6 de setembro de 2015

Reich e o mito de um capitalismo moral

Richard Becker

Liberation

Em 5 de setembro, em um post, o ex-secretário do Trabalho e analista liberal Robert Reich, pergunta "O que aconteceu com o centro moral do capitalismo americano?". Não é uma sátira.

Reich escreve: “Testemunhamos ao longo das últimas duas décadas nos EUA um declínio constante na disposição de quem ocupa as posições de mando no setor privado – em Wall Street e em grandes empresas – para respeitar, um mínimo que seja, padrões de moralidade pública... Executivos de grandes empresas privadas ganham hoje salários 300 vezes superiores ao do trabalhador médio. Os magnatas de Wall Street levam para casa centenas de milhões, ou mais. Os dois grupos manipularam o jogo a favor deles mesmos, ao mesmo tempo em que empurram para baixo os salários do povo trabalhador médio.”

A vasta e sempre crescente desigualdade nos EUA e em todo o mundo capitalista é, claro, inegável. A resposta de Reich é desejar uma volta a um tempo passado, a um momento suposto "mais moral" do capitalismo:

“Diferente disso, nas primeiras três décadas depois da Segunda Guerra Mundial – em parte porque os EUA passaram por aquela guerra terrível e, antes dela, pela Grande Depressão – havia na comunidade empresarial e em Wall Street um senso de que era indispensável e relevante prestar contas à nação”, escreve ele. “Não se falava de responsabilidade social, porque se assumia que todos partilhassem a convicção inalterável de que todos que tivessem grande poder econômico deviam agir e agiriam de modo socialmente responsável.”

“Altos executivos não tinham salários mais de 40 vezes superiores ao do trabalhador típico. Empresas lucrativas não eram lucrativas porque conseguiam demitir o maior número possível de trabalhadores. Consumidores, trabalhadores e a comunidade empresarial eram todos tidos como acionistas, com quase todos os mesmos ganhos e direitos de ganhar.”

É muito difícil empilhar mais ilusões e tantos erros factuais em tão poucas palavras.

A Grande Depressão dos anos 1930 foi o mais catastrófico dos recorrentes crashes econômicos que são elemento inerente do sistema capitalista. Durante a Grande Depressão, quando o desemprego subiu acima de 25% e milhões de pessoas perdiam as próprias casas em despejos ordenados pelos bancos, muitos capitalistas opunham-se a salários-desemprego, segurança social ou qualquer tipo de ajuda governamental, e, claro, também ao direito dos trabalhadores de constituírem sindicatos.

Foi a onda massiva de organização do Trabalho, iniciada com as greves gerais em 1934, que levaram o governo Roosevelt a fazer concessões sob a forma de programas sociais, e valeu a milhões de trabalhadores o poder de negociar melhores salários, benefícios e condições de trabalho.

À altura de 1950, 35% dos trabalhadores estavam sindicalizados, um dos fatores mais importantes para a melhoria dos padrões de vida no período do pós-Segunda Guerra Mundial, fato que Reich omite. Outro importante fator foi que os EUA passaram a dominar o mercado mundial imediatamente depois da guerra.

Por mais que a guerra tenha sido realmente terrível para dezenas de milhões em todo o mundo, que foram mortos, feridos, humilhados, forçados a passar fome, e para as centenas de milhões de deslocados, arrancados de suas casas, foi período de fartura para as empresas e os bancos norte-americanos. Grandes empresas colheram lucros imensos como fornecedores da mais poderosa máquina de guerra jamais vista, e expandiram enormemente suas capacidades produtivas. Além do mais, os EUA não sofreram qualquer ataque ou dano no seu front doméstico. Ao final da guerra, os EUA estavam produzindo mais de 50% de tudo que o mundo produzia.

Nadando nesses super lucros auferidos da dominação sobre o mercado mundial e da exploração do mundo colonizado e neocolonizado, os capitalistas norte-americanos puderam fazer concessões econômicas à classe trabalhadora.

Foi essa combinação altamente inusual de fatores, não alguma espécie de recém descoberta "moralidade" ou "ética" que teria florescido na alma dos capitalistas, que gerou, como consequência, que o período 1945-75 fosse dos mais significativos, em termos de melhoria no padrão de vida de milhões de trabalhadores. Ao mesmo tempo, o governo ia conseguindo sucessos também na tarefa de enfraquecer os sindicatos, extraindo de lá os comunistas e outros militantes, e fazendo aprovar leis como a [lei] Taft-Hartley.

Intelectuais capitalistas e a mídia de massas não se cansavam de repetir que o novo conforto que se via na vida dos trabalhadores seria a prova de que o marxismo estava errado.

Marx escreveu que a característica fundamental do capitalismo é que “acumulação de riqueza num polo é ao mesmo tempo acumulação de miséria, agonia, escravidão, ignorância, brutalidade, degradação mental no polo oposto.”

Desenvolvimentos subsequentes mostraram irrefutavelmente que o período do pós-guerra não foi alguma espécie de novidade para o capitalismo; mas, sim, uma aberração.

Hoje, a desigualdade econômica é a maior de todos os tempos. Uma família, os Waltons, de Walmart, é proprietária de riqueza equivalente a tudo que possuem, somados, os 42% mais pobres da população dos EUA; 400 bilionários, possuem tanto quanto os 3,5 bilhões de seres humanos mais pobres da Terra.

A sangrenta, racista classe dominante desde o início

Ao contrário do que diz Reich, "empresas lucrativas" demitiram "grandes quantidades de trabalhadores" incontáveis vezes entre 1945 e 1975, particularmente, mas não exclusivamente, em tempos de contração econômica. É surpreendente que alguém que já foi responsável pelo Departamento do Trabalho federal nos EUA possa fazer afirmação tão ridícula.

Durante as primeiras duas décadas dos delirantes "bons velhos tempos", a segregação – legalizada ou de fato – prevaleceu em todos os EUA. Até a Lei dos Direitos Civis de 1964 e a Lei dos Direitos de Votar de 1965, ambas aprovadas depois de dura luta pelo Black Freedom Movement, os afro-norte-americanos eram proibidos de votar em muitos estados, e continuam sem direitos à igualdade plena até hoje.

A ideia de que "consumidores, trabalhadores e a comunidade tenham sido todos acionistas com direitos praticamente iguais" garantidos pela classe capitalista dominante e seus governos, em algum momento da história dos EUA é, intencional ou não intencionalmente, cômica.

E nas três décadas morais de Reich, aquela mesma classe governante e seus governos fizeram guerras genocidas na Coreia, Vietnã, Cambodja e Laos, e golpes assassinos no Irã, Guatemala, Congo, Brasil, Indonésia, Grécia, Bolívia, Chile e Uruguai, e apoiaram regimes de apartheid na África do Sul e Rodésia (hoje Zimbabue), e armaram os fascistas portugueses nas guerras coloniais na África e invadiram e bloquearam Cuba, e tiveram papel central na ação de Israel para expulsar o povo palestino da própria terra deles, e montaram o mais mortífero arsenal jamais montado e não passaram um dia sem ameaçar alguém com um ataque nuclear e etc., etc., etc.

Robert Reich é crítico dos excessos do capitalismo, ao mesmo tempo em que defende o sistema capitalista. Para ter a sensação de que superou essa impossibilidade absoluta, vê-se obrigado a fantasiar que teria existido um tempo ("Era uma vez...") na história, quando o capitalismo operou de modo justo.

Na vida real, esse tempo jamais existiu. Nunca houve "um senso na comunidade empresarial e em Wall Street, de que era importante preservar alguma transparência" com prestação de contas à sociedade e controle social. – Ali só se pensa e sempre se pensou em maximizar lucros e em defender o próprio poder. Essa a natureza do capitalismo.

A única maneira de pôr fim aos excessos capitalistas é colocar um fim ao próprio sistema.

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