do que o usufruído nos Estados Unidos; o farol para os socialistas em todo o mundo que apresentavam uma imagem da civilização vindoura; a promessa que lhe dera esperança de um mundo melhor desde a adolescência.

Dobb morreu em 1976, antes que essa visão soviética tivesse desmoronado completamente. Mas sofreu golpes suficientes nos anos restantes de sua vida para induzi-lo a reavaliar seus entusiasmos anteriores. Ele nunca deixou o CPGB – uma esquerda fraturada, ele pensou, era uma esquerda impotente, e ele não perdeu a fé na capacidade do partido de se reformar – mas a vergonha do que ele agora considerava uma adesão lunática à linha partidária o estimulou a repudiar seu stalinismo anterior. Em sua última década, dedicou grande parte de sua energia à construção do que chamou de “economia política do socialismo” para uma era pós-stalinista.

Com tanto trabalho a fazer, era natural que Dobb deixasse Keynes ficar em segundo plano. Exceto por comentários ocasionais, Keynes não voltou à tona até o último livro de Dobb, uma vigorosa pesquisa do pensamento econômico intitulada Theories of Value and Distribution since Adam Smith. Lá, como havia feito na década de 1950, Dobb admitiu que The General Theory havia despojado os economistas de algumas de suas ilusões mais perniciosas, mas ainda insistia que Keynes havia deixado muito mais do edifício da economia dominante intacto do que sua retórica incendiária deixava transparecer. Visto da perspectiva de Dobb, era uma conclusão bastante razoável. Afinal, ele estava certo ao dizer que Keynes não nutria aspirações para a derrubada do capitalismo. No entanto, a análise de Dobb, até onde foi, foi insuficiente - poderosa, mas fácil demais.

Embora Dobb se considerasse um herdeiro de uma nobre tradição de economia política, ele era um economista político que não levava a política a sério. Tática, sim - a melhor forma de travar a luta contra o capital era uma questão de fascínio sem fim para ele. Mas ele nunca foi além do materialismo que, apesar dos protestos em contrário, moldou seu pensamento sobre a política. Ele falhou em compreender uma verdade para a qual os eventos em sua própria vida forneceram evidências abundantes: a maneira como as pessoas entendem seu mundo molda o que elas podem fazer com ele. Sua previsão de 1930 de que os economistas redescobririam “os problemas macroscópicos da sociedade” ou recuariam para a irrelevância mantendo uma obsessão com “fenômenos microscópicos” não foi cumprida. Em vez disso, a disciplina seguiu um terceiro caminho ao redefinir o macroscópico. Colocar a política como um debate sobre a gestão da economia permitiu aos economistas abordar assuntos “macro” sem depender do vocabulário – de capitalistas, trabalhadores e o conflito entre eles – que se sedimentou em torno de discussões sobre o que as gerações anteriores chamaram de “a questão social .”

Foi uma transformação extraordinária, e economistas foram indispensáveis para sua realização, inclusive um dos próprios mentores de Dobb. Mas o próprio Dobb estava muito ocupado com a revolução iminente para se preocupar com os detalhes de um presente que ele presumiu que logo entraria para a história. Enquanto seus olhos estavam fixos no futuro, sua crítica perdeu força em seu tempo, e ele ficou lutando com as sombras de seus oponentes. Os ataques contra o status quo têm seu lugar, mas as acusações mais eficazes são geralmente as mais precisas - quanto mais afiada a lâmina, mais profunda a ferida. Muitas vezes, Dobb esqueceu esta lição. Aqueles de nós que ainda acreditam na promessa de emancipação universal não podem cometer o mesmo erro.

Colaborador

Tim Shenk é estudante de pós-graduação em história na Universidade de Columbia e autor de Maurice Dobb: Political Economist, publicado pela Palgrave Macmillan.

5 de outubro de 2013

Políticas públicas muitas vezes traem os propósitos da Constituição de 1998

Lena Lavinas

Folha de S.Paulo

Foi na primavera, 25 anos atrás. Promulgada a nova Constituição, lê-se no seu artigo 6º que "são direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados".

Prover, proteger, amparar, prevenir contra riscos e incertezas: o essencial nos foi enfim reconhecido, extensivo a todos sem senões, mulheres e homens, rurais e urbanos, negros, pardos, indígenas ou brancos.

A uniformidade e a equivalência nos benefícios e nos serviços, a universalidade da cobertura e do atendimento e a irredutibilidade nas garantias constitucionais conformaram a identidade de condições que nos faltava para juntos forjarmos uma sociedade igualitária, mais homogênea, mais justa e também, em consequência, mais eficiente.

Assegurados valores e princípios, o desafio dos últimos 25 anos consiste em dispor de mecanismos regulatórios e normas que garantam, de forma reiterada e permanente, cumulativa, essa identidade de condições entre todos os cidadãos. Tecer laços sociais fortes, reciprocidades, que nos recordem, a cada experiência compartilhada, que nos relacionar como iguais é o que há de nos construir como nação.

Afinal, nosso nacionalismo arraigado e reconhecido internacionalmente como vantagem haveria de contribuir para superar essa profunda desigualdade que nos aparta, munidos que estamos de preceitos constitucionais de equidade e justiça social.

Mas ela pouco se move, essa desigualdade. Houve um ligeiro recuo, promissor, é verdade, mas acanhado, resultado, sobretudo, do crescimento com emprego e da centralidade que a Carta Magna conferiu ao salário mínimo ao vinculá-lo a direitos e benefícios. E à norma que foi criada para indexá-lo promovendo redistribuição. Essa, uma boa norma.

Por que tantos tropeços, tantas frustrações nessa trajetória se a direção a seguir nos conforta?

Há quem julgue equivocadamente que tais tropeços se devem à falta de recursos para garantir aquilo que constitui o compromisso político público de construir uma sociedade de iguais.

Pressuposto falso. A engenharia do desenho do orçamento da seguridade social, por exemplo, foi uma belíssima inovação institucional, que gera receita para honrar benefícios previdenciários, assistenciais e prover saúde pública e universal. Toda a população brasileira contribui, e os mais pobres, com maior esforço.

Com crescimento e formalidade, o orçamento da seguridade é não apenas superavitário, mas engorda o orçamento fiscal com dezenas de bilhões anualmente. Só em 2012, foram desviados R$ 58 bilhões que poderiam universalizar a provisão da atenção básica, que hoje atende --e mal-- a só 50% da população.

Porém, em lugar de expandir a atenção básica, crescentemente nas mãos do mercado privado de saúde, que funciona na restrição da oferta de serviços, impondo o subconsumo e, portanto, perda de bem-estar, ouve-se de gestores públicos ser necessário "focalizar para universalizar"!

Definem-se "doenças da pobreza", como prioritárias no atendimento aos pobres, comprometendo o grande diferencial que tem o Brasil "vis-à-vis" outros países em desenvolvimento: um sistema único e universal de saúde, que não carece de recursos para funcionar satisfatoriamente, senão de uma gestão pública consequente e respeitosa de uma institucionalidade definida constitucionalmente. O setor público entroniza a regra do mercado e faz da renda o mecanismo de acesso à proteção em caso de contingência.

Da mesma maneira, a regulação à pobreza se faz na contramão do que reza a Constituição. Condicionalidades são exigidas dos reconhecidamente pobres, para que lhe seja garantido o que de direito. E se faz deles não iguais, tornando ilegítimo o direito derivado da necessidade.

A institucionalidade forte da nossa Constituição é permanentemente ameaçada por regras inadequadas e perniciosas que muitas vezes formatam a política pública e desfiguram seus propósitos.

A estrutura da governança econômica --expressão emprestada a Samuel Bowles-- explica distorções na rota da equidade. O problema não reside no traçado dos nossos sonhos, mas na forma como se faz a gestão da política pública, que atropela e invalida valores universais que elegemos como nossos.

O mercado se expande, cresce o consumo. Isso é bom? Certamente, mas insuficiente, pois a equidade padece. Ela não se mede pela incorporação ao mercado. É tempo --ainda e sempre-- de primaveras que façam florescer nossos ideais de igualdade, palpáveis, factíveis e constitucionalmente amparados.

Sobre a autora


Lena Lavinas é professora do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

27 de setembro de 2013

Seymour Hersh sobre Obama, NSA e a "patética" mídia americana

O vencedor do Prêmio Pulitzer explica como corrigir o jornalismo, dizendo que a imprensa deve "queimar 90% dos editores e promover aqueles que você não pode controlar"

Lisa O'Carroll

The Guardian

Seymour Hersh exposed the My Lai massacre during the Vietnam war, for which he won the Pulitzer Prize. Photograph: Wally McNamee/Corbis

Seymour Hersh tem algumas idéias extremas sobre como corrigir jornalismo - fechar as agências de notícias NBC e ABC, demitir 90% dos editores e voltar para o trabalho fundamental dos jornalistas que, segundo ele, é ser um outsider.

Não é preciso muito para incendiar Hersh, jornalista investigativo que tem sido a nêmese dos presidentes dos EUA desde os anos 1960s, quando escreveu que o Partido Republicano é “o parente mais próximo, dentro do jornalismo dos EUA, de um grupo terrorista”.

Vive enfurecido ante a timidez dos jornalistas nos EUA, o fracasso do jornalismo que não confronta a Casa Branca e não consegue ser mensageiro impopular da verdade.

Para Hersh, o New York Times “gasta mais dinheiro para promover Obama do que jamais pensei que fosse possível”. E enfurece-se ante qualquer referência a morte de Osama bin Laden. “Nenhum jornal, nenhum jornalista, ninguém, na imprensa-empresa dos EUA, moveu uma palha para desmascarar aquela mentira gigante. Tudo, ali, é mentira. Não há, na história contada sobre a morte de bin Laden, sequer uma palavra que seja verdade” – diz ele, sobre o dramáticoraid dos SEALS da Marinha dos EUA em 2011.

Hersh está escrevendo um livro sobre segurança nacional e dedica um capítulo ao assassinato de bin Laden. Diz que matéria recente, publicada por uma comissão paquistanesa “independente” sobre o complexo, em Abottabad, no qual Bin Laden foi cercado, não resiste a análise séria. “Nem quero começar a falar sobre o relatório dos paquistaneses! Digamos o seguinte: foi redigido com “apoio” norte-americano. É lixo. Não vale nada”. Para mais informação, teremos de esperar pelo livro.

O governo Obama mente sempre, sistematicamente, diz ele. Mas ninguém dos leviatãs da imprensa-empresa nos EUA o confronta, nem a televisão, nem os jornais, ninguém.

“É jornalismo patético. Os jornalistas são servis, obsequiosos, os jornalistas têm medo daquele cara [Obama]” – disse Hersh, em entrevista ao The Guardian.

“Antes, quando se tinha uma situação em que algo muito dramático aconteceu e o presidente e seu círculo de puxa-sacos controlavam a narrativa, sabia-se que algum jornalista trataria de trabalhar o mais possível para divulgar a verdadeira história. Hoje, não mais. Aproveitam o que o poder diga e tratam exclusivamente de reeleger o presidente.

Ele duvida, até, de que as recentes revelações sobre a profundidade e o alcance do estado de vigilância, imposto ao país pela Agência de Segurança Nacional dos EUA tenham algum efeito ou consequências duradouros.

Snowden mudou o debate sobre a vigilância

Ele não tem dúvidas de que Edward Snowden, que vazou segredos da Agência de Segurança Nacional “mudou completamente a natureza do debate” sobre o estado de vigilância. Diz que ele e outros jornalistas já haviam escrito sobre a vigilância, mas Snowden mudou o jogo, porque exibiu provas documentais irrefutáveis – mas ele não tem qualquer esperança de que as revelações venham a mudar a política do governo dos EUA.

“Duncan Campbell [jornalista investigativo britânico, que revelou a verdadeira história e desmascarou a Zircon], James Bamford [jornalista norte-americano] e Julian Assange e eu e a revistaNew Yorker, todos já havíamos escrito sobre a existência de vigilância constante, mas Snowden exibiu o documento. Isso mudou a natureza do debate: agora é fato” – diz Hersh.

“Editores adoram documentos”. “Editores acovardados, que jamais publicariam matérias como essas, só se deixam convencer por documentos”. “Os documentos de Snowden, sim, conseguiram mudar o jogo” – mas, na sequência, ele fala de suas poucas esperanças.

“Não sei se tudo isso significará alguma coisa no longo prazo, porque as pesquisas que tenho visto nos EUA... Basta que o presidente pronuncie as palavras “al-Qaeda, al-Qaeda”, para os eleitores aprovarem, com proporção de 2:1, qualquer tipo de vigilância. É reação perfeitamente idiota”.

Holding court to a packed audience at City University in London's summer school on investigative journalism, 76-year-old Hersh is on full throttle, a whirlwind of amazing stories of how journalism used to be; how he exposed the My Lai massacre in Vietnam, how he got the Abu Ghraib pictures of American soldiers brutalising Iraqi prisoners, and what he thinks of Edward Snowden.

Hope of redemption

Despite his concern about the timidity of journalism he believes the trade still offers hope of redemption.

"I have this sort of heuristic view that journalism, we possibly offer hope because the world is clearly run by total nincompoops more than ever … Not that journalism is always wonderful, it's not, but at least we offer some way out, some integrity."

His story of how he uncovered the My Lai atrocity is one of old-fashioned shoe-leather journalism and doggedness. Back in 1969, he got a tip about a 26-year-old platoon leader, William Calley, who had been charged by the army with alleged mass murder.

Instead of picking up the phone to a press officer, he got into his car and started looking for him in the army camp of Fort Benning in Georgia, where he heard he had been detained. From door to door he searched the vast compound, sometimes blagging his way, marching up to the reception, slamming his fist on the table and shouting: "Sergeant, I want Calley out now."

Eventually his efforts paid off with his first story appearing in the St Louis Post-Despatch, which was then syndicated across America and eventually earned him the Pulitzer Prize. "I did five stories. I charged $100 for the first, by the end the [New York] Times were paying $5,000."

He was hired by the New York Times to follow up the Watergate scandal and ended up hounding Nixon over Cambodia. Almost 30 years later, Hersh made global headlines all over again with his exposure of the abuse of Iraqi prisoners at Abu Ghraib.

Dar tempo ao tempo

Para os estudantes de jornalismo, a mensagem de Seymour Hersh é “deem tempo ao tempo, e andem”. Hersh já sabia da tortura de prisioneiros em Abu Ghraib cinco meses antes de poder escrever e publicar as denúncias, porque recebeu informes de um oficial do exército do Iraque que arriscara a vida numa viagem de Bagdá a Damasco para encontrar-se com Hersh e contar que havia prisioneiros que estavam escrevendo às famílias pedindo que viessem visitá-los para matá-los, porque haviam sido “desonrados”.

“Passei cinco meses à procura de alguma prova, porque, sem algum documento não havia notícia, e o que eu escrevesse seria desmentido facilmente”.

Hersh volta a falar do presidente Bush dos EUA. Disse antes que a confiança da imprensa-empresa norte-americana para desafiar o estado e o governo dos EUA entrou em colapso depois do 11/9, mas afirma, sem vacilar, que Obama é pior que Bush.

“Você acha que Obama está sendo avaliado por algum padrão racional? Guantánamo foi fechada? Alguma guerra acabou? Alguém está prestando atenção ao que está acontecendo no Iraque? Alguém diz coisa com coisa sobre o que está acontecendo na Síria? Os EUA, nesse momento, estão fracassando nas 80 guerras em que estão metidos. Por que, diabos, Obama quer meter-nos em mais uma guerra? E os jornalistas? Estão fazendo O QUÊ?” – pergunta ele.

Para ele, o jornalismo investigativo nos EUA está sendo assassinado pela crise de confiança, falta de recursos e por uma ideia errada do que seja o serviço jornalístico.

“A impressão que tenho é que há gente demais à caça de prêmios. É jornalismo que só visa ao Prêmio Pulitzer” – diz. – “É um pacote. Basta selecionar um tema (não quero diminuir os que trabalhem), mas basta escolher um tema, como segurança para atravessar as ruas ou coisa do tipo. Não quero dizer que isso não interesse, mas há outras questões sobre as quais absolutamente ninguém investiga”.

“Assassinato de civis, por exemplo. Como é possível que Obama continue a safar-se de críticas, ao mesmo tempo em que mantém o programa de assassinatos premeditados, por drones? Por que ninguém lhe pergunta sobre isso? O que o presidente tem a dizer em sua defesa? Por que não insistimos mais nessa investigação? Com que tipo de inteligência o presidente está operando? Por que ninguém abre a discussão sobre esse programa? Por que não descobrimos e divulgamos dados reais? Por que ninguém até hoje disse, pelos jornais, que se trata de assassinato premeditado apresentado como se fosse prática legal? Por que os jornais só fazem repetir dados de um ou dois grupos, sempre os mesmos, que monitoram a matança por drones? Por que nenhum jornal ou jornalista investiga diretamente os fatos, as fontes?”.

“O trabalho jornalístico não é apenas repetir que há um debate. Nosso serviço é ir além do debate como ele aparece e descobrir quem diz a verdade e quem mente, em todos os debates. Isso é o que já ninguém faz. Porque esse trabalho é caro, custa dinheiro, exige tempo, implica riscos. Ainda há uns poucos jornalistas de investigação – no New York Times, por exemplo. Mas os jornalistas só investigam para bajular o governo, mais do que jamais imaginei que fosse possível.

É como se mais ninguém tivesse coragem de pensar fora do padrão (patrão) dominante, e só”.

Diz que, em vários sentidos, era mais fácil escrever sobre o governo do presidente George Bush. “A era Bush, acho que era mais fácil criticar o governo, que hoje, no governo Obama. No governo Obama é muito mais difícil” – diz Hersh.

Para ele, os editores são covardes, e têm de ser demitidos.

Hersh tampouco entende por que o Washington Post segurou os arquivos que recebeu de Snowden e talvez nem os tivesse publicado, se não chegasse a informação de que o The Guardian se preparava para publicar tudo.

Se Hersh mandasse na empresa “Mídia Norte-americana Inc.”, sua política de terra arrasada não pararia na demissão de editores. “Eu fecharia também todas as agências de notícias de todas as redes. Fecharia tudo. Tabula rasa. Para começarem do zero. As grandes NBCs, ABCs, não gostariam da minha ideia. Nesse caso, que recomeçassem, que fizessem qualquer coisa melhor do que o que fazem hoje, qualquer coisa”.

Atualmente, Hersh não está trabalhando como repórter: está preparando um livro que com certeza nenhum jornalista gostará de ler, ou que os jornalistas provavelmente apreciarão tão pouco quanto Bush e Obama.

“A república está em perigo, nos EUA. Mente-se demais, mente-se, pelos jornais e noticiários sobre tudo e todos. A mentira virou o gancho”. E suplica que os jornalistas façam algo contra esse estado de coisas.

Lisa O'Carroll

Lisa O'Carroll is the Guardian's Brexit correspondent.

26 de setembro de 2013

Diário: Putin ao resgate

A insurgência antigovernamental na Síria recebeu uma visão inebriante de triunfo pelas palavras que Obama disse em agosto de 2011: "Assad precisa sair".

David Bromwich

Vol. 35 No. 18 · 26 September 2013

Tradução / A insurgência contra o governo na Síria foi induzida a uma inebriante visão de triunfo, ao ouvir o que o presidente Obama disse em agosto de 2011, que foi traduzido, acertadamente, na manchete “Assad tem de sair”. Antes, Obama já emitira mensagens semelhantes: “Mubarak tem de sair” e “Gaddafi tem de sair”. Obama pode talvez se ter metido na cabeça a ideia de que desempenhava papel benigno na Primavera Árabe – mostrando-se “do lado certo da história” (como ele gosta de dizer). “Assad tem de sair” soou também como se o presidente tivesse incorporado o espírito de George W. Bush; mas talvez não. Obama tem uma queda pelo pouco caso, ou por tolices ditas como se fossem frases solenes para a história, com as quais bem faria se começasse a se preocupar. Em fevereiro de 2010, no auge da pressão para que seu governo agisse contra os "banksters" responsáveis pelo colapso financeiro de 2008, Obama respondeu uma pergunta sobre os CEOs Lloyd Blankfein (do Banco Goldman Sachs) e Jamie Dimon (de J.P. Morgan Chase): "Conheço esses dois caras: são homens de negócios muito bem informados." Era Obama tentando provar a si mesmo que estava “por dentro”, confortável naquele ambiente, suficientemente próximo de Wall Street, para impressionar um dos lados; mas suficientemente distanciado, para merecer a confiança dos eleitores. Não funcionou. O comentário valeu-lhe um grau a menos de confiança dos eleitores e livrou os culpados de boa dose de um saudável medo. Este verão, depois de encontro insatisfatório com Vladimir Putin, Obama disse: "Eu sei que a imprensa gosta de se concentrar na linguagem corporal, e ele tem esse tipo de desleixo, parecendo o garoto entediado no fundo da sala." É frase que até se pode arquivar para as Memórias, supondo que alguém a ache esperta e digna de nota – mas imprópria, vinda de um estadista que descreva outro líder mundial.

Já transcorridos 56 meses de governo Obama, não cabem dúvidas de que Barack Obama gosta de falar. Pensa que os americanos e outros anseiam por ouvir o que ele tenha para dizer, e sobre vários assuntos; conforme essa sua percepção, ele disse, em agosto de 2012, sobre a guerra civil na Síria: "Uma linha vermelha para nós é se começarmos a ver quantidades de armas químicas movidas de cá para lá ou sendo usadas. Isso mudaria meu cálculo." Em março, a versão era outra, para a mesma declaração: o uso de armas químicas por Assad “muda o jogo”. Dois comentários nada diplomáticos. Quem estivesse interessado em empurrar os EUA para mais guerras não diria melhor, nem mais claramente, dos próprios interesses. Quando surgiram algumas evidências de que se usaram armas químicas na Síria, esse ano, primeiro em março, perto de Aleppo, depois em agosto, perto de Damasco, as forças que pressionam a favor do envolvimento dos EUA exigiram, imediatamente, mudança de política. Quem são essas forças? Uma das maiores e das quais menos se fala nos EUA sempre foi a Arábia Saudita. Se é preciso fornecer armas e dinheiro a jihadistas para enfraquecer a Síria e, por essa via, enfraquecer também o Irã, os sauditas sempre se mostram dispostos a fazer tudo isso. Turquia e Qatar também apoiam os jihadistas, contando com auferir vantagem política; e a Israel interessa prolongar a guerra, mas sem deixar que a vitória penda para os jihadistas. Assim Israel brilha com renovado fulgor como único parceiro com que os EUA contam, numa região que vai sendo cada vez mais devastada. Uma matéria publicada pelo New York Times no dia 5 de setembro noticiava manifestação de um ex-diplomata israelense, sobre os jihadistas e o exército sírio: "Que sangrem os dois, hemorragia até a morte: por aqui, esse é o nosso pensamento estratégico. Enquanto continuarem assim, não haverá real ameaça síria."

Depois que emergiram notícias do uso de armas de gás em março, Obama concordou, pela primeira vez em público, com mandar armas norte-americanas para apoiar grupos “do bem” dentro da insurgência na Síria. Depois do incidente de agosto, no qual se registraram mais mortes, Obama anunciou sua conclusão de que Assad ordenara os ataques e que mísseis norte-americanos não tardariam a “punir” a infração atacando alvos significativos do Estado. Ao mesmo tempo, Obama insistia que não queria alterar o rumo da guerra, com a intromissão da força bélica dos EUA. Seu plano não iria além de um bem merecido castigo. Esta formulação parecia trair sua contínua relutância; também mostrava que Obama pode ser levado a agir contra suas inclinações e, mesmo assim, consegue acomodar a coisa aos seus próprios padrões morais.

Não há dúvidas de que houve um ataque. Ninguém sabe ainda, com razoável certeza, quem o ordenou. Assad poderia ter ordenado, mas, dado que estava em vantagem na guerra e o movimento seria suicídio, não se entende como Obama concluiu o que concluiu. Diz-se que os rebeldes não teriam competência técnica para usar o gás, mas há notícias de que estavam de posse de armas químicas; a ideia de uma operação forjada, de provocação, e bem-sucedida, exigiria alto grau de perversão e talento dissimulatório que também são difíceis de aceitar. O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, obscureceu a discussão no final de agosto, quando, primeiro, pediu inspeção do local por inspetores da ONU; e logo depois os alertou para que saíssem de lá, porque os EUA bombardeariam tudo imediatamente. A coisa trouxe de volta ecos de Bush no Iraque em 2003, e Kerry tratou de cancelar a própria ordem; mas, surpreendentemente, declarou que nada do que os inspetores da ONU descobrissem faria, para ele, qualquer diferença.

As quatro páginas de um resumo do “relatório de inteligência”, não sigiloso, que Kerry distribuiu para divulgação pública – e, segundo avaliação do congressista Alan Grayson, o relatório completo, 12 páginas, sigiloso, nada dizia de diferente disso – falam do ponto de vista de “Nós [o governo dos EUA]”. A razão desse uso pouco usual das fórmulas gramaticais é clara: o tal documento não foi produzido pela inteligência dos EUA. Gareth Porter, jornalista de Inter Press Service, examinou as pontas soltas, os “informes” vagos e genéricos, as omissões, as distorções gramaticais reproduzidas na fala de Kerry e concluiu que a ausência de assinatura de James Clapper naquele “relatório” é detalhe muito significativo. Clapper evidentemente se recusou a assinar, porque os dados haviam sido apenas alinhavados uns nos outros, sem qualquer investigação ou trabalho de inteligência (como os dados que Colin Powell apresentou na ONU, em fevereiro de 2003). Kerry falou de precisas 1.429 mortes no ataque de agosto; mas não há dado algum que confirme esse número, que varia muito nos relatos de primeira mão: a inteligência francesa estimou 281 mortos; os Médicos Sem Fronteiras, 355. Em menos de uma semana o “relatório” de Kerry foi desqualificado e desacreditado, mas nem a imprensa, nem o establishment político foram informados disso. Apoiado só em inferências forçadas e pressupostos, dos quais a melhor “pista” era uma comunicação interceptada – gravação de uma fala de um muito perturbado suposto comandante de forças sírias, entregue aos EUA pela inteligência israelense – Obama declarou sua intenção de ordenar um ataque. Em seguida, pediu autorização ao Congresso, para usar força militar e queria poderes para agir como entendesse necessário, para “responder a”, “deter” e “degradar” as capacidades militares e defensivas do governo sírio. Todas essas são palavras sem significado preciso, e foram escolhidas por essa razão. Em grau muito curioso, o pedido de Obama ao Congresso em setembro de 2013 é parecido com o pedido de Bush, para o mesmo fim, em outubro de 2002.

A conversa sobre “punir” Assad é toda ela marcada por uma posição de disciplina parental; não traz qualquer traço semântico da linguagem especializada do Direito Internacional. Não aconteceu por acaso. País que ataque estado soberano, sem agressão prévia, viola leis do Direito Internacional. Quanto a “punições”, até pode acontecer de um governo punir legalmente os próprios cidadãos, mas não é relação possível entre dois países. Um exemplo simples: um pai pode dizer ao filho “Vá para o seu quarto”. Mas ninguém pode dizer a um vizinho indesejável “Você tem de sair”. Obama confunde-se e atrapalha-se, de modo que parece bem genuíno, sempre que se trataria de não ultrapassar a importantes linhas vermelhas dos discursos e das palavras. Anda de um lado para o outro, com excessivo à vontade. No início da crise, tentou armar um estratagema retórico em torno da lei: os EUA e seus aliados, ao punir um ataque a gás contra sírios, que sem dúvida possível fora ordenado pelo presidente da Síria, estaria “fazendo valer normas internacionais”.“Normas internacionais” é expressão que, ultimamente, se ouve por toda parte. Um mundo sem normas (parece ser a implicação inevitável) é mundo em caos. Uma vez que a Rússia não levantaria o veto na ONU e confiado no que lhe diziam franceses e britânicos e o seu próprio governo... quem faria valer as normas internacionais? Quem, se não os EUA?

Muitas forças dentro da política norte-americana operaram para pressionar Obama em direção da guerra. Uma dupla de senadores Republicanos, Lindsey Graham e John McCain, ganharam extraordinário destaque nos veículos da imprensa-empresa, como especialistas em política externa. Comandaram a ala militarizada do Partido Republicano, apesar até da defecção de renegados do Tea Party e libertaristas free lance. E muitos Democratas guardaram para si as próprias dúvidas, para não parecer que se opunham ao presidente. Só quando a Câmara dos Comuns britânica votou contra, afinal a política de guerra dos EUA balançou. O presidente e equipe foram profundamente perturbados pelo resultado daquela votação. O povo e seus representantes respiraram fundo; e a política de guerra dos EUA começou a ser mais amplamente questionada. Que sentido teria o tal ataque “limitado e adequado” [orig. “limited and tailored”] (frase típica de Obama) que simultaneamente aplicaria golpe inesquecível ao “ditador” alvo?

Essa apresentação autocontraditória foi devida em parte a outra das forças que exigiam “castigo” americano ao sírio, a saber, os pregadores de guerra humanitária, e à líder deles, a assessora para segurança nacional de Obama, Susan Rice. A posição dela em pouco difere da antecessora, Condoleezza Rice (não são parentes), mas as duas desenvolveram suas credenciais internas por vias distintas: Condoleezza Rice, como acadêmica especializada em estratégia soviética; Susan Rice, num processo de ascensão dentro da elite política, com uma muito proclamada vocação de consciência para impedir “outra Rwanda”. A campanha doméstica a favor de ataque norte-americano aos sírios foi marcada por uma notável novidade vinda dos agentes promotores de guerra humanitária: mensagens de Twitter, enviadas por Rice e pela embaixadora dos EUA à ONU, Samantha Power, para promover também pelo lado de fora os objetivos pelos quais trabalhavam dentro do governo.

Todas elas são nomes que Obama nomeou recentemente e pelas quais expressou admiração. Mas, ao obedecer a elas e a um novo discípulo delas, recém conquistado, John Kerry, Obama passava a ignorar outra vozes dentro do governo, que teriam enorme peso. Todos os comandantes militares do Estado-Maior das Forças Armadas opunham-se à intervenção na Síria. O chefe dos chefes do Estado-Maior, general Martin Dempsey, já vinha dizendo há meses por que considerava perigoso o ataque. Que para nada serviria, exceto para prolongar a guerra civil; e que exporia bens norte-americanos na região à retaliação, no Afeganistão, na Líbia, por toda a parte. (Susan Rice comandou a campanha para que os EUA, com a OTAN, derrubassem o governo na Líbia. É possível que Obama ainda suponha que a guerra da Líbia tenha sido um sucesso, mas é ilusão só sua, da qual não partilham nem as forças armadas nem o serviço diplomático norte-americano). O depoimento de Dempsey ao Senado e à Câmara de Representantes foi feito com talento, mas, se visava a tranquilizar alguém, teve resultado oposto: a certa altura, o general recusou-se a prever efeitos futuros de algum ataque limitado; e o secretário de Defesa, Chuck Hagel, não conseguiu disfarçar as próprias emoções e respondeu a tudo como se não acreditasse em nenhuma palavra do que dizia. Juntos, esses dois faziam impressionante contraste com o secretário de Estado sentado ali ao lado. Kerry parecia tomado de renovada certeza, absoluta certeza, que ia aumentando a cada resposta, a cada pergunta que lhe era feita.

Verdade é que Kerry funcionava como o mais espetacular boneco de ventríloquo encarregado de vender uma política incoerente. “Não consigo parar de pensar em John Kerry, ontem, todo vaidoso” – disse o demagogo conservador e radialista Rush Limbaugh – “revelando que alguns países do Oriente Médio ofereceram-se para pagar pelo nosso ataque à Síria”. Quero dizer... Já não é ruim que chegue sermos chamados de policiais do mundo? Quem quer ser um policial subornado?! O que haveria de bom nisso? Quem somos nós, agora? Viramos mendigo, pedinte?!”. O provável maior problema de qualquer governo em total desalinho é que ele induz as pessoas a pensar duas vezes sobre tudo que o governo faça ou diga e sobre todas as suas políticas.

No final de agosto, com britânicos ou sem, os EUA estavam posicionados para ir à guerra. Mas a opinião pública já migrara para um ceticismo desconfortável – a proporção, que era de 3:1 a favor dos que não queriam a guerra, subiu, na segunda semana de setembro para mais de 2:1 contra. E foi no meio dessa deriva que o presidente resolveu enviar a questão ao Congresso e pedir que dividissem com ele a responsabilidade. Mas o Congresso, então, já estava refletindo a opinião pública. A consulta sugeriu que Obama queria mais tempo para pensar, e que não queria perder para a Grã-Bretanha, que seguira os procedimentos de um governo constitucional. Mas incongruente e muito estranhamente, Obama logo acrescentou que não seria pautado pela votação no Congresso. O que aí se vê é ambivalência pessoal privada, exposta para contemplação universal. Mas naqueles primeiros dias de setembro já se respirava outro ar, o ar de uma democracia que olhava a própria cara. John McCain foi acusado de leviandade, numa reunião popular no Arizona, por uma mulher que tem um primo sírio. O senador Rand Paul, o branco libertarista do Kentucky, e o Deputado Elijah Cummings, o negro liberal de Baltimore, relataram, ambos, que seus respectivos eleitores opunham-se a qualquer ataque, na proporção de quase 100:1. O presidente e sua secretaria de Estado, e com esses também uma vasta porção da elite política, haviam aprovado a ação militar para derrubar um quarto governo no Oriente Médio, depois de Afeganistão, Iraque e Líbia. Mas o povo dos EUA, dessa vez, disse “não”.

Mesmo assim, na primeira semana de setembro, Obama e Kerry ainda defendiam tanto a ambição delirante quanto a versão minimalista de seu ataque tão premeditado. Ataque decisivo e para incapacitar, que duraria poucos dias: essa parece ter sido a versão que o presidente apresentou a Graham e McCain. Mas o ataque que Kerry antevia, como disse à imprensa britânica dia 9 de setembro, seria: "(...) muito limitado, muito focado, esforço de curto prazo... Estamos falando é disso – esforço incrivelmente pequeno e limitado." E a confusão não fica aí. Recentemente em sua fala à nação, dia 10 de setembro, Obama contradisse Kerry e afirmou que o ataque não seria um beliscão, acrescentando em tom grave: "Os militares dos EUA não dão beliscões."

Dia 9 de setembro, Kerry deixou escapar um comentário, que seria carregado de consequências. O único meio pelo qual Assad conseguiria evitar ataque norte-americano seria ele entregar suas armas químicas a supervisão internacional e eventual destruição. “Claro” – Kerry acrescentou – “que não acontecerá”. Putin ouviu e entrou em cena. Mas, sim, disse Putin, é claro que acontecerá, porque a Síria entregaria suas armas químicas à inspeção internacional e até ao confisco, nos termos de um acordo que a Rússia intermediaria; em segundos, seu ministro de Relações Exteriores, Sergey Lavrov, apareceu com um plano diplomático no qual já vinha trabalhando há meses. A Casa Branca e o Departamento de Estado fizeram de tudo para ficar com os créditos por esse desenvolvimento, mas é quase impossível acreditar que tenha sido resultado de plano conjunto, do qual Kerry tivesse participado. Implicaria que o presidente ter-se-ia posto, ele próprio, numa situação que causaria embaraços ao governo, que o humilharia pessoalmente e que poria o mundo à beira de uma guerra, “porque” sabia da surpresa que surgiria no momento certo. A boia não requisitada que Putin empurrou para Obama levou o presidente a retirar a consulta que encaminhara ao Congresso – mas, isso, só depois de ter absoluta certeza de que a votação aconteceria dia 11/9. Estava a caminho de ser derrotado na Câmara de Representantes e, possivelmente, até no Senado.

Dia 10 de setembro, o presidente falou à nação. Precisou de mais tempo para justificar o ataque que estava devolvendo à prateleira, do que para explicar a nova rota na qual já estava comprometido, mas foi discurso “de abafa” também em outros sentidos: às vezes pedia, às vezes denunciava; dava lições de que o amor à paz tem às vezes de nos envolver em guerras, reiterando o imperativo de construir os EUA em casa, mas tomando o atento cuidado de falar do holocausto de judeus. E fechou com um apelo convencional ao onanismo nacional norte-americano: "(...) estamos sós no mundo, disse o presidente. Somos a nação “excepcional”. Por quase sete décadas os EUA têm sido a âncora da segurança global." Dia seguinte, o New York Times publicou coluna editorial assinada por Putin, que expressou sua esperança de que os norte-americanos escolheriam evitar guerra mais ampla. Falou com consideração, de Obama. Examinei atentamente a fala do presidente à nação, na terça-feira. E tenho de discordar da defesa do excepcionalismo norte-americano. O presidente disse que a política dos EUA é o que “faz diferentes os EUA, o que nos faz excepcionais”. É extremamente perigoso estimular as pessoas a que se vejam, elas mesmas, como diferentes, seja qual for a motivação. Verdade seca, de fonte questionável, mas impossível de negar. Nação que se suponha uma exceção aos padrões observados pelas demais nações é tão boa bisca quanto alguém que se veja, a si mesmo, como exceção.

É pouco provável que Obama mude outra vez, por hora. Mas deixar-se na posição passiva, de quem só ouve o que os russos digam, que responde às vezes sim, às vezes não, às vezes “Vamos analisar”, exporá todo seu governo à acusação de estar “liderando pela retaguarda” demais (foi Obama quem inventou essa, ao jactar-se do que fazia na Líbia). A diplomacia é coisa relativamente nova para Obama. Mas, dessa vez, não teve escolha. Nem Obama pode entregar essa carpintaria delicada às que mais alto gritavam a favor da guerra. Obama terá de trabalhar duro para resistir à pressão para bombardear o Irã que nunca para de vir de Israel e do lobby israelense nos EUA. Delegar grandes responsabilidades de governo pode ser compatível com um sinal de humildade – e até funcionou assim, para Reagan – mas há cenários nos quais essa atitude aproxima-se perigosamente da temeridade ou da irresponsabilidade. Em dezembro de 2011 pediram a Obama que ele confessasse um defeito pessoal; respondeu que o defeito que criticaria em si próprio era a preguiça. Mais uma vez (como o que disse sobre Putin e os banqueiros), melhor que não tivesse dito. Mas, seja como for, aí está a chance para se autorreformar: um tempo para comprometer-se pessoal e profundamente na construção de suas políticas, menos discursos palavrosos, menos comentários descuidados nas entrevistas; ocasião para trabalhar ativamente com novos parceiros, além de França, Grã-Bretanha e IsraelSe quer igualar-se a Putin nas artes da diplomacia e superá-lo no difícil exercício da autocontenção, Obama tem de aproveitar esse momento, também, para reconsiderar o extraordinário aparelho de sigilo em que seu governo está confinado, para tudo que tenha a ver com a segurança e com suas políticas externas.

David Bromwich ensina inglês em Yale. How Words Make Things Happen já está disponível.

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...