28 de fevereiro de 2026

Não há pretexto ou plano para a guerra de EUA-Israel contra o Irã

Enquadrados pela mídia hegemônica como um "ataque ao mal”, os bombardeios de Washington e Tel Aviv deixam o Irã com poucas alternativas. Após ter sido traído pelos EUA em um acordo sem precedentes, os esforços de Teerã agora apontam para a escalada como uma questão de sobrevivência.

Arron Reza Merat

Jacobin

Uma das principais alegações do trumpismo era que a direita estava virando a página do neoconservadorismo da era Bush na política externa. O ataque de hoje ao Irã é mais uma prova de quão falsa essa alegação sempre foi. (AFP via Getty Images)

Horas depois de Teerã ter concordado com a concessão sem precedentes de eliminar seu arsenal nuclear, Donald Trump anunciou o início de uma guerra aérea “massiva e contínua” entre os EUA e Israel para derrubar a República Islâmica. Trump alegou ter lançado a Operação Fúria Épica porque o Irã se recusou a negociar e “simplesmente queria praticar o mal”. O exército israelense (IDF) anunciou o início das hostilidades em um tweet afirmando que “Israel tem o direito de se defender”.

Às 9h45, horário local de Teerã, Israel e os Estados Unidos utilizaram bombardeiros de alta altitude, jatos e mísseis de cruzeiro para atacar alvos militares e civis em todo o país. Tanto o Líder Supremo Ali Khamenei quanto o Presidente Masoud Pezeshkian foram alvos dos ataques. A mídia israelense está repleta de notícias de que Khamenei, que governa o Irã há quase trinta anos, está morto. (Fontes dentro do Irã relataram que o filho e a nora de Khamenei foram mortos também.)

Os ataques também atingiram o general da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), Mohammad Pakpour, bem como o ministro da Defesa e o chefe da inteligência do Irã. Uma escola para meninas em Minab, no sul do Irã, também foi atingida. O número de mortos chega a 555 pessoas no total, com um número semelhante de feridos. De acordo com a mídia local, as vítimas da escola têm apenas 7 anos de idade. As casas de Mahmoud Ahmadinejad, presidente de 2005 a 2013, e do ex-primeiro-ministro Mir Hossein Moussavi, que está em prisão domiciliar há dezessete anos, também foram alvos, indicando que os Estados Unidos e Israel desejam, na melhor das hipóteses, remover quaisquer pretendentes ao poder que estejam fora de seu controle ou, na pior das hipóteses, criar um vácuo de poder no topo que possa precipitar uma guerra civil.

“Israel adotou como prática o uso da perspectiva de paz como tática para travar guerras contra seus inimigos. Em junho, durante a última rodada de negociações entre EUA e Irã sobre o programa nuclear, Israel assassinou os principais negociadores de Teerã.”

Teerã respondeu lançando uma primeira onda de mísseis balísticos contra Israel e visando alvos militares americanos na região. O Irã está cercado por bases aéreas e navais americanas que abrigam cerca de 40 mil soldados. Ataques foram relatados nas proximidades da Base Aérea Ali Al-Salem, no Kuwait; da Quinta Frota da Marinha dos EUA, no Bahrein; da Base Aérea Al Udeid, no Catar; e da Base Aérea Al Dhafra, nos Emirados Árabes Unidos. Explosões também foram relatadas em Riad e arredores, capital da Arábia Saudita, onde se encontram importantes instalações militares americanas. O Irã fechou o Estreito de Ormuz, ponto crucial para o fluxo de um quinto do petróleo mundial.

Israel adotou como prática o uso da perspectiva de paz como tática para travar guerras contra seus inimigos. Em junho, durante a última rodada de negociações entre EUA e Irã sobre o programa nuclear, Israel assassinou os principais negociadores de Teerã e tentou decapitar o governo civil no primeiro dia de sua guerra de 12 dias contra o Irã, à qual os Estados Unidos se juntaram no último dia. Em setembro, quando as negociações diplomáticas sobre a guerra em Gaza estavam próximas de um acordo de cessar-fogo, Israel atacou o braço político do Hamas em Doha.

Do ponto de vista dos EUA, as negociações com o Irã foram pautadas pelo desejo de Trump de obter um acordo mais vantajoso para os Estados Unidos do que o “terrível” acordo que Barack Obama finalmente negociou em 2016, após mais de uma década de diplomacia entre Teerã e as potências mundiais. Durante seu primeiro mandato, Trump abandonou unilateralmente o acordo e, desde então, assumiu uma postura maximalista nas negociações com Teerã, em consonância com a antiga exigência israelense de que o Irã seja impedido de enriquecer urânio.

Em uma omissão reveladora em 21 de fevereiro, o principal negociador de Trump, Steve Witkoff, disse que o presidente havia ficado surpreso com o fato do Teerã não ter simplesmente “capitulado” às exigências dos EUA. Após essa declaração, ambos os lados pareceram estar próximos de um acordo; o Irã acatou as exigências de Trump de dizer as “palavras secretas” de que “nunca teremos uma arma nuclear” e concordou em enriquecer urânio apenas até o limite necessário para produzir isótopos medicinais e abastecer sua única usina nuclear.

Assim como seus antecessores, Trump tem enfrentado dificuldades nas negociações porque a opção dos EUA de conceder um alívio significativo das sanções — a única coisa que o Irã deseja — exige aprovação do Congresso. Mas o Congresso conta com forte apoio bipartidário a políticas agressivas contra o Irã, principalmente devido à longa influência que o lobby israelense AIPAC exerce sobre o Legislativo, financiando as campanhas de candidatos aliados caso votem alinhados com Israel.

Durante décadas, Khamenei adotou uma política chamada de “paciência estratégica”, concebida para dissuadir a violência dos EUA e de Israel, ou pelo menos mantê-la na zona cinzenta das operações secretas, sabotagem e assassinatos. Mas, desde 7 de outubro de 2023, Israel, com o apoio dos EUA, tem travado um genocídio impiedoso contra a Palestina e guerras regionais contra os aliados do Irã no Líbano, na Síria, no Iraque e no Iêmen, o que proporcionou a Teerã os meios para manter a profundidade estratégica contra Israel e, consequentemente, contra os Estados Unidos. Agora que o Irã está sofrendo um segundo ataque não provocado, todos os incentivos apontam para uma escalada, que, nas circunstâncias atuais, significa intensificar os contra-ataques, podendo chegar a uma guerra em grande escala.

O problema para os Estados Unidos e Israel é que, embora sejam capazes de matar muitas pessoas e semear o terror entre a população iraniana, é extremamente improvável que seu objetivo de guerra, que é bombardear o Irã até provocar uma revolução — ou, na melhor das hipóteses, um golpe de Estado — seja bem-sucedido. Historicamente, as guerras aéreas, por si só, nunca foram bem-sucedidas em promover mudanças de regime. Na Alemanha e no Kosovo, as guerras aéreas foram travadas em conjunto com um exército de ocupação. Em 2025, os Estados Unidos abandonaram sua guerra aérea contra o governo do Iêmen. Teerã se lembrará de 1983, quando apoiou milícias xiitas libanesas durante a guerra civil libanesa em seus ataques contra tropas e navios americanos, o que resultou na retirada das tropas americanas sob fogo inimigo.

Desde junho, o Irã também vem recebendo apoio sem precedentes da Rússia e da China. Moscou tem trabalhado com Teerã para reconstituir suas defesas aéreas, e a China está fornecendo mísseis antinavio. Uma empresa privada chinesa próxima às forças armadas divulgou imagens de satélite sobre as posições de ativos navais dos EUA, o que observadores interpretaram como um sinal da China de que poderia apoiar o Irã com informações em tempo real para sua defesa.

A política interna contemporânea dos EUA também tem pouca capacidade para suportar perdas significativas de vidas americanas. O Irã parece ter uma estratégia de curto prazo para absorver os ataques e tentar infligir o máximo de prejuízos possível aos EUA e a Israel, na esperança de que atores regionais, que temem uma desestabilização mais ampla, pressionem os Estados Unidos por um cessar-fogo. A longo prazo, o Irã se preparou para uma guerra prolongada e sangrenta. Khamenei nomeou seu sucessor e instruiu a nomeação de quatro escalões de oficiais militares para o caso de ataques com decapitação. Teerã pretende matar americanos suficientes para encerrar a guerra, desestabilizando Trump internamente.

Colaborador

Arron Reza Merat era correspondente em Teerã. Atualmente, vive em Londres.

27 de fevereiro de 2026

Quatro anos depois

A guerra na Ucrânia.

Robert Skidelsky


Quatro anos após a chamada invasão em grande escala da Ucrânia, é muito difícil se desvencilhar de todos os clichês, mentiras e reflexos que envolvem a guerra. Nunca vivi uma guerra em grande escala, nem servi como soldado em nenhuma guerra, grande ou pequena, então talvez sempre tenha sido assim. Os nazistas admiravam muito a propaganda britânica na Primeira Guerra Mundial e Goebbels a usou como modelo. O grande pecado na guerra é ser objetivo, e essa lição foi bem aprendida pelos protagonistas desta guerra – os russos, os ucranianos e os aliados da Ucrânia na Europa e (até recentemente) Washington.

O grande perigo de renunciar à busca pela verdade é que o que é imaginado pode se tornar realidade, com as mentiras levando à verdade de uma guerra em grande escala.

No caso da Ucrânia, as notícias direcionam meus sentimentos e meu intelecto para caminhos diferentes. Por um lado, lemos quase diariamente sobre o sofrimento e o heroísmo de soldados e civis ucranianos – sobre os bombardeios russos implacáveis, crianças sequestradas, escolas forçadas a funcionar no subsolo e, claro, os testemunhos de refugiados ucranianos. As atrocidades dos russos, divulgadas sempre que possível, despertam indignação moral.

Mas há muito aprendi que a coragem e o sofrimento, embora merecidamente evoquem admiração e piedade, não validam por si só a causa pela qual são incorridos. Uma ação pode ser corajosa sem ser boa; o sofrimento é lamentável sem ser necessário.

Nós, na Grã-Bretanha, lembramos nossos mortos de guerra como aqueles que deram suas vidas pela liberdade; os alemães lembram os seus como vítimas de uma tragédia. No entanto, os soldados de ambos os lados lutaram com igual bravura. As tropas russas também lutaram bravamente na guerra da Ucrânia, mas nunca, ou raramente, somos convidados a admirar sua bravura, porque sua causa é considerada maligna.

Muito se pode dizer sobre "causa". Em termos legais, os russos "causaram" a guerra da Ucrânia ao invadir um país independente. Não deveriam ter feito isso; havia maneiras melhores e mais pacientes de reconduzir a Ucrânia à esfera de influência russa, onde partes dela haviam permanecido por séculos.

Além disso, foi um erro de cálculo. Supostamente iniciada para impedir a entrada da Ucrânia na OTAN, a guerra adicionou dois novos membros à Aliança e tornou grande parte da Europa anti-Rússia. Concebida como uma "operação especial" com duração de algumas semanas, transformou-se na maior guerra em solo europeu desde 1945.

Mas os esforços em busca da verdade também reconheceriam que os EUA e a OTAN provocaram a Rússia ao trabalharem ativamente para afastar a Ucrânia de sua órbita, a fim de consolidar sua vitória na Guerra Fria.

E o Ocidente não tem nenhuma responsabilidade por uma guerra que dura anos, com centenas de milhares, senão milhões, de mortos ou feridos em ambos os lados, e grande parte da economia ucraniana em ruínas? Não prometeu à Ucrânia "tudo o que fosse necessário" para a vitória sobre a Rússia? A guerra não teria terminado há anos se não fossem por tais promessas? A causa do que o Ocidente define como a independência da Ucrânia justifica o custo em vidas? O provável resultado justificará as mortes, a bravura e o sofrimento?

Alguns de nós, neste país, assim como no continente europeu e nos EUA, temos clamado por uma paz negociada quase desde o início da guerra. Resistimos à comparação entre Putin e Hitler. Simplesmente fomos silenciados. Nada deve ser permitido que enfraqueça a determinação nacional de apoiar a Ucrânia. A autocensura e a desinformação da imprensa nesta guerra por procuração igualaram, e até mesmo superaram, as da guerra "real" contra Hitler. Agora, Trump rompeu a frente unida. A Rússia, diz ele, não foi a causa (ou pelo menos não a única causa) desta guerra “desnecessária”. E por isso, ele foi duramente criticado por todas as pessoas sensatas em nossa parte do mundo.

Sou levado mais uma vez a refletir sobre a sabedoria madura de um ensaio do jovem John Maynard Keynes, quando era estudante em Cambridge, em 1904. A guerra, escreve ele, deve ser abordada com “muita prudência, reverência e cálculo”, e isso inclui a propaganda que a transmite.

“Nossa capacidade de previsão é tão limitada, nosso conhecimento das consequências remotas tão incerto, que raramente é sábio sacrificar um benefício presente [isto é, a paz] por um benefício duvidoso no futuro.” Além disso, “não basta que o estado de coisas que buscamos promover seja melhor do que o estado que o precedeu; Deve ser suficientemente melhor para compensar os males da transição.

A humilhação imposta pela Rússia em 2022 foi suficientemente grave para justificar a invasão da Ucrânia? As exigências russas à Ucrânia após a invasão foram tão intoleráveis ​​a ponto de justificar a resistência armada ucraniana? Acima de tudo, o estado de coisas que o Ocidente procurou promover foi suficientemente melhor para justificar a provocação à Rússia e o prolongamento desta guerra terrível por quatro anos?

Música de protesto

Sobre Yellow Swans.

Luke Roberts

Sidecar


"É apenas o ruído que secretamente desejamos", escreveu certa vez o compositor americano Morton Feldman, “porque a maior verdade se esconde por trás da maior resistência”. Na minha adolescência, no início dos anos 2000, eu era fascinado por música. Meu amigo tinha uma fita VHS de 1991: The Year Punk Broke, e nós costumávamos estudar a performance de “I Love Her All the Time” do Sonic Youth, onde eles tocavam guitarra com baquetas, girando-as em arcos de feedback. Era a coisa mais incrível que eu já tinha visto. Na formulação de Feldman, é como se o ruído fosse uma promessa contida na música, alcançada apenas sob certas condições. Mas “o ruído é o sonho que a música tem de nós”, ele também escreve, em seu momento mais belo e enigmático. E se você pudesse dispensar tudo o mais e simplesmente correr em direção a ele?

Na semana passada, o Yellow Swans fez seus primeiros shows no Reino Unido em quinze anos. A dupla de noise independente – Gabriel Mindel Saloman na eletrônica e guitarra e Pete Swanson na eletrônica, fitas e vocais – formou-se em Portland, Oregon, em 2001 e se separou em 2008. Nesse período, lançaram dezenas e dezenas de gravações em quase tantos formatos – álbuns de estúdio completos, fitas cassete, CDs-R de apresentações ao vivo, singles de 7 polegadas, vinil cortado em torno. Era impossível acompanhar. Essa foi uma era de ouro para a música noise: uma resposta frenética ao início brutal do século.

Penso no noise menos como um gênero musical do que como uma espécie de atitude, um compromisso com o extremo. Mas existem cenas e momentos distintos, do Japão na década de 1980 à Nova Zelândia no início da década de 1990. Enquanto alguns de seus praticantes podiam ser niilistas e machistas, flertando com a estética do fascismo, o Yellow Swans era ao mesmo tempo alegremente impuro em seu gosto e desarmantemente sincero. Eles ostentavam suas convicções políticas nas capas de seus discos: Live During War Crimes (2005) – uma variação da música "Life During Wartime" do Talking Heads – está ao lado de Get the US Out of A (2004), do álbum colaborativo MLK Day (2005) e de Live in the Police State Capitol (2005). Este último incluía um encarte, que lembrava a arte da lendária banda anarcopunk Crass, com fotocolagens e um ensaio sobre o governo Bush. Seja o que for, isso era música de protesto.

Seus primeiros trabalhos envolviam baterias eletrônicas lo-fi, com vocais lutando contra enxames de estática e circuitos queimados. Essa abordagem atingiu seu ápice em Bring the Neon War Home (2004), um disco furioso e grandioso que devia tanto ao hip-hop – a precisão fria do Clipse, a psicodelia vertiginosa de DJ Screw – quanto ao hardcore punk. Em seus trabalhos posteriores, os arranjos espaciais se transformam em camadas e mais camadas de drone e reverb, extáticos e delicados. Com Descension Yellow Swans (2006) e At All Ends (2007), eles abandonaram a bateria eletrônica, e suas composições se tornaram mais abstratas e exploratórias. Mas a urgência parecia dobrar. A guitarra ganha destaque, um som anseioso que se fragmenta constantemente, notas estendidas em murmúrios. "Uma arte política, que seja / ternura", como disse Amiri Baraka. A raiva do movimento pacifista derrotado é exorcizada e reorganizada, em algo entre cacofonia e canção de ninar.

Este é o território que o Yellow Swans vem explorando desde sua reformulação em 2023. No andar de cima do The Lexington, na Pentonville Road, tocaram para talvez 150 pessoas. Duas noites depois, 500 pessoas lotaram o arco ferroviário do Corsica Studios, em Elephant & Castle. Saloman e Swanson tocam um de frente para o outro, debruçados sobre mesas com diversos equipamentos eletrônicos: microfones de contato, mesas de mixagem, um gravador de rolo. A música é alta, mas não de forma insuportável. Há uma intimidade nela. A performance segue o mesmo padrão nas duas noites. Gabriel foi diagnosticado com câncer de pulmão em estágio quatro em novembro do ano passado e explica à plateia que está feliz por estar ali, mas com falta de ar. Ele mora em Minneapolis e fala sobre o estado de cerco e resistência contra o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos). Então ele aperta o play na gravação de um poema – encomendado pelos pioneiros da música concreta do Groupe Recherches Musicales para uma performance em Paris – que, segundo ele, é sobre “câncer, fascismo e fantasmas”. Lembro-me apenas de fragmentos, a voz de Gabriel trocando frases com a de uma mulher, uma falante de francês. Algo sobre munições de gás lacrimogêneo, “um ar pobre / quase insuportável”. “Uma faixa que diz FODA-SE O CÂNCER, uma faixa que diz FODA-SE O ICE, uma faixa que diz FODA-SE A POLÍCIA”. É extremamente comovente. A voz percorre os equipamentos sobre a mesa em circuitos, oscilando e crepitando, acumulando ruído e ruídos da fita.

Isso me acompanha por dias. Lembro-me de uma mistura entre I Am Sitting in a Room (1969), de Alvin Lucier, e Silent Choir (2017), de Raven Chacon. Em sua obra clássica de arte sonora, Lucier – como o compositor explica nas instruções – reproduz uma gravação de sua própria voz “repetidamente na sala” até que as frequências ressonantes “se reforcem” a ponto de restar apenas o ritmo. É um tratado sobre desaparecimento e estrutura. Na gravação de campo do compositor Diné Chacon, que retrata manifestantes silenciosos no protesto contra o oleoduto Dakota Access, ouvimos amplificado o que ele chama de “o eco de um movimento inabalável”, o ar vibrando de fúria. Com Yellow Swans, a voz, confrontando a mortalidade, é ao mesmo tempo frágil e profética, impregnada pelas lutas políticas em curso nos Estados Unidos.

Em seguida, eles apresentam uma composição chamada “Peace Eternity”, que a princípio interpretei erroneamente como “Police Eternity”. Saloman extrai notas de um riff ascendente de três acordes, enquanto Swanson agita um microfone de contato em sua mão esquerda. Sinto meu peito começar a vibrar com as notas graves vindas de algum lugar. Gabe também começa a agitar um microfone, e agora é como uma dança. O crescendo é lento, e então o turbilhão toma conta. As notas originais da guitarra agora são irreconhecíveis, esticadas e distorcidas. Todo o prédio parece feito de som. Parte da alegria dessa música reside na pura incredulidade de que alguém possa estar criando-a. Saloman descreve a faixa como sendo sobre o que significaria sobreviver ao câncer e sobreviver ao fascismo; às vezes, a arte é tão simples e tão complexa quanto um desejo.

O psicanalista Didier Anzieu teorizou sobre o "envoltório sonoro" ou "envolvimento do som" que ocorre no desenvolvimento infantil. Os pais criam um mundo sonoro para a criança com sua fala, canções e respiração. A criança se torna consciente – pelo menos psiquicamente – da "cavidade ressonante" do próprio corpo, de sua própria capacidade de produzir som. Anzieu enfatiza particularmente o processo respiratório como uma troca recíproca. A música que os Yellow Swans extraem de seus instrumentos tem uma maneira de, eventualmente, se tornar autônoma, gerando ciclos de feedback autogerados. É como se o próprio som respirasse, e você, por sua vez, ficasse menos certo de onde seu corpo começa e termina.

O show deles é curto, trinta minutos no máximo. Quando termina, Gabriel senta-se ao lado do palco e descansa enquanto Pete circula conversando com as pessoas, amigos antigos e novos. Sinto como se tivesse presenciado um importante testemunho, cujo significado só será definido mais tarde. Caminho até o metrô com minha irmã – com quem vi o Yellow Swans pela última vez há vinte anos – e ela diz: “No começo, achei que parecia helicópteros, depois pássaros, depois apitos. Tipo, apitos de trem. E aí pensei que simplesmente parecia história.”

A China está vencendo ao esperar

Como Pequim transforma a previsibilidade em poder

Kyle Chan

KYLE CHAN é pesquisador do Centro John L. Thornton para a China na Brookings Institution.

Foreign Affairs

O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, reunindo-se com o líder chinês Xi Jinping em Pequim, janeiro de 2026.
Sean Kilpatrick / Pool / Reuters

Uma das maiores vantagens dos Estados Unidos sobre a China tem sido seu soft power — a capacidade de persuadir outros países, particularmente aliados e parceiros, a concordarem com seus desejos sem precisar recorrer à coerção. Por décadas, outros países fizeram sacrifícios em nome dos Estados Unidos porque acreditavam que, a longo prazo, seria melhor trabalhar com Washington do que com Pequim. Essa era a situação ideal para os Estados Unidos e seus parceiros. Juntos, eles prosperaram por meio da defesa coletiva, mercados integrados e ações coordenadas em desafios comuns, incluindo o relacionamento com a China.

O presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou pôr fim a grande parte dessa cooperação. Os Estados Unidos, outrora o alicerce do sistema internacional, são agora uma importante fonte de instabilidade geopolítica. Trump lançou uma guerra comercial global, impondo tarifas indiscriminadamente a aliados e adversários e intimidando parceiros de longa data. Ele ordenou a captura do líder venezuelano Nicolás Maduro, aumentando os temores de que as regras de soberania não se aplicam mais, e ameaçou repetidamente tomar territórios aliados.

Essas ações levaram muitos parceiros e aliados dos EUA a recorrer à China como alternativa. Mas a China não está se apressando em explorar a ruptura nas relações com os Estados Unidos. Sua abordagem não mudou desde o início do segundo mandato de Trump. Pequim está fazendo o que sempre fez: tentando alinhar outros países aos seus próprios interesses, utilizando incentivos e sanções. De fato, a China é quase tão transacional quanto o governo Trump. O que diferencia Pequim, no entanto, é sua previsibilidade, que oferece aos países uma visão clara de como poderiam trabalhar com a China, mesmo que seja menos atraente do que o que os Estados Unidos poderiam oferecer. Se os Estados Unidos continuarem com seu comportamento caprichoso em relação ao resto do mundo, a China não precisará fazer nada de diferente e ainda assim lucrará com a fragmentação da rede de aliados e parceiros de Washington.

DERIVA CONTINENTAL

O Canadá, um dos aliados mais próximos dos Estados Unidos, tem uma longa parceria com seu vizinho do sul. Ottawa tem sido repetidamente criticada por Pequim por se posicionar ao lado dos Estados Unidos em questões relacionadas à China. Em 2018, por exemplo, o Canadá prendeu Meng Wanzhou, diretora financeira da Huawei, a gigante chinesa de telecomunicações, e filha de seu enigmático fundador, a pedido dos Estados Unidos, com base em um tratado mútuo de extradição, devido a supostas violações das sanções americanas. As consequências para o Canadá foram rápidas e severas. A China retaliou proibindo as importações de carne suína e bovina canadenses por meses e de canola canadense por três anos. A China congelou as relações diplomáticas com o Canadá, que anteriormente estavam em uma trajetória ascendente. E, o mais doloroso, as autoridades chinesas detiveram dois cidadãos canadenses, Michael Kovrig e Michael Spavor, por quase três anos, até que Meng fosse autorizada a retornar à China.

Em 2024, o Canadá alinhou-se novamente com Washington ao se juntar aos Estados Unidos na aplicação de uma tarifa de 100% sobre veículos elétricos chineses. O objetivo do governo Biden era proteger a indústria automobilística norte-americana da concorrência das empresas chinesas. O Canadá sofreu o impacto da retaliação de Pequim, que incluiu tarifas sobre US$ 2,6 bilhões em exportações canadenses, incluindo produtos agrícolas, carne e peixe. Embora o Canadá tivesse seus próprios motivos para deter Meng e impor tarifas sobre veículos elétricos chineses, pagou um preço alto por se alinhar aos Estados Unidos em relação à China.

Quando Trump foi eleito pela segunda vez, ficou claro para Ottawa que sua lealdade aos Estados Unidos não seria recompensada. Como presidente eleito, Trump ameaçou anexar o Canadá e começou a chamá-lo depreciativamente de "51º estado". Assim que assumiu o cargo, Trump impôs tarifas sobre produtos canadenses e ameaçou desmantelar as cadeias de suprimentos norte-americanas profundamente interligadas, construídas ao longo de décadas de confiança e parceria econômica. Os canadenses ficaram justificadamente furiosos. Em 2025, de acordo com pesquisas do Pew Research Center, a porcentagem de canadenses com uma visão favorável dos Estados Unidos caiu para o nível mais baixo desde que as pesquisas do Pew começaram a coletar essa informação, em 2002. Os canadenses boicotaram o bourbon do Kentucky e o suco de laranja da Flórida. Muitos pararam de viajar para os Estados Unidos.

Os líderes em Ottawa também começaram a se distanciar dos Estados Unidos. Em janeiro deste ano, Mark Carney se tornou o primeiro primeiro-ministro canadense a visitar a China em quase uma década. Em Pequim, Carney anunciou que havia fechado um acordo com a China para reduzir as tarifas sobre veículos elétricos chineses em troca de tarifas mais baixas sobre produtos canadenses e isenção de visto para canadenses que visitam a China. Carney declarou que o Canadá estava “forjando uma nova parceria estratégica com a China” e descreveu o relacionamento do Canadá com Pequim como “mais previsível” do que o que tem com Washington.

O Canadá não está sozinho na tentativa de melhorar os laços com a China. Em dezembro, o presidente francês Emmanuel Macron foi recebido com tapete vermelho na China. Em janeiro, Lee Jae-myung tornou-se o primeiro presidente sul-coreano a visitar a China em quase sete anos, e Keir Starmer tornou-se o primeiro primeiro-ministro britânico a fazê-lo em oito anos. Essas visitas não são meramente simbólicas. Depois de anos a tentar reduzir os riscos associados à China, alguns aliados dos EUA estão a ponderar reduzir os riscos associados aos Estados Unidos. Esperam que a China possa ajudar a colmatar essa lacuna.

FRIO E CALCULANTE

Mas quem espera uma ofensiva de charme por parte de Pequim ficará profundamente desapontado. Durante o primeiro mandato de Trump, muitos observadores se perguntaram se Pequim aproveitaria a oportunidade para preencher a lacuna deixada pela volatilidade dos EUA nos assuntos globais. Em 2017, o líder chinês Xi Jinping alimentou essas esperanças ao fazer um discurso abrangente no Fórum Econômico Mundial em Davos, em defesa da globalização e das instituições multilaterais.

No entanto, o discurso de Xi foi seguido por anos da chamada diplomacia do lobo guerreiro da China, uma abordagem confrontativa e nacionalista à política externa, na qual os diplomatas chineses eram rápidos em criticar e retaliar contra ofensas percebidas. Em 2020, a China puniu a Austrália com tarifas e proibições de importação por pedir uma investigação sobre as origens da pandemia de COVID-19. Em 2021, a China cortou o comércio com a Lituânia depois que o país do leste europeu permitiu que Taiwan abrisse um escritório de representação em Vilnius; Pequim, considerando a ilha como parte de seu território, viu isso como uma afronta à sua soberania. Naquele mesmo ano, a China sancionou um grupo de indivíduos e organizações europeias, incluindo cinco membros do Parlamento Europeu, em resposta às sanções da UE contra funcionários e entidades chinesas suspeitas de violações dos direitos humanos em Xinjiang. Isso levou ao fim do Acordo Abrangente de Investimento UE-China, um importante acordo comercial que visava expandir mutuamente o acesso ao mercado e as oportunidades de investimento, e que ambas as partes vinham negociando há mais de sete anos.

A China é quase tão focada em transações quanto o governo Trump.

Pequim adota uma forma de geopolítica friamente racional. Ela tenta usar incentivos para influenciar o comportamento de outros países em seu próprio benefício. Embora todas as grandes potências façam isso até certo ponto, a China é mais estritamente transacional do que a maioria. Durante décadas, os Estados Unidos financiaram uma ampla gama de bens públicos globais dos quais também se beneficiaram, como garantias de segurança por meio de redes de alianças e a expansão do comércio internacional. A abordagem da China, em contraste, tende a estar intimamente ligada aos seus próprios interesses econômicos e territoriais essenciais.

À medida que a economia da China se desenvolveu, os benefícios que Pequim pode oferecer tornaram-se mais atraentes. Ela pode recompensar os países por comportamentos que deseja promover — como endossar sua posição sobre Taiwan ou manter silêncio sobre a repressão em Xinjiang — com projetos de infraestrutura em larga escala apoiados por financiamento estatal chinês. Ela também pode incentivar empresas chinesas a instalar fábricas em outros países. Isso cria empregos locais na indústria manufatureira e ajuda os países a desenvolverem suas indústrias nacionais, particularmente em tecnologia limpa. Empresas chinesas, por exemplo, instalaram fábricas de carros elétricos no Brasil e de baterias na Hungria. A China também pode usar sua posição como o segundo maior importador do mundo para comprar mais mercadorias, principalmente produtos agrícolas ou matérias-primas, de países que atendem aos seus desejos.

A capacidade da China de coagir outros países também cresceu em linha com seu crescente poderio econômico. Acabaram-se os dias em que tudo o que a China podia fazer era proibir importações ou limitar o fluxo de turistas chineses para um país que a tivesse ofendido. Agora, ela pode usar seu controle sobre importantes cadeias de suprimentos para obter o que deseja. Pequim processa mais de 90% dos elementos de terras raras do mundo, que países de todo o mundo precisam para a manufatura avançada. Enquanto Pequim e Washington intensificavam uma guerra comercial em 2025, a China restringiu a venda de elementos de terras raras para os Estados Unidos e grande parte do resto do mundo, fazendo com que Trump recuasse em suas exigências de tarifas mais altas. A China também tem usado seu fornecimento de microchips para promover seus interesses. Em setembro, o governo holandês assumiu o controle da Nexperia, uma fabricante de semicondutores com sede na Holanda, por temer que seu proprietário chinês estivesse prejudicando as operações europeias da empresa. Em represália, a China cortou o fornecimento de chips automotivos para a Europa, levando o governo holandês a reverter sua decisão.

UMA MÃO FIRME

De muitas maneiras, a abordagem de Pequim em relação ao mundo se assemelha à de Trump. Pequim é transacional, pouco sentimental, até mesmo implacável, mas também altamente adaptável. Ela evita valores elevados em prol de negociações pragmáticas. A principal diferença é que, ao contrário dos Estados Unidos sob Trump, a China é previsível. Pequim deixa abundantemente claro o que deseja. Autoridades chinesas repetem o mesmo conjunto de linhas vermelhas em questões como Taiwan à exaustão. Recompensas ou punições aplicadas por Pequim geralmente estão ligadas a comportamentos concretos. Sempre que um acordo de armas dos EUA com Taipei é fechado ou um líder americano visita Taiwan, por exemplo, Pequim responde com outra rodada de exercícios militares ao redor da ilha. Pequim essencialmente treinou o mundo para antecipar suas reações.

Em contraste, quando Trump blefa, suas exigências específicas são frequentemente obscuras, e ele pode mudar as regras do jogo posteriormente. Considere o caso da Coreia do Sul. Em outubro passado, o país prometeu investir US$ 350 bilhões nos Estados Unidos como parte de um acordo comercial mais amplo. Em janeiro, no entanto, Seul foi surpreendida com novas tarifas americanas porque, aos olhos do governo Trump, não havia cumprido o acordo com rapidez suficiente.

A China oferece ao mundo previsibilidade, não uma alternativa mais generosa à liderança dos EUA. A China pode fornecer aos aliados dos EUA investimentos, acesso aos seus mercados e ajudar a melhorar a competitividade de certos setores, como a fabricação de veículos elétricos. Pequim, por sua vez, espera vender mais produtos chineses no exterior e garantir o fornecimento de certas tecnologias, como componentes para sua indústria de semicondutores, ao mesmo tempo em que impede que outros países interfiram no que considera seus assuntos internos, incluindo Taiwan. A falta de confiança e de valores compartilhados limita o alcance e a profundidade de qualquer parceria. Mas a China e seus aliados de longa data dos EUA poderiam, realisticamente, forjar novas redes de comércio e cadeias de suprimentos que poderiam excluir os Estados Unidos.

Pequim não está se apressando para tirar proveito do caos de Trump porque não precisa. Pode adotar a mesma tática de sempre: cooperar quando possível e retaliar quando necessário, sempre de olho em seus próprios interesses nacionais. Em última análise, é Trump quem está fazendo o trabalho pesado de destruir a confiança nos Estados Unidos e empurrar o mundo para os braços da China. Os Estados Unidos precisam trabalhar duro para recuperar a confiança de seus aliados ou correm o risco de perder sua vantagem mais poderosa — o soft power — sobre a China.

26 de fevereiro de 2026

O genocídio em Gaza não terminou

O historiador Lee Mordechai, radicado em Jerusalém, passou os últimos dois anos documentando a violência israelense contra civis em Gaza. Em entrevista, ele explica por que o genocídio continuou mesmo após o suposto cessar-fogo.

Entrevista com
Lee Mordechai


Em Gaza, a violência não cessou apesar do cessar-fogo entre Israel e o Hamas, anunciado em outubro. (Abed Rahim Khatib / Anadolu via Getty Images)

Entrevista por
Elias Feroz

A destruição da Faixa de Gaza, que se desenrolou desde 7 de outubro de 2023, não tem paralelo, mesmo entre os crimes israelenses do passado. Algumas estimativas apontam que mais de 80% da infraestrutura material foi destruída, e até mesmo as forças israelenses admitem um número de mortos superior a 70.000. Desde o início do chamado cessar-fogo, os militares israelenses continuaram arrasando bairros inteiros, levando algumas organizações de direitos humanos a acusá-los de destruir provas de seus crimes.

Um israelense que se recusa a ignorar essas atrocidades é Lee Mordechai, historiador do Império Romano do Oriente e professor sênior do Departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém. Ele passou os últimos dois anos documentando a guerra em Gaza por meio de seu projeto "Bearing Witness" (Testemunhando). A iniciativa coleta sistematicamente depoimentos, reportagens e outras evidências da violência contra civis, com o objetivo de preservar um registro factual do que ele chama de genocídio em curso.

Em sua visão, a violência não terminou, apesar do cessar-fogo entre Israel e o Hamas anunciado em outubro. Em entrevista à revista Jacobin, ele explicou a Elias Feroz como a indiferença institucional, o silêncio da mídia e a normalização social permitem que as atrocidades continuem praticamente sem controle. Explicando sua própria pesquisa, ele esclarece por que os acadêmicos israelenses permanecem em grande parte em silêncio e por que documentar esses eventos é essencial para garantir a responsabilização histórica.

Elias Feroz

Você foi uma das primeiras vozes públicas em Israel a descrever as ações de Israel em Gaza como genocídio, e é o fundador do Bearing Witness, um projeto que documenta os crimes de guerra de Israel em Gaza. Dado que Israel-Palestina não é sua principal área de pesquisa, o que o motivou a realizar este trabalho?

Lee Mordechai

Sim, eu não tinha formação em história de Israel-Palestina. Quando o dia 7 de outubro aconteceu, eu estava em período sabático nos Estados Unidos. Observar os eventos de fora — especialmente consumindo mídia não israelense e, em particular, fontes alternativas e não convencionais — foi extremamente influente para mim. Isso me fez perceber o horror dos eventos que eu estava testemunhando.

Naquele momento, senti que precisava conscientizar outras pessoas sobre o que eu estava vendo, principalmente um público israelense mais amplo. Tentei diferentes maneiras de fazer isso. Conversei com amigos e familiares e tentei publicar artigos de opinião no Haaretz. Nada disso pareceu ter muito impacto.

Então, em dezembro de 2023, a África do Sul apresentou seu caso [à Corte Internacional de Justiça]. Li o documento completo — a petição de mais de oitenta páginas — e lembro-me de ter pensado que aquilo era algo que eu mesma poderia fazer. As fontes e os métodos não eram fundamentalmente diferentes dos materiais com os quais trabalho em minhas pesquisas acadêmicas como historiadora.

Acho que não teria conseguido iniciar este projeto se estivesse em Israel naquela época.

Antes mesmo de 7 de outubro, eu já vinha refletindo sobre minhas obrigações como acadêmico para com a sociedade que paga meu salário. Depois de 7 de outubro, tentei entender qual papel eu deveria desempenhar nessa realidade. Também fui influenciado pelo cientista político John Mearsheimer, que destacou que, mesmo que ninguém ouça, você ainda tem a obrigação de falar e apresentar seus argumentos publicamente, para que fique registrado que você está do lado certo da história. Comecei a reunir evidências e a publicá-las nas minhas redes sociais, que na época eram praticamente inexistentes. No início, quase ninguém prestava atenção, mas continuei mesmo assim. Com o tempo, as pessoas começaram a se importar. Comecei a publicar no início de janeiro de 2024.

Elias Feroz

Seu projeto viralizou algumas semanas depois.

Lee Mordechai

Exatamente. A primeira grande onda foi por volta de meados de março de 2024. Começou como um projeto individual. Após meu retorno a Israel no verão de 2024, um extenso perfil publicado no Haaretz levou dezenas de israelenses — a maioria judeus, alguns palestinos — a entrarem em contato comigo e se oferecerem como voluntários. Agora temos cerca de cem voluntários com cidadania israelense, sendo que aproximadamente dois terços residem em Israel e o restante, principalmente na Europa e nos Estados Unidos. Há mais de um ano, trabalhamos para documentar, catalogar e preservar evidências.

Estamos publicando nosso trabalho em hebraico, inglês e, esperamos, em árabe. Embora representemos uma pequena minoria, aprendi que mesmo um grupo relativamente pequeno e bem coordenado pode ter um impacto significativo — especialmente quando as ferramentas digitais são usadas com responsabilidade.

Elias Feroz

Como sua experiência nos Estados Unidos o afetou? Estar fora de Israel foi necessário para que você chegasse a essas conclusões?

Lee Mordechai

Acho que não teria conseguido iniciar este projeto se estivesse em Israel na época. Tanto a realidade no terreno quanto o discurso público aqui tendem a nos arrastar para questões de curto prazo, tornando extremamente difícil nos concentrarmos em uma única tarefa por um período prolongado. Se eu estivesse em Israel, provavelmente teria participado de manifestações, trabalhado como voluntário em uma ONG ou ajudado israelenses deslocados de alguma forma prática.

Estando nos Estados Unidos, nenhuma dessas opções estava disponível para mim, então tive que encontrar outra maneira de reagir. Sou historiador e escrever é o que sei fazer. Nesse sentido, escrever foi a forma mais natural de expressão. Inicialmente, não era direcionado a nenhum público específico. Eu escrevia para mim mesmo, mas também esperava que este trabalho pudesse eventualmente alcançar um público mais amplo.

Elias Feroz

Que tipo de repercussões pessoais, se houver, você enfrentou em Israel por causa do seu projeto ou das suas ações em geral?

Lee Mordechai

As repercussões foram mínimas. Ninguém da polícia, dos serviços de segurança ou das autoridades governamentais entrou em contato comigo. Na prática, posso dizer o que quiser. Houve alguma resistência acadêmica, mas nada mais sério do que alguns e-mails de ódio ocasionais. Não fui ameaçado nem sofri assédio significativo, o que, francamente, me surpreendeu. Eu esperava uma reação bem diferente. Tenho a impressão de que as pessoas me veem como uma espécie de bobo da aldeia — alguém que diz coisas desconfortáveis ​​ou inconvenientes. É mais fácil me ignorar do que se envolver seriamente com o que estou dizendo.

Elias Feroz

Como seus alunos reagem quando você fala sobre Gaza?

Lee Mordechai

Ministrei dois cursos diretamente relacionados ao tema. Um deles foi um curso sobre a história de Gaza, da pré-história aos dias atuais, que lecionei no início de 2025. Mais recentemente, ministrei um seminário especificamente sobre a própria guerra. Ambos os cursos tiveram turmas muito cheias — bem acima do número habitual de alunos. Houve tensões, é claro, mas isso era de se esperar. No geral, os alunos se envolveram seriamente com o conteúdo dos cursos e acredito que eles foram importantes para eles. Ninguém questionou meu direito de lecionar esses cursos e ninguém me pediu para parar.

O primeiro curso foi frequentado exclusivamente por alunos judeus israelenses. O segundo incluiu um pequeno número de cidadãos palestinos ou residentes de Israel. [Nota: Os residentes palestinos de Jerusalém, em sua maioria, não possuem cidadania israelense, mas sim um documento de identidade israelense que confirma sua residência permanente na cidade.] Em ambos os casos, as discussões permaneceram em grande parte dentro de um contexto intra-israelense, o que é compreensível. No geral, a experiência foi positiva e pretendo continuar oferecendo esses cursos nos próximos anos. Elias Feroz

Qual é a presença da situação em Gaza no discurso acadêmico israelense hoje, particularmente na Universidade Hebraica onde você leciona?

Lee Mordechai

Ela está praticamente ausente. Tanto na academia quanto na sociedade israelense em geral, é relativamente fácil ignorar o que está acontecendo em Gaza e retornar a uma sensação de normalidade. A vida cotidiana em Israel continua mais ou menos como de costume. Gaza raramente aparece em conversas do dia a dia e muitas vezes está ausente da mídia. Um amigo jornalista me disse recentemente que leu uma edição inteira do Haaretz sem encontrar um único artigo sobre Gaza. O mesmo acontece frequentemente com o Ynet, o site de notícias mais lido em Israel.

Como resultado, a maioria das pessoas aqui não pensa em Gaza nem se envolve com ela. A mídia desempenha um papel ativo na perpetuação dessa falta de conhecimento. A menos que alguém busque informações deliberadamente, sempre há outras preocupações mais imediatas que têm prioridade.

Elias Feroz

Quando se trata de Gaza, o governo e a academia estão alinhados?

Lee Mordechai

Em grande parte, sim. Muitos acadêmicos podem se sentir desconfortáveis ​​com o que está acontecendo em Gaza, mas justificam seu silêncio enquadrando a situação como um momento de emergência. A crítica à política de Israel em relação a Gaza é facilmente interpretada pela direita como apoio ao Hamas. Essa ameaça intimida políticos, juízes e acadêmicos.

Elias Feroz

Desde que Israel e o Hamas concordaram com o que foi apresentado como um cessar-fogo, centenas de palestinos ainda foram mortos. Como você caracterizaria o estágio atual do sofrimento palestino?

Lee Mordechai

Não acredito que o genocídio tenha terminado. O que estamos vendo é a continuação do mesmo processo, porém de uma forma diferente. A maioria dos israelenses desconhece que a violência continua. Os constantes ataques aéreos, a destruição de escolas e as mortes de civis — frequentemente incluindo mulheres e crianças — ou não são noticiados ou são enquadrados quase que exclusivamente em termos de “terroristas”. Essa dinâmica não é nova. Mesmo antes de 7 de outubro, Gaza era tratada como algo distante — uma questão que era melhor ignorar, para ser resolvida por outros, sem exigir atenção constante ou engajamento moral da sociedade israelense.

Elias Feroz

Na sua opinião, o que precisaria acontecer para que o genocídio fosse considerado encerrado? Há indicadores concretos que você procuraria?

Lee Mordechai

Uma solução política genuinamente acordada, combinada com uma cessação clara e sustentada das hostilidades, seria essencial. Em teoria, existem diferentes desfechos possíveis. Um deles seria uma solução abertamente violenta, como a expulsão em massa, ou seja, a limpeza étnica. Isso encerraria esta fase específica, embora obviamente não de forma positiva. Outra alternativa seria um acordo político que estabilizasse a vida em Gaza e abordasse as condições básicas da existência palestina na região, talvez por meio da criação de um Estado.

As instituições internacionais, sejam nacionais ou globais, mostraram-se fracas, ou pelo menos facilmente contornáveis.

Elias Feroz

Logo após o cessar-fogo de outubro, você escreveu sobre a amnésia coletiva de Israel e o rápido apagamento do sofrimento palestino da consciência pública. Esse processo se acelerou agora que os últimos reféns israelenses foram libertados?

Lee Mordechai

É difícil mensurar a aceleração nesse sentido. O que importa mais é o próprio processo. A uma hora de onde moro, aproximadamente dois milhões de pessoas vivem em meio a uma catástrofe humanitária. A maioria perdeu suas casas e meios de subsistência. A fome e a privação são generalizadas. Mesmo assim, a vida cotidiana em Israel parece normal.

Até mesmo mais perto de Gaza, a vida também pode parecer normal, pontuada ocasionalmente por explosões — ataques aéreos, demolições ou detonações cuja natureza muitas vezes é incerta. A menos que alguém escolha ativamente prestar atenção, é surpreendentemente fácil esquecer que tudo isso está acontecendo. Como historiador, considero isso profundamente instrutivo. Assemelha-se a situações sobre as quais tenho lido há anos: pessoas vivendo em estreita proximidade com o sofrimento em massa e, posteriormente, alegando que não sabiam. A realidade é que não saber, ou optar por não saber, é mais fácil do que gostamos de admitir.

Elias Feroz

O terror dos colonos na Cisjordânia, desde ataques contra civis palestinos até demolições de casas, muitas vezes recebe pouca atenção pública. Como essa omissão se encaixa no padrão mais amplo de esquecimento coletivo que você descreve na sociedade israelense?

Lee Mordechai

A situação na Cisjordânia é um pouco diferente. Há menos esquecimento lá, em parte porque a Cisjordânia permanece relativamente acessível aos israelenses. Numerosas ONGs atuam no terreno, documentando abusos e tentando levá-los ao conhecimento público. Isso não significa que a situação seja boa — não é —, mas incidentes individuais na Cisjordânia recebem cobertura da mídia. Esse não é o caso de Gaza. Isso era verdade mesmo antes de 7 de outubro e continua sendo verdade hoje.

Organizações como a B'Tselem podem operar na Cisjordânia. Ativistas e jornalistas podem viajar para lá, coletar depoimentos, distribuir câmeras e construir redes de longo prazo. Gaza tem estado muito mais isolada. De onde moro, consigo chegar a muitas partes da Cisjordânia em meia hora. Gaza é completamente diferente — está totalmente isolada dos israelenses. Há também uma dimensão política. Certos atores políticos de centro-esquerda ocasionalmente se dispõem a criticar os assentamentos e a violência dos colonos, pelo menos quando isso se alinha aos seus interesses políticos. Esse espaço para críticas não existe em relação a Gaza.

Não existe praticamente nenhuma crítica significativa à política para Gaza, nem mesmo dentro da oposição judaica liberal-sionista.

Elias Feroz

Nos últimos meses, Israel suspendeu as atividades de dezenas de organizações humanitárias nos territórios palestinos ocupados — uma medida que especialistas da ONU consideram uma clara violação do direito internacional — e destruiu a sede da UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo) em Jerusalém. Que impacto você acha que essas ações terão em Gaza e no futuro da sociedade civil palestina?

Lee Mordechai

Devo deixar claras as limitações da minha especialização. Não sou especialista em direito internacional nem em governança de ONGs. O que posso oferecer é uma interpretação mais ampla. O que estamos testemunhando é o colapso da ordem internacional pós-Segunda Guerra Mundial, particularmente da estrutura que emergiu após a Guerra Fria. Os Estados estão cada vez mais aptos a fazer coisas que antes eram consideradas inaceitáveis.

O poder agora se sobrepõe rotineiramente às normas anteriores.

A destruição das instalações da UNRWA é um exemplo claro. Um Estado não deveria confiscar e demolir propriedades da ONU. O fato de isso poder acontecer reflete a fragilidade das instituições internacionais. O poder agora se sobrepõe rotineiramente às normas anteriores. Os países que deveriam defender essa ordem internacional — especialmente os Estados Unidos, mas também os estados da Europa Ocidental — permitiram, em grande parte, que ela entrasse em colapso.

[O Secretário de Estado dos EUA] Marco Rubio afirmou recentemente em Munique que os interesses dos EUA e do Ocidente devem estar acima da ordem global. Alguns governos ocidentais anunciaram restrições à venda de armas para Israel, apenas para revertê-las discretamente. A Alemanha é um exemplo recente. A contínua cooperação militar, econômica e diplomática com Israel sinaliza que essas ações são, em última análise, toleráveis.

Dentro de Israel, isso gera uma sensação de normalidade. Se as relações internacionais continuarem como de costume, as pessoas concluem que nada de excepcional está acontecendo. E se nada de excepcional está acontecendo, não há razão para mudar o rumo. As restrições só importam se violá-las acarretar um custo.

Elias Feroz

Na mídia e na política de língua alemã, em particular, a tática do BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) e, mais especificamente, os apelos ao boicote às universidades israelenses recebem críticas até mesmo da esquerda, pois argumenta-se que tais boicotes isolarão o setor progressista da intelectualidade israelense e o levarão para os braços dos nacionalistas. Como acadêmico israelense que se opõe ao genocídio em Gaza, você concorda com essa avaliação?

Lee Mordechai

Não considero esse argumento convincente. A comunidade acadêmica progressista em Israel é muito pequena. Invocá-la muitas vezes funciona como uma forma de evitar a tomada de medidas. Um boicote acadêmico seria inconveniente para mim, mas eu o entenderia. Acredito que acadêmicos genuinamente progressistas também entenderiam a lógica por trás de tais medidas.

A comunidade acadêmica liberal em Israel é muito maior do que a comunidade acadêmica progressista. Muitos liberais se oporiam fortemente a um boicote, mas não vejo evidências de que tal pressão os levaria ao nacionalismo. De forma mais ampla, dentro da academia israelense, o isolamento acadêmico é levado a sério. O reconhecimento acadêmico internacional confere legitimidade, e muitos acadêmicos estão profundamente empenhados em manter essas conexões. O governo se preocupa menos com o BDS acadêmico e, na verdade, muitas vezes vê a academia israelense como uma adversária política. Mas isso não significa que a pressão acadêmica seja irrelevante para o governo. Ela atinge um setor que ainda valoriza normas e status internacionais.

Elias Feroz

Você viaja frequentemente aos Estados Unidos. Já enfrentou pessoalmente pedidos de boicote ou isolamento profissional?

Lee Mordechai

Não explicitamente, até onde eu sei. Mas, neste momento, isso não me importa muito. Continuarei fazendo o que acredito ser necessário. Se isso levará a boicotes ou não, cabe a outros decidir.

Elias Feroz

Como historiador do Império Bizantino, qual o valor que você vê no estudo e no ensino da história em geral? Não é frustrante testemunhar o presente — especialmente a destruição em Gaza — e ver que as lições da história não parecem impedir a recorrência de tragédias?

Lee Mordechai

Não acredito que a história ofereça lições simples ou diretas. Não é um manual para prevenir catástrofes.

Dito isso, o estudo da história tem valor em pelo menos dois aspectos. Primeiro, o conhecimento tem valor intrínseco. Compreender o passado é importante por si só. Em segundo lugar, a história desenvolve habilidades essenciais para o presente: pensamento crítico, julgamento independente e a capacidade de sintetizar diversas fontes em uma interpretação coerente dos eventos.

A comunidade acadêmica progressista em Israel é muito pequena. Invocá-la muitas vezes funciona como uma forma de evitar a tomada de medidas.

A história também nos torna muito conscientes de como o passado é constantemente manipulado para fins políticos atuais. Vemos isso, por exemplo, nas tentativas de retratar a história de Gaza como inerentemente judaica. Existem inúmeros livros que afirmam que Gaza sempre foi judaica, que uma comunidade judaica sempre existiu lá. É uma forma de fabricar afirmações históricas. Esses não são relatos neutros do passado; são ferramentas políticas.

Acabei em uma posição — geográfica, profissional e histórica — que me permite observar esses eventos de perto e documentá-los de forma sistemática. Minha responsabilidade, como eu a vejo, é registrar, analisar e organizar esse material da forma mais clara possível para aqueles que possam vir depois, quer queiram se envolver com ele ou não. Se analisarmos as ondas anteriores de violência em Gaza, pouquíssimas pessoas as acompanharam de perto na época ou retornaram a elas posteriormente. Isso pode acontecer novamente. Mas essa possibilidade não altera a necessidade de se trabalhar agora.

Elias Feroz

Como você acha que os historiadores do futuro olharão para o que aconteceu em Gaza desde 7 de outubro?

Lee Mordechai

Há duas respostas possíveis. Uma é otimista: que os historiadores do futuro olharão para trás com choque e se perguntarão como tantas pessoas permitiram que isso acontecesse, e talvez usem esse julgamento para responsabilizar moralmente suas sociedades futuras.

Mas essa resposta pode ser ingênua. Se observarmos as tendências globais mais amplas, muitas normas que antes pareciam estáveis ​​já não o são. Ações que antes eram consideradas inaceitáveis ​​agora são realizadas com pouca resistência. As instituições internacionais, sejam nacionais ou globais, mostraram-se fracas, ou pelo menos facilmente contornáveis.

Não há garantia de que o tempo trará clareza ou acerto de contas moral. É perfeitamente possível que estejamos caminhando para uma ordem internacional mais violenta, menos limitada pelo direito internacional e por normas compartilhadas. Nesse cenário, talvez nunca haja um momento de conscientização ou responsabilização coletiva.

Colaboradores

Lee Mordechai é professor sênior do Departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Elias Feroz é um escritor freelancer. Entre outros temas, seus interesses de pesquisa incluem racismo, antissemitismo e islamofobia, bem como a política e a cultura da memória.

A Ucrânia está perdendo a guerra.

Com Moscou aproveitando sua vantagem, Kiev deveria trocar território por paz.

Michael C. Desch

MICHAEL C. DESCH é professor titular da Cátedra Packey J. Dee de Relações Internacionais na Universidade de Notre Dame e diretor fundador do Centro de Segurança Internacional O’Brien Notre Dame, em homenagem à família Brian e Jeannelle Brady.


Soldados ucranianos na linha de frente na região de Donetsk, Ucrânia, fevereiro de 2026
Iryna Rybakova / Forças Armadas da Ucrânia / Reuters

Quatro anos após a invasão russa em larga escala da Ucrânia, o governo Trump pressiona Kiev a aceitar concessões territoriais dolorosas como preço para a paz. Em uma minuta de acordo de paz divulgada inicialmente pela Axios em novembro, o governo propôs que as regiões da Crimeia, Donetsk e Luhansk sejam reconhecidas como território russo de fato e que a Rússia mantenha o controle das partes de Kherson e Zaporizhzhia que suas forças ocupam atualmente. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, resiste, recusando-se a fazer qualquer coisa que viole a integridade territorial de seu país. Contudo, a realidade no campo de batalha não está a seu favor.

A Ucrânia tem oferecido uma resistência valente, mas sua determinação não consegue disfarçar o fato de que está perdendo a guerra. A Rússia controla uma vasta extensão do território ucraniano, e Kiev tem poucas chances de desalojá-la, como demonstrou a fracassada contraofensiva da Ucrânia em 2023. É certo que os recentes avanços russos têm sido muito lentos e a um custo significativo; nos últimos três anos, a Rússia conquistou apenas um por cento do território ucraniano. Mas isso não muda o fato de que a Rússia agora detém quase um quinto do território dentro das fronteiras da Ucrânia de 1991 — ou que os maiores recursos e a população da Rússia significam que Moscou pode continuar lutando por muitos anos. Superar essas vantagens russas e recuperar o território perdido no campo de batalha exigiria tempo e investimento que a Ucrânia não possui. As circunstâncias atuais, portanto, estão empurrando Kiev para uma paz negociada — uma que necessariamente incluirá a rendição de território ucraniano.

FICANDO PARA TRÁS

A julgar pelos números, a trajetória da guerra não favorece a Ucrânia. As taxas de perdas no campo de batalha de cada lado são um exemplo. O veículo de mídia russo Mediazona monitora as mortes de militares russos usando mídias sociais, obituários e comunicados oficiais do governo, fornecendo as estimativas mais confiáveis. (As estimativas das agências de inteligência ocidentais variam drasticamente e muitas vezes se correlacionam com as preferências políticas do governo.) No final de 2025, os analistas da Mediazona identificaram 156.151 russos mortos na guerra e, como nem todas as mortes são divulgadas publicamente, usaram dados populacionais para estimar um total de 219.000 mortos. A organização não governamental ucraniana UA Losses, empregando uma metodologia semelhante, relatou 87.045 ucranianos mortos em combate e 85.906 desaparecidos em ação, um número que provavelmente inclui mortes não reconhecidas e deserções.

Embora a Ucrânia esteja sofrendo menos perdas em termos absolutos, a guerra está dizimando uma proporção maior de sua força de trabalho. A população da Ucrânia hoje é de pouco menos de 36 milhões, o que representa cerca de 26% da população da Rússia, de 140 milhões. A Ucrânia tem pouco menos de 9,5 milhões de homens entre 25 e 54 anos, e perdeu entre um e dois por cento dessa faixa etária. Para a Rússia, que tem pouco mais de 30,2 milhões de homens na mesma faixa etária, perdas um pouco maiores representam apenas 0,5% a 0,7% do total. Em última análise, a Rússia, com sua população muito maior, pode suportar perdas totais maiores do que a Ucrânia.

Além disso, a Rússia está lutando principalmente com soldados contratados — pessoas que se alistaram voluntariamente — e mantendo os recrutas longe da linha de frente. O resultado são soldados russos mais motivados. Até agora, Moscou não tem tido muita dificuldade em atender às necessidades de recrutamento. A Ucrânia, em contraste, depende fortemente do recrutamento obrigatório. As recentes deficiências no recrutamento e as deserções levaram a esforços cada vez mais drásticos para atingir a meta de 30.000 homens por mês. Esses esforços incluem a "busificação", a prática de prender homens na rua e levá-los em vans para o escritório de recrutamento local. Além de impopulares, esses métodos severos estão resultando principalmente em soldados mais velhos, menos saudáveis ​​e claramente relutantes, muitos dos quais desertam na primeira oportunidade. Os que permanecem contribuem pouco para o esforço de guerra.

Quando se trata de sistemas de armas principais, a Ucrânia está em desvantagem em todos os aspectos. Em 2025, os tanques da Rússia superavam os da Ucrânia em uma proporção de quase cinco para um, incluindo o equipamento que Moscou tinha em estoque. A Rússia tinha mais de três vezes o número de veículos de combate de infantaria e veículos blindados de transporte de pessoal do que a Ucrânia. A Rússia possuía 670 peças de artilharia rebocada, contra 543 da Ucrânia. Tinha cinco vezes mais artilharia móvel, quase dez vezes mais sistemas de lançamento múltiplo de foguetes e quase cinco vezes mais morteiros. A Rússia contava com 163 aeronaves de combate; a Ucrânia, com 66. Embora a enorme vantagem russa resida, em parte, em equipamentos mais antigos e armazenados, grande parte do equipamento ocidental enviado à Ucrânia também é antigo, proveniente dos estoques de países parceiros. Mas mesmo excluindo os equipamentos armazenados, na maioria das categorias, os estoques russos são pelo menos o dobro dos ucranianos.


O poder econômico é fundamental para o poder militar, e a Rússia também tem vantagem nesse quesito. O PIB da Rússia em 2024 (medido pela paridade do poder de compra) foi de quase US$ 7 trilhões. O da Ucrânia, em contraste, foi de quase US$ 657 bilhões, menos de 10% do da Rússia. As medidas nominais mostram a mesma diferença substancial. Gastando cerca de 7% do PIB, a Rússia pode alocar US$ 484 bilhões para a defesa. Mesmo que a Ucrânia gaste 30% do seu PIB, conseguirá reunir um orçamento de defesa de apenas US$ 197 bilhões, menos da metade do da Rússia.

É verdade que esse valor subestima a capacidade militar ucraniana a longo prazo, pois exclui a substancial assistência financeira e em espécie que o país recebeu da Europa Ocidental e, até recentemente, dos Estados Unidos. Mas a Ucrânia é mais dependente de parceiros estrangeiros do que a Rússia. A Rússia possui uma grande indústria de defesa nacional e enormes estoques militares, embora também tenha passado a depender, em certa medida, de aliados, incluindo a China e a Coreia do Norte. A Rússia pode não ter todas as cartas na manga, mas tem grandes batalhões e recursos financeiros abundantes.

Por fim, considere os objetivos estratégicos de cada lado. Embora haja debate sobre quais seriam os objetivos da Rússia, declarações de membros do governo enfatizam dois: o controle de algumas ou todas as regiões ucranianas de Donetsk, Kherson, Luhansk e Zaporizhzhia e a exclusão da Ucrânia da OTAN.

O governo russo há muito tempo busca impedir a entrada da Ucrânia na OTAN, alegando que a adesão ucraniana à aliança representaria uma ameaça militar para a Rússia. Em alguns momentos, pareceu até que esse objetivo se sobrepôs a ambições territoriais mais amplas. Quando a Rússia anexou a Crimeia da Ucrânia em 2014, claramente desejava o controle daquele território. Militantes alinhados à Rússia, com diferentes níveis de apoio russo, pegaram em armas em Donetsk e Luhansk, que juntas formam o Donbas, para se separar da Ucrânia quase simultaneamente. Mas a Rússia apoiou os Acordos de Minsk, que puseram fim aos combates, mas não incluíram novas reivindicações territoriais à Ucrânia. Uma possível explicação é que, ao admitir que Donetsk e Luhansk permaneceriam em uma Ucrânia federalizada, Moscou esperava que as regiões pró-Rússia impedissem Kiev de aderir à OTAN ou de se inclinar para o Ocidente. De fato, a Rússia reconheceu formalmente a independência das Repúblicas Populares de Donetsk e Luhansk apenas na véspera da invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022. Em um discurso presidencial em setembro de 2022 e subsequente ação parlamentar, a Rússia anexou formalmente essas duas regiões, além de Kherson e Zaporizhzhia.

A Rússia agora controla quase um quinto do território dentro das fronteiras da Ucrânia de 1991.

Hoje, a Rússia controla 99% de Luhansk, 76% de Kherson, 74% de Zaporizhzhia e 72% de Donetsk. As forças russas estão avançando em Zaporizhzhia, combates de baixa intensidade continuam em Kherson, e Moscou está conduzindo operações limitadas no norte para garantir uma zona tampão nas regiões de Kharkiv e Sumy. Mas a resposta positiva da Rússia ao plano de paz de 28 pontos do governo Trump — que daria a Moscou todo o território de Donetsk e Luhansk, mas apenas partes das outras regiões orientais da Ucrânia — sugere que o controle total do Donbas é o objetivo territorial mais consistente de Moscou. Seu objetivo político mais consistente continua sendo manter a Ucrânia fora da OTAN. Em um mundo ideal, os líderes russos poderiam cogitar metas territoriais e políticas mais ambiciosas. Após quatro anos de guerra extenuante, no entanto, essas conquistas mais limitadas parecem ser tudo o que o presidente russo Vladimir Putin acredita poder obter.

Em contraste, os líderes ucranianos têm sido firmes em afirmar que seus objetivos permanecem sendo a restauração do controle sobre o território definido pelas fronteiras do país de 1991, que inclui a Crimeia, e a defesa da soberania da Ucrânia, especialmente a liberdade de aderir a qualquer aliança que Kiev deseje. Mas a Ucrânia não possui os recursos militares para uma ofensiva bem-sucedida nem a vontade política para uma defesa robusta.

Dado o comprimento da atual linha de frente e os problemas de efetivo da Ucrânia, a maioria das unidades ucranianas precisa permanecer na defensiva. Em junho de 2023, as forças armadas russas romperam a contraofensiva ucraniana com a chamada Linha Surovikin, um sistema de fortificações bem construídas, apoiado por artilharia pesada e outras armas de fogo indireto. Os ucranianos, por outro lado, só tardiamente começaram a construir defesas semelhantes. O ambicioso objetivo ucraniano de libertação territorial deixou seu exército com poucos incentivos para fortificar a linha de frente ou as áreas atrás dela. O fornecimento de armamento ocidental avançado também pode ter convencido os ucranianos de que poderiam substituir a inovação operacional por tecnologia ou mais apoio ocidental. Além disso, a corrupção desenfreada minou todos os aspectos do esforço de guerra ucraniano, incluindo a construção de fortificações. A Rússia não está isenta de corrupção, mas seu tamanho e vantagens econômicas tornam seus efeitos menos danosos.

UCRÂNIA SUPERADA EM MANOBRAS

Os objetivos da Rússia parecem razoavelmente compatíveis com suas capacidades e tendências no campo de batalha. Os objetivos da Ucrânia, em contraste, parecem estar além de seu alcance. As forças armadas ucranianas estão tão dispersas ao longo da Linha de Controle de 1.000 quilômetros que não conseguem defendê-la eficazmente. A Ucrânia tem apenas cerca de 300.000 soldados na linha de frente, ou 483 soldados por quilômetro. Durante a Guerra Fria, os planejadores ocidentais acreditavam que uma defesa bem-sucedida da fronteira entre a OTAN e o Pacto de Varsóvia exigiria aproximadamente uma divisão (25.000 soldados) a cada 26 quilômetros, ou cerca de 1.500 soldados por quilômetro. Segundo essa regra prática, a Ucrânia tem menos da metade do número de soldados necessário para defender com sucesso a linha de frente.

Por outro lado, a força russa no território ocupado da Ucrânia agora conta com mais de 700.000 soldados, o que poderia proporcionar uma densidade de pelo menos 1.129 soldados por quilômetro. Ao assumir a ofensiva, a Rússia pode concentrar ainda mais suas forças onde desejar e defender o restante da linha com um número menor de tropas. Na defensiva, a Ucrânia precisa distribuir suas forças de forma relativamente uniforme ao longo de toda a linha de frente, sob o risco de ter efetivos insuficientes em pontos onde a Rússia possa atacar. A Ucrânia também precisa ficar atenta aos 1.085 quilômetros de sua fronteira com a Bielorrússia, aliada da Rússia, o que sobrecarrega ainda mais suas forças.

A tecnologia militar também não conferiu à Ucrânia uma vantagem clara. Trabalhando para modernizar suas forças armadas de acordo com os padrões da OTAN desde 2015, a Ucrânia tem se apoiado em diversas armas sofisticadas, especialmente desde o início da guerra em 2022. O Ocidente enviou à Ucrânia de tudo, desde mísseis guiados antitanque a sistemas de lançamento múltiplo de foguetes, mísseis de cruzeiro de longo alcance, mísseis de defesa aérea Patriot e aviões de caça. Nenhum deles se mostrou decisivo, com a exceção parcial de drones de ataque e reconhecimento com visão em primeira pessoa.

Em termos de sistemas de armamento principais, a Ucrânia está em desvantagem em todos os aspectos.

Sem dúvida, o uso de drones em ambos os lados da linha de frente mudou drasticamente a natureza do combate. Cerca de dez quilômetros de cada lado da frente se tornaram uma "zona de morte", na qual veículos e grandes formações de tropas podem ser rapidamente detectados e atacados implacavelmente, reduzindo a mobilidade sob fogo. Mas, recentemente, houve uma mudança drástica no equilíbrio da inovação. Analistas ocidentais têm questionado consistentemente a adaptabilidade militar russa, mas são os ucranianos que agora estão ficando para trás. A Rússia tem maior capacidade de ampliar a tecnologia de drones, resultando em uma vantagem estimada de dez para um no número de drones produzidos e implantados no campo de batalha.

A superioridade da inovação tática russa teve consequências ainda mais graves para as forças ucranianas. O ponto de virada ocorreu durante a invasão ucraniana da região russa de Kursk, em 2024. Em resposta a essa incursão, as forças russas começaram a operar de forma diferente. Substituíram os sistemas de orientação por fibra óptica assim que a Ucrânia desenvolveu a capacidade de interferir nos drones controlados por rádio, anulando uma potencial vantagem ucraniana na guerra eletrônica antidrone. Eles começaram a atacar a logística ucraniana e os operadores de drones em vez de soldados individuais na linha de frente, fazendo um uso muito mais eficiente de seus drones do que antes. Além disso, os drones de reconhecimento reforçam a vantagem tradicional da Rússia na artilharia (e em outros sistemas de fogo indireto, como bombas guiadas), fornecendo uma correção de fogo muito mais eficaz — a direção de como mirar em um alvo — do que os observadores em terra podem fornecer. Essa capacidade permite que as forças russas enfraqueçam substancialmente as posições defensivas ucranianas e interceptem forças ucranianas muito além da linha de frente.

Uma inovação russa relacionada envolve táticas de infantaria que se assemelham às táticas de infiltração desenvolvidas pelos alemães no final da Primeira Guerra Mundial para romper o impasse na frente ocidental. Pequenos contingentes de tropas russas — normalmente grupos de assalto compostos por três ou quatro soldados de assalto ou grupos de sabotagem e reconhecimento um pouco maiores — penetram cada vez mais nas linhas ucranianas através da zona de morte infestada por drones. Grupos de soldados, ao contrário de tanques ou veículos de combate de infantaria, não são alvos atraentes, e os russos aprenderam a usar o mau tempo e a escuridão para escapar do reconhecimento ucraniano durante suas infiltrações. Os ucranianos tentaram adotar táticas semelhantes, mas, devido ao seu número reduzido de tropas, continuam dependendo fortemente de veículos blindados altamente visíveis e vulneráveis ​​para o transporte de soldados, o que limita sua eficácia.

OPÇÃO MENOS RUIM

Os apoiadores europeus da Ucrânia instaram Kiev a rejeitar a exigência da Rússia de ceder todo o Donbas. Kaja Kallas, Alto Representante da UE para os Negócios Estrangeiros, classificou a troca de território ucraniano pela paz como uma “armadilha”. O Chanceler alemão Friedrich Merz, o Presidente francês Emmanuel Macron e a Presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen declararam repetidamente que “as fronteiras internacionais não devem ser alteradas pela força”. Alguns temem que ceder a Putin agora, como aconteceu após uma geração anterior de líderes europeus ter feito um acordo com Hitler em Munique em 1938, apenas aguce o apetite do líder russo por mais território ucraniano e até mesmo da NATO no futuro.

Uma objeção mais razoável é que as “cidades-fortaleza” de Kramatorsk e Sloviansk, ainda controladas pela Ucrânia, constituem elos cruciais na defesa do país. A guerra urbana é dispendiosa, tornando as cidades altamente defensáveis, e no atual campo de batalha dominado por drones, elas oferecem cobertura e proteção como pontos de concentração para as tropas. Dadas as dificuldades da Ucrânia em termos de efetivo, defender ilhas fortificadas pode parecer uma boa opção. Mas preservar as cidades-fortaleza de Donbas não é motivo para continuar a guerra. É possível proteger o território mais atrás da linha de frente sem elas, com fortificações dedicadas. A Rússia também demonstrou que mesmo cidades-fortaleza podem ser cercadas, isoladas e conquistadas por meio da infiltração de pequenas unidades, como fez recentemente em Chasiv Yar, Huliapole, Pokrovsk e Siversk — e pode ainda conseguir fazer em Kostiantynivka e Kupyansk.

A perda do restante de Donetsk, embora certamente um golpe para a autoestima ucraniana, não abriria necessariamente as portas de Kiev para Moscou. Entre outubro de 2024 e outubro de 2025, os russos assumiram o controle de 4.400 quilômetros quadrados de território ucraniano. O restante da Ucrânia desocupada a leste do rio Dnieper consiste em 148.000 quilômetros quadrados de território. No ritmo de avanço russo do ano passado, Moscou levaria mais de 30 anos para concluir tal conquista.

Apesar do pânico na Europa Ocidental, uma vitória russa no Donbas representaria pouca ameaça para o resto do continente. O Donbas não é como os Sudetos, pois as táticas russas atuais são muito diferentes da blitzkrieg, que permitiu à Alemanha nazista conquistar vastos territórios em pouco tempo. A Rússia levaria décadas para conquistar o restante da Ucrânia, portanto, qualquer ameaça direta à maioria dos outros países europeus se manifestaria apenas num futuro distante.

A corrupção desenfreada minou todos os aspectos do esforço de guerra da Ucrânia.

Contudo, não há dúvidas de que a Rússia pode alcançar objetivos mais limitados pela força das armas. Cerca de 7.400 quilômetros quadrados de Donetsk permanecem sob controle de Kiev. Se as forças russas mantiverem o ritmo de avanço do ano passado, poderão conquistá-la em um ano e meio, um prazo razoável. Também poderão tomar mais partes de Kharkiv, Sumy e Zaporizhzhia. Fazer isso custaria à Rússia mais vidas e recursos, sem dúvida, mas imporia custos relativamente maiores à Ucrânia, que Kiev não pode arcar.

Os ucranianos e seus aliados agora precisam se perguntar o que mais um ano de guerra alcançará e a que preço. Há indícios de uma crescente percepção entre altos funcionários ucranianos, incluindo Kirill Budanov, chefe de gabinete da presidência e ex-chefe da inteligência militar, de que, embora os ataques aéreos profundos ucranianos e os ataques à "frota paralela" de petroleiros de Moscou — as embarcações não identificadas que a Rússia usa para burlar as sanções — prejudiquem a Rússia, eles não encerrarão a guerra tão cedo.

Com seus objetivos mais amplos fora de alcance, a Ucrânia enfrenta a perspectiva de ceder território, o que seria doloroso para Kiev. Mas isso não precisa significar o fim da Ucrânia como país independente. Uma Ucrânia desprovida de suas regiões orientais poderia dar continuidade ao projeto de construção do Estado voltado para o oeste, idealizado por Kiev. Mesmo antes da invasão russa em 2022, a Ucrânia já estava deslocando seu centro econômico da região industrial decadente de Donbas para o centro pós-industrial e o oeste do país. E com reformas políticas e econômicas abrangentes; um sério esforço anticorrupção, especialmente no setor militar; e uma campanha para construir posições defensivas otimizadas para drones e guerra de baixa densidade, além de investir recursos substanciais e esforços organizacionais em inovações para o campo de batalha, a Ucrânia poderia estar em uma posição mais forte para se proteger caso fosse atacada novamente. Aceitar um mau acordo de paz agora daria a Kiev, pelo menos, essa chance de um futuro melhor. Rejeitá-lo agora apenas prolongaria uma guerra custosa e perdida.

Diego Rivera foi o pintor da Revolução Mexicana

A Revolução Mexicana inspirou um extraordinário florescimento cultural, tendo a pintura como sua principal forma de arte. Os espetaculares murais de Diego Rivera, inspirados na história e cultura popular do México, são o legado mais notável desse período.

Mike Gonzalez

Diego Rivera trabalhando no mural no Rockefeller Center, em Nova York. (Bettmann / Getty Images)

A arte de Diego Rivera é inseparável da revolução que o México vivenciou no início do século XX e do Estado que se construiu em sua sequência. O processo revolucionário começou em 1910, quando Porfirio Díaz, que governava o México havia trinta e quatro anos, anunciou a realização de eleições presidenciais.

Díaz supervisionou o crescimento de uma economia baseada em exportações como açúcar, café e tabaco, e em novas indústrias como a petrolífera e a têxtil, a maioria financiada por capital estrangeiro. A população rural do México, composta por indígenas e mestiços, vivia sob o jugo dos latifundiários, a classe proprietária de terras, e sob a ameaça da violência da polícia rural de Díaz, os rurales (como documentado no livro "México Bárbaro", de John Kenneth Turner).

Díaz supervisionou o crescimento de uma economia baseada em exportações como açúcar, café e tabaco, e em novas indústrias como a petrolífera e a têxtil, a maioria financiada por capital estrangeiro. As tensões sociais eram palpáveis, mas a faísca que acendeu o pavio da revolução de 1910-1917 foi um panfleto politicamente moderado de Francisco Madero, filho de uma rica família de latifundiários, que defendia o sufrágio universal e o direito ao voto contra Díaz. As reivindicações de Madero limitavam-se à reforma política, e ele logo foi forçado ao exílio. Mas suas palavras ecoaram por todo o país, assolado por conflitos sociais.

No estado de Morelos, com suas lucrativas plantações de cana-de-açúcar, a resistência camponesa liderada por Emiliano Zapata defendeu as comunidades rurais contra a expansão das enormes propriedades. No norte, um ladrão de gado ocasional chamado Pancho Villa liderou sua própria rebelião. Os protestos contra Díaz se espalharam até que o ditador fugiu para a Grã-Bretanha no início de 1911.

Nesse vácuo de poder, a antiga classe dominante lutou para controlar os remanescentes do Estado porfiriano em alianças instáveis ​​com a classe média. Embora cada movimento armado reivindicasse a revolução para si, eram os zapatistas, e somente eles, que lideravam uma luta revolucionária de massas.

Diego Rivera e sua geração rejeitaram o eurocentrismo conservador do meio artístico e defenderam uma arte que refletisse a realidade do México.

A nova Constituição do México de 1917 baseava-se na promessa de modernização, desenvolvimento, redistribuição de terras e controle nacional do subsolo (principalmente do petróleo). Foi durante a presidência de Álvaro Obregón (1920-1924) que se iniciou a construção do novo Estado, em nome de uma “aliança popular”.

Artista da Revolução

Obregón estava comprometido com a educação como instrumento de transformação e nomeou o filósofo José Vasconcelos como seu ministro da educação. Vasconcelos lançou o projeto muralista para decorar as paredes dos prédios públicos do México com imagens da cultura universal clássica. Ele argumentava que as sociedades avançavam para um estágio superior de civilização universal por meio das artes, mas o que ele tinha em mente eram os clássicos europeus, talvez combinados com algumas representações de indígenas estereotipados.

No entanto, o movimento muralista que surgiu após sua aposentadoria, em 1924, nasceu de um espírito muito diferente. Diego Rivera e sua geração rejeitaram o eurocentrismo conservador do meio artístico e reivindicaram uma arte que refletisse a realidade do México. O Dr. Atl, um espanhol originalmente chamado Gerardo Murillo que adotou um nome asteca e se tornou diretor da principal escola de arte da época, foi extremamente influente em sua fascinação pelos vulcões do país.

Rivera estava na Europa durante a Revolução Mexicana, trabalhando com cubistas e surrealistas em Paris e, posteriormente, absorvendo as técnicas de afresco dos mestres renascentistas italianos. Em 1921, retornou ao México para se juntar ao movimento muralista, trazendo consigo os métodos modernistas que havia aprendido na França.

Ele tinha um claro compromisso com um modernismo mexicano que não imitasse o europeu, mas que expressasse a transformação do México com base em sua própria história e em sua rica e variada cultura indígena. Sua única pintura surrealista — Paisagem Zapatista (1915), uma composição com um chapéu de camponês, um rifle e um cobertor mexicano (serape) contra um fundo de montanhas — antecipou a centralidade do México indígena em sua obra dali em diante.

Novos heróis

Seu primeiro mural, A Criação, foi concebido para a nova Escola Preparatória Nacional. Rivera ainda fazia referência a mitos universais, mas utilizava imagens da vida indígena na pintura do mural. Em seguida, veio sua primeira grande encomenda para decorar os três andares do novo prédio do Ministério da Educação.

De forma incomum, Vasconcelos havia deixado o conteúdo dos murais aberto à escolha dos artistas. Rivera já trabalhava com organizações populares e camponesas e compartilhava com os outros dois principais muralistas, José Clemente Orozco e David Alfaro Siqueiros, uma visão da nova arte monumental. Nas palavras de Rivera: “Pela primeira vez na história da arte monumental, o muralismo mexicano deixou de se concentrar em deuses, heróis e chefes de Estado... Pela primeira vez, fez das massas os heróis da arte monumental.”

Rivera compartilhou com os outros dois muralistas de destaque, José Clemente Orozco e David Alfaro Siqueiros, uma visão da nova arte monumental.

Foi, de certa forma, um exercício massivo de criação de uma consciência nacional com uma compreensão clara de classe. A linguagem dessa nova arte pública se inspirou na rica cultura indígena do México, cujas cores e formas remontavam à história dos mundos asteca e maia, embora os descendentes contemporâneos desses povos estivessem mergulhados na pobreza e na mais intensa exploração.

No Pátio do Trabalho, no Ministério da Educação, Rivera pintou o cotidiano dos trabalhadores da agricultura e da indústria. No Pátio das Festas, ele se inspirou nos rituais e cerimônias das comunidades indígenas e mestiças, que davam uma ideia de sua relação com a paisagem e a história do México, como o Dia dos Mortos, com seus esqueletos onipresentes.

A terceira galeria utilizou uma linguagem diferente, a do “realismo socialista” que ele havia encontrado em uma visita à Rússia em 1928-29. Em Distribuição de Armas, ele incluiu sua esposa Frida Kahlo, a fotógrafa Tina Modotti e seu amante Julio Antonio Mella, fundador do Partido Comunista Cubano.

Terra e Liberdade

O próprio Rivera filiou-se ao Partido Comunista Mexicano, assim como Orozco e Siqueiros; os três foram membros de seu comitê central. Isso refletia o papel dos muralistas na formação da cultura revolucionária.

Para Rivera, a arte, e especialmente a arte pública, era uma forma de trabalho produtivo que transformava o ambiente material e as massas que o habitavam. O papel do artista era, em contraste com a concepção burguesa do artista como criador individual, o de trabalhador em uma criação coletiva. Essa criação não era simplesmente a obra de arte, mas a própria revolução.

Nesse espírito, Rivera, Siqueiros e Orozco formaram o Sindicato dos Pintores, Escultores e Operários Técnicos. Eles produziram um jornal, El Machete, concebido com xilogravuras impactantes que faziam clara referência aos ofícios tradicionais. Mais tarde, tornou-se a publicação oficial do Partido Comunista.

Para Rivera, a arte, e especialmente a arte pública, era uma forma de trabalho produtivo que transformava o ambiente material e as massas que o habitavam.

Diferentemente da Revolução Russa, a Revolução Mexicana não foi moldada por um partido dominante baseado na classe trabalhadora, nem impulsionada por uma concepção de Estado. O movimento revolucionário de massas foi a insurreição rural liderada por Zapata, assassinado em 1919. Contudo, seu lema “Terra e Liberdade” tornou-se o grito de guerra da revolução.

Em 1929, Rivera foi convidado a decorar a capela da nova escola agrícola de Chapingo. Rivera concebeu o projeto como uma celebração da redistribuição de terras entre os camponeses. O mais comovente e pungente dos murais mostra Zapata e seu colega Otilio Montaño enterrados sob um campo de milho, com novas plantas brotando de seus corpos. É uma profecia de uma revolução futura e, talvez, um prenúncio do ressurgimento do zapatismo como movimento revolucionário em Chiapas durante a década de 1990.

No mesmo ano, Rivera começou sua obra-prima no Palácio Nacional da Cidade do México, "A História do México da Conquista a 1930". Este enorme mural acima da escadaria central retrata a civilização asteca e a principal divindade das culturas pré-hispânicas, Quetzalcoatl, a Serpente Emplumada. Ao fundo, vê-se a gloriosa capital asteca, Tenochtitlán. Esta parte do mural retrata a brutal conquista espanhola daquele mundo e a crueldade da Igreja Católica.

A representação avança em uma curva sinuosa através das guerras de independência até um México previsto de lutas operárias e camponesas e, posteriormente, um futuro industrial, supervisionado por Karl Marx. Essa visão do futuro é central para a obra de Rivera, mas a presença de Marx foi suficiente para persuadir estudantes de direita a atacar este e outros murais seus, muitos dos quais ainda carregam as cicatrizes.

Entre Stalin e Trotsky

Em 1929, a Internacional Comunista (Comintern) estava totalmente sob o comando de Josef Stalin e expulsava os partidários de Leon Trotsky e da Oposição de Esquerda, com a qual Rivera já havia manifestado simpatia. Em consonância com a política sectária de "classe contra classe" da Comintern na época, o Partido Comunista Mexicano lançou uma tentativa de golpe para derrubar o governo pós-revolucionário, cuja figura dominante era Plutarco Elías Calles. Isso ocorreu justamente quando o governo também enfrentava uma insurreição católica reacionária conhecida como Guerra Cristera.

A tentativa de golpe fracassou. Rivera se opôs a ela desde o início e foi expulso do partido, tendo Siqueiros como seu principal acusador. De forma irônica, Rivera votou pela sua própria expulsão, talvez porque suas convicções como artista o levassem a rejeitar a ortodoxia rígida exigida tanto política quanto artisticamente pelo stalinismo.

Ele então passou algum tempo nos Estados Unidos, onde recebeu encomendas em Detroit, São Francisco e (a mais famosa) de Nelson Rockefeller para pintar um mural no hall de entrada do Rockefeller Center, em Nova York. Rivera incluiu a figura de Vladimir Lenin e o mural foi destruído. Seus murais em Detroit são celebrações da própria indústria e ecoam a seção industrial do mural do Palácio Nacional.

De forma maliciosa, Rivera votou pela sua própria expulsão do Partido Comunista Mexicano.

Os comunistas no México e nos Estados Unidos aproveitaram essas encomendas para atacar Rivera, retratando-o como um instrumento do governo mexicano e um servo do grande capital. Posteriormente, ele e Kahlo tornaram-se amigos de Trotsky, e Rivera usou sua influência junto a Lázaro Cárdenas, que se tornou presidente do México em 1934, para oferecer asilo ao grande revolucionário.

Trotsky mudou-se para a Casa Azul de Kahlo na Cidade do México, onde ela e Rivera viveram. Trotsky e sua esposa permaneceram lá até que problemas pessoais (para não mencionar o breve caso amoroso de Trotsky com Kahlo) tornaram a convivência impossível. Trotsky mudou-se para uma casa próxima, onde foi alvo de uma tentativa de assassinato fracassada em 1940 por um esquadrão liderado por ninguém menos que Siqueiros. Alguns meses depois, um agente stalinista conseguiu matá-lo em sua escrivaninha.

Poucos anos antes de sua morte, em 1957, Rivera solicitou seu retorno ao Partido Comunista, talvez por nostalgia dos primeiros anos do movimento muralista. Mas era o mesmo partido que o havia rotulado de renegado, direitista e servo submisso do governo, na acusação mordaz de Siqueiros.

Revelando o México

Em 1938, Rivera e o poeta surrealista francês André Breton assinaram um manifesto que Trotsky ajudou a redigir, intitulado “Por uma Arte Revolucionária Livre”. Nele constavam as seguintes palavras:

No mundo contemporâneo, devemos reconhecer a destruição cada vez mais disseminada das condições que possibilitam a criação intelectual. [...] A verdadeira arte, que não se contenta em reproduzir variações de modelos preestabelecidos, mas insiste em expressar as necessidades intrínsecas do homem e da humanidade em seu tempo — a verdadeira arte não pode deixar de ser revolucionária, de aspirar a uma reconstrução completa e radical da sociedade.

O crítico de arte Meyer Schapiro observou que os murais de Rivera “produzem uma poderosa impressão da densidade da vida histórica [...] nenhum outro pintor de nosso tempo foi tão prolífico e inexaurivelmente curioso sobre a vida e a história”. Schapiro questionou então “como tal arte poderia ser produzida em um país semicolonial dominado pelo imperialismo estrangeiro”. Parte da explicação residia na descoberta, por Rivera, da enorme riqueza intelectual do México indígena.

Em seu mural A História da Medicina no México: A Demanda Popular por Melhor Saúde, no Hospital de la Raza, na Cidade do México, a procissão de cientistas inclui astecas, demonstrando que a sua civilização era avançada. Ao descrever a arte do mundo indígena, Rivera elogiou sua profundidade espiritual. De fato, a própria forma mural era altamente desenvolvida no mundo pré-hispânico (por exemplo, a Pirâmide da Lua em Teotihuacán) e na cultura popular mexicana (basta observar os murais nos bares de pulqueria do país).

Rivera era irreprimivelmente enérgico e inspirado na aplicação de alguns dos métodos de vanguarda que havia encontrado na Europa.

Rivera era irreprimivelmente enérgico e inspirado na aplicação de alguns dos métodos de vanguarda que conhecera na Europa. Ele conseguia pintar caricaturas ferozes, como as de "A Noite dos Ricos", e retratos intensamente emocionais, como "Entrada na Mina", onde vemos o mineiro prestes a entrar no reino subterrâneo, cuja entrada se abre como uma boca prestes a engoli-lo. Há aqui uma referência religiosa, mas o próprio Rivera era materialista e ateu, e as metáforas ecoam a religião popular em vez de qualquer ortodoxia católica.

Rivera era um indivíduo enormemente criativo, dedicado a uma causa coletiva que ganhou profundidade e poder imaginativo através de seus brilhantes murais. Para citar apenas um exemplo, "A Professora Rural" mostra uma jovem professora durante a campanha nacional de alfabetização em uma aldeia, instruindo um grupo de alunos que têm a forma e o estilo da arte pré-hispânica. Um guarda a cavalo vigia contra ataques de camponeses locais incitados pelo padre da aldeia — uma ocorrência frequente na época.

Octavio Paz certa vez observou: “A Revolução nos revelou o México. Ou melhor, nos deu olhos para vê-lo”. Diego Rivera, com sua vasta obra, foi fundamental para essa nova visão.

Colaborador

Mike Gonzalez é professor emérito de Estudos Latino-Americanos na Universidade de Glasgow. É autor de diversos livros sobre história e política da América Latina, incluindo In the Red Corner: The Marxism of José Carlos Mariátegui.

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