10 de novembro de 2016

O que tantas pessoas não entendem sobre a classe trabalhadora dos EUA

por Joan C. Williams

Harvard Business Review

Tradução / O meu sogro cresceu comendo sopa de sangue. Ele detestava-a; se por causa do sabor ou da humilhação, eu nunca soube. O seu pai, alcoólico, bebia regularmente o salário familiar e, muitas vezes, a família tinha pouco dinheiro para comer. Foram despejados de apartamento após apartamento.

Ele desistiu da escola, ao oitavo ano, para ajudar a sustentar a família. Finalmente, conseguiu um emprego bom e estável, que realmente odiava, como inspetor numa fábrica que fazia aquelas máquinas que mediam os níveis de umidade nos museus. Tentou, em paralelo, abrir vários negócios, mas nenhum funcionou; então, esteve nesse emprego durante 38 anos. Subiu da pobreza para uma vida da classe média: o carro, a casa, dois filhos na escola católica, a esposa que trabalhou apenas a tempo parcial. Ele trabalhou incessantemente. Tinha dois empregos, além daquele a tempo integral – um trabalho de jardineiro para um magnata local e outro de transportar o lixo para o despejo.

Ao longo dos anos de 1950 e 1960, ele leu The Wall Street Journal e votou nos republicanos. Era um homem fora do seu tempo: um homem branco de colarinho azul, que pensava que o sindicato era um bando de malandros que ficava com o vosso dinheiro e nunca vos dava nada em troca. Começando em 1970, muitos brancos de colarinho azul seguiram o seu exemplo. Esta semana, o seu candidato ganhou a presidência.

Durante meses, a única coisa que me surpreendeu sobre Donald Trump foi o espanto dos meus amigos com o seu sucesso. O que acontece é uma falha de cultura de classe. Um elemento pouco conhecido dessa falha é o de que a classe operária branca (COB) tem rancor aos administrativos, mas admira os ricos. A classe dos migrantes (especialistas de colarinho branco nascidos de famílias de colarinho azul) refere que “os administrativos eram geralmente suspeitos” e que os gerentes são meninos universitários “que não sabem fazer nada, mas estão cheios de ideias sobre como devemos fazer o nosso trabalho”, disse Alfred Lubrano no Limbo. Barbara Ehrenreich relembrou, em 1990, que o seu pai, colarinho azul, “não podia dizer a palavra médico sem o prefixo virtual charlatão. Os advogados eram vigaristas ... e os professores eram, sem exceção, falsos”. Annette Lareau encontrou tremendos ressentimentos contra os professores, que eram vistos como paternalistas e inúteis.

Michèle Lamont, em A Dignidade dos Trabalhadores, também encontrou ressentimentos com os administrativos – mas não com os ricos. “[Eu] não posso bater em ninguém por ter sucesso”, disse-lhe um operário. “Há aí um monte de gente que é rica e tenho a certeza de que trabalhou no duro por cada cêntimo que tem”, afirmou um rececionista. Porquê a diferença? Por um lado, a maioria dos trabalhadores de colarinho azul tem pouco contacto direto com os ricos fora dos Lifestyles of the Rich and Famous. Mas os administrativos dão-lhes ordens quase todos os dias. O sonho não é tornarem-se classe média-alta, com os seus diferentes padrões de comida, família e amizade; o sonho é viverem no seu próprio ambiente de classe, onde se sentem confortáveis – mas com mais dinheiro. “O principal é ser independente e dar as suas próprias ordens e não ter de recebê-las de alguém”, disse um operador de máquinas a Lamont. Ter o seu próprio negócio – é este o objetivo. Isso é a outra parte do apelo de Trump.

Hillary Clinton, em contraste, simboliza a tolice, a arrogância e a presunção da elite administrativa. A tolice: o fato. A arrogância: o servidor de e-mail. A presunção: o cabaz de deploráveis. Pior ainda, a sua mera presença obriga a reconhecer que mesmo as mulheres da sua classe podem tratar os homens da classe operária com desrespeito. Veja-se como ela condescende em tratar Trump como incapaz de assumir o gabinete da presidência e desqualifica os seus apoiadores como racistas, sexistas, homofóbicos ou xenófobos.

A conversa grosseira de Trump toca num outro valor do colarinho azul: a conversa clara e direta. “A franqueza é uma norma da classe operária”, observa Lubrano. Como me disse um rapaz de colarinho azul: “Se tiver um problema comigo, venha falar comigo. Se quiser algo feito de determinada maneira, venha falar comigo. Eu não gosto de pessoas que utilizam esses jogos de duas caras”. A conversa clara e direta é entendida como sintoma de coragem varonil, não constituindo “uma completa covardia e uma patetice”, disse um técnico de eletrônica a Lamont. É clara a atração de Trump. E a inábil admissão de Clinton de que fala de uma forma em público e de outra em privado? Outra prova de que ela é uma impostora com duas caras.

A dignidade varonil é uma questão importante para os operários e não a estão a sentir. Trump promete um mundo libertado do politicamente correto e um retorno a uma era anterior, em que os homens eram homens e as mulheres sabiam o seu lugar: fazer comida caseira para rapazes educados na escola secundária, que poderiam ter sido o meu sogro se tivessem nascido 30 anos antes. Hoje eles sentem-se como perdedores – ou sentiam-se, até encontrarem Trump.

A dignidade varonil é uma questão importante para a maioria dos homens. Assim, é o status de quem ganha o pão; muitos ainda medem a masculinidade pelo tamanho de um salário. Os salários dos homens brancos da classe operária derraparam nos anos 1970 e sofreram outro rude golpe durante a Grande Recessão. Bem, eu queria que a masculinidade funcionasse de forma diferente. Mas a maioria dos homens, assim como a maioria das mulheres, procura cumprir os ideais do meio em que cresceu. Para muitos homens de colarinho azul, tudo o que pedem é a dignidade humana básica (variante masculina). Trump promete concretizar isso.

A solução dos democratas? Na semana passada, The New York Times publicou um artigo a aconselhar os homens com educação escolar secundária a fazer trabalhos de colarinho rosa. Fala sobre a insensibilidade. Os homens da elite, terá nota disso, não estão a inundar o trabalho tradicionalmente feminino. Ao recomendar isso aos homens da COB apenas alimenta a raiva de classe.

Não foi o que aconteceu, de forma injusta, a Clinton? Claro que foi. É injusto que ela não fosse uma candidata plausível, até ter sido tão superqualificada que foi, de repente, desqualificada, devido a erros do passado. É injusto que Clinton tenha sido chamada uma “mulher desagradável”, enquanto Trump é visto como um homem de verdade. É injusto que Clinton só se tenha saído tão bem no primeiro debate, por que envolveu sua candidatura numa sedução de feminilidade. Quando voltou à postura de ataque, era a coisa certa para um candidato presidencial fazer, mas a coisa errada para uma mulher fazer. A eleição mostra que o sexismo mantém uma maior profundidade do que a maioria imaginava. Mas as mulheres não estão unidas: as mulheres da COB votaram em Trump por uma enorme margem de 28 pontos sobre Clinton – 62% para 34%. Se se tivessem dividido em 50-50, ela teria vencido.

A classe supera o gênero e está a direcionando a política americana. Os formadores de política dos dois partidos – mas, particularmente, dos democratas, se quiserem recuperar as suas maiorias – precisam de se lembrar de cinco pontos principais.

Compreender que classe operária significa classe média, não classe pobre

A terminologia aqui pode ser confusa. Quando os progressistas falam sobre a class operária, tipicamente, querem dizer os pobres. Mas os pobres, no fundo, 30% das famílias americanas, são muito diferentes dos americanos que estão literalmente no meio: a metade, 50% das famílias cujo rendimento médio era de US $ 64.000, em 2008. Essa é a verdadeira “classe média”, e chamam-se a si próprios “classe média” ou “classe operária”.

“O que realmente me irrita é que os democratas tentam oferecer políticas (pagamento das baixas por doença! salário mínimo!) que ajudariam a classe operária”, escreveu-me um amigo. Alguns dias de férias pagas não vão sustentar uma família. Nem o salário mínimo. Os homens da COB não estão interessados em trabalhar no McDonald's por US $ 15 à hora em vez de US $ 9,50. O que eles querem é o que meu sogro tinha: empregos permanentes, estáveis e a tempo integral, que proporcionem uma sólida vida de classe média aos 75% de americanos que não têm um grau universitário. Trump promete isso; eu duvido que o vá conseguir; mas, pelo menos, compreende o que eles precisam.

Entender o ressentimento da classe operária com os pobres

Lembram-se quando o presidente Obama criou o Obamacare, salientando que disponibilizou cuidados de saúde a 20 milhões de pessoas? Precisamente outro programa que taxou a classe média para ajudar os pobres, disse a COB e, em alguns casos, isso provou ser verdade: os pobres conseguiram seguro de saúde, enquanto alguns americanos apenas um pouco mais ricos viram os seus prêmios subir.

Os progressistas deram atenção aos pobres há mais de um século. Isso (combinado com outros fatores) levou a que lhes fossem dirigidos programas sociais. Programas sujeitos a prova de recursos que ajudaram os pobres, mas excluíram a classe média, podem manter os custos e as taxas de impostos mais baixos, mas são uma receita para o conflito de classes. Exemplo: 28,3% das famílias pobres recebem subsídios de assistência à infância, que são em grande parte inexistentes para a classe média.

Assim, a minha cunhada trabalhou a tempo integral para a Head Start, a providenciar assistência infantil gratuita para as mulheres pobres, enquanto ganhava tão pouco que quase não a podia pagar para ela própria. Ela indignava-se com isso, especialmente com o fato de que algumas mães das crianças não trabalhavam. Houve um dia que chegou tarde para ir buscar o seu filho, carregando sacos de compras para o da Macy. A minha cunhada estava lívida.

A tão propalada Hillbilly Elegy [Elegia ao provinciano], de J.D. Vance, capta este ressentimento. Famílias com uma vida dura, como a da mãe de Vance, vivem ao lado de famílias estabelecidas, como a do seu pai biológico. Enquanto as de vida dura caem no desespero, nas drogas ou no álcool, as famílias estabelecidas mantêm-se retas e limitadas, como os meus sogros, que eram donos da sua casa e enviaram os dois filhos para a faculdade. Para conseguirem isso, viveram uma vida de rigorosa frugalidade e autodisciplina. O livro de Vance faz um severo juízo sobre a sua vida relativamente dura, o que não é incomum entre as famílias estabelecidas que mantiveram uma vida limpa através de imensa força de vontade. Esta é uma segunda fonte de ressentimento contra os pobres.

Outros livros que tratam deste tema são Hard Living on Clay Street [Vida dura na rua Clay] (1972) e Working-Class Heroes [Heróis da classe operária] (2003).

Compreender como as divisões de classe foram mudadas para a geografia

O melhor conselho dos democratas que vi, até à data, foi a recomendação de deslocar os hipsters para o Iowa. O conflito de classe, agora, acompanha de perto a divisão urbano-rural. Nas imensas planícies vermelhas entre as finas costas azuis, números chocantemente altos de homens da classe operária estão desempregados ou incapacitados, alimentando uma onda de mortes desesperadas sob a forma de epidemia de opiáceos.

Vastas áreas rurais estão desaparecendo, deixando trilhas de dor. Quando é que ouviu algum político americano falar sobre isso? Nunca.

Those Who Work, Those Who Don’t [Aqueles que trabalham, aqueles que não] (2009), de Jennifer Sherman, aborda bem este tema.

Se quiser ligar-se aos eleitores brancos da classe operária, coloque a economia no centro

“A classe operária branca é mesmo estúpida. Será que eles não compreendem que os republicanos apenas os usam de quatro em quatro anos e depois os lixam?” Eu ouvi isto, repetidamente, em diversas versões e, na verdade, é um sentimento com o qual a COB concorda e que é a razão de rejeitarem o institucionalismo republicano este ano. Mas, para eles, os democratas não são melhores.

Ambos os partidos apoiaram acordos de livre comércio por causa dos ganhos líquidos positivos do PIB, ignorando os trabalhadores de colarinho azul que perderam o trabalho, como empregos deixados para o México ou para o Vietnã. Estes são precisamente os eleitores nos cruciais estados oscilantes de Ohio, Michigan e Pensilvânia que os democratas ignoraram por tanto tempo. Com licença. Quem é estúpido?

Uma mensagem chave é a de que os acordos comerciais são muito mais caros do que os apresentaram, porque programas de desenvolvimento sustentado de emprego e formação necessitam de ser contabilizados como parte dos seus custos.

A um nível mais profundo, ambos os partidos precisam de um programa econômico que possa oferecer empregos à classe média. Os republicanos têm um: estimular negócios americanos. Democratas? Continuam obcecados com questões culturais. Compreendo perfeitamente por que as casas de banho transgênero são importantes, mas também compreendo por que a obsessão dos progressistas em priorizar questões culturais enfurece muitos americanos, cujas principais preocupações são econômicas.

Quando os eleitores de colarinho azul costumavam ser solidamente democratas (1930-1970), os bons empregos estavam no centro da agenda progressista. Uma política industrial moderna seguiria o caminho da Alemanha. (Quer realmente boas tesouras? Compre alemão.) É necessário financiamento massivo para programas de faculdades comunitárias ligadas às empresas locais, a fim de formar trabalhadores para empregos bem remunerados na nova economia. Clinton mencionou esta abordagem juntamente com 600.000 outras sugestões políticas. Ela não enfatizou isso.

Evitar a tentação de depreciar como racismo o ressentimento do colarinho azul

O ressentimento econômico alimentou a ansiedade racial que, em alguns partidários de Trump (e no próprio Trump), resvala para o racismo aberto. Mas depreciar a raiva da COB como nada mais do que racismo é intelectualmente cômodo, mas é perigoso. Os debates nacionais sobre o policiamento estão hoje a alimentar tensões de classe, exatamente da mesma forma que o fizeram na década de 1970, quando os jovens universitários ridicularizaram os polícias como “porcos”. Esta é uma receita para o conflito de classes. Estar na polícia é um dos poucos bons empregos para os americanos sem uma educação universitária. A polícia tem bons salários, grandes benefícios e um lugar respeitado nas suas comunidades. Para as elites, desprezá-los como racistas, é um exemplo revelador de como, embora os insultos baseados na raça e no sexo não sejam mais aceitáveis na sociedade educada, os insultos de classe ainda o são.

Não defendo os polícias que matam cidadãos por venderem cigarros. Mas a atual demonização da polícia subestima a dificuldade de acabar com a violência policial contra as comunidades de cor. A polícia necessita de tomar decisões em frações de segundo, em situações que ameaçam a vida. Eu não. Se eu tivesse de o fazer, também poderia tomar algumas decisões erradas.

Dizer isto é tão impopular, que me arrisco a tornar-me um pária entre os meus amigos à esquerda. Mas, hoje, o maior risco para mim e outros americanos é a continuada ignorância de classe. Se não tomarmos medidas para superar a falta de cultura de classe, quando Trump provar a incapacidade para devolver o aço a Youngstown, Ohio, as consequências podem-se tornar perigosas.

Em 2010, enquanto fazia uma digressão para apresentação do livro Reshaping the Work-Family Debate [Reformulação do Debate Trabalho-Família], dei uma palestra sobre tudo isso na Harvard Kennedy School. A mulher que dirigia a série de oradores, uma importante operacional democrata, gostava da minha intervenção. “Está dizendo exatamente o que os democratas precisam ouvir”, disse, “e nunca ouviram”. Espero que agora ouçam.

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