28 de abril de 2022

Centrão cresce, nanicos murcham e Assembleias têm nova correlação de forças

Legislativos estaduais tiveram escalada de adesões a partidos aliados a Bolsonaro

João Pedro Pitombo


Visão interna no prédio da Assembleia Legislativa de São Paulo - Adriano Vizoni/Folhapress

Assim como ganharam espaço na Câmara dos Deputados e no Senado, partidos da coalização que sustenta o governo Jair Bolsonaro (PL) também passaram a ter maior protagonismo nos Legislativos estaduais.

Levantamento da Folha junto às Assembleias Legislativas dos 26 estados e na Câmara Legislativa do Distrito Federal apontam para mudanças na correlação de forças entre as legendas após o encerramento da janela partidária.

Os deputados que vão concorrer em outubro tiveram até 2 de abril para trocar de partido, mas os números finais ainda podem mudar, já que nem todos os parlamentares informaram as trocas às Assembleias.

O PL foi a legenda que mais cresceu em comparação com a eleição de 2018: saiu de 43 deputados estaduais eleitos há quatro anos para os atuais 109, um crescimento de 150%. Com as novas adesões, o partido passou a ser a maior bancada no Legislativo em São Paulo e no Rio de Janeiro.

O avanço aconteceu após a filiação de Bolsonaro, que atraiu seus correligionários para a nova legenda. Dos novos deputados estaduais, 38 vieram do PSL, antigo partido do presidente que se fundiu ao DEM para criar a União Brasil.

O PP e Republicanos, que completam a principal trinca de sustentação ao presidente, também cresceram nos estados. O Republicanos saiu de 42 para 75 deputados, crescendo em praticamente todos os estados. O PP saiu de 70 para 95.

Professor da Fundação Dom Cabral, o analista político Bruno Carazza afirma que a ascensão do centrão e a filiação de Bolsonaro ao partido liderado por Valdemar Costa Neto fez com que PL, PP e Republicanos ganhassem o reforço do núcleo raiz do bolsonarismo.

Desta forma, uma base de apoio que estava fragmentada entre várias siglas da direita e centro-direita ganhou um comando unificado em meio à estratégia para a reeleição de Bolsonaro.

Carazza diz que a filiação de deputados bolsonaristas a PL, PP e Republicanos funciona como uma estratégia de ganha-ganha. De um lado, os aliados do presidente estarão em uma legenda robusta para concorrer nas eleições. Do outro, os partidos ganham peças novas para ampliar as suas bancadas.

"Bolsonaro é um grande puxador de votos e uma figura importante para o eleitor conservador. A chegada de deputados bolsonaristas é um excelente negócio para os partidos do centrão, que terão condições de fazer uma grande bancada", diz o autor do livro "Dinheiro, Eleições e Poder".

PL, PP e Republicanos terão, juntos, R$ 860 milhões de fundo eleitoral para gastar no pleito de outubro. Caso consigam ampliar suas bancadas na Câmara dos Deputados, terão ainda mais recursos nas próximas eleições.

Ao mesmo tempo em que os maiores partidos da base de Bolsonaro cresceram, as legendas de médio porte que estão no entorno do presidente esvaziaram nos estados após a janela partidária.

Foi o caso de PSC e PTB, que estão entre as legendas que proporcionalmente mais perderam deputados estaduais em comparação com 2018.

O PTB, que elegeu 31 deputados estaduais há quatro anos, agora tem apenas 10. As perdas aconteceram após o partido dar uma guinada ideológica, aderindo a um conservadorismo mais radical e expurgando de seus principais líderes nos estados.

O PSC, sigla ligada à Assembleia de Deus, também perdeu espaço para outros partidos do campo conservador e saiu de 30 para 17 deputados estaduais.

O partido também perdeu na janela partidária o governador Wilson Lima, do Amazonas, que vai disputar a reeleição pela União Brasil. No ano passado, o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, já havia migrado para o PL.

O esvaziamento das legendas de menor porte reflete uma tendência de maior concentração partidária com o fim das coligações nas eleições legislativas e a retomada da cláusula de barreira.

Conforme apontado pela Folha, políticos com mandato se aglutinaram em menos partidos e afunilaram as chapas competitivas na disputa para o Legislativo nos estados.

A maior concentração partidária aconteceu sobretudo em estados menores, que têm menos vagas e onde, proporcionalmente, é preciso ter mais votos para atingir o quociente eleitoral.

O resultado foi a criação de superbancadas nas Assembleias. O fenômeno aconteceu em Alagoas (15 deputados no MDB), Piauí (13 no PT), Maranhão (13 no PSB) e Tocantins (11 no Republicanos).

Em geral, os deputados seguiram para mesmo partido do governador, com exceção do Rio Grande do Norte, onde 12 dos 24 dos deputados foram para o PSDB. O estado é governado por Fátima Bezerra (PT), cujo partido manteve seus dois deputados.

Partidos nanicos também sentiram o efeito da janela partidária: a maior parte dos deputados estaduais destes partidos buscaram siglas mais robustas para concorrer à reeleição em outubro.

Legendas que ficaram abaixo da linha de corte da cláusula de barreira em 2018 como PRTB, DC, PMN, PMB e Agir minguaram nas Assembleias Legislativas. Juntas, elas elegeram 47 deputados estaduais há quatro anos e agora têm apenas 12.

No campo da esquerda, o PT do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o que teve maior crescimento nas Assembleias Legislativas, sobretudo em estados do Nordeste. Com as novas adesões, saiu de 85 para 103 deputados.

O avanço foi puxado por estados como o Piauí, onde a bancada petista saiu de 5 deputados eleitos em há quatro anos para os atuais 13. Também houve crescimento das bancadas estaduais do partido em estados como a Bahia e o Ceará.

Os demais partidos da esquerda registraram um cenário de estabilidade. O PSB saiu de 64 para 69 deputados nas Assembleias, a despeito de ter registrado baixas em após decidir não participar da federação partidária com PT, PC do B e PV.

As perdas foram compensadas pelo crescimento em estados como Pernambuco e Maranhão. Neste último, onde o PSB filiou o ex-governador Flávio Dino e o governador Carlos Brandão, o partido saiu de 2 deputados eleitos há quatro anos para os atuais 13.

O PDT, que terá candidatura própria ao Planalto com Ciro Gomes, teve uma leve queda saindo de 53 deputados nos estados para 50. Houve perdas para o campo da esquerda, com mudanças para o PSB, e também para direita, com migrações para a União Brasil.

Para o analista político Bruno Carazza, as movimentações na esquerda refletem mais uma lógica mais local e revelam uma dificuldade dos partidos em atrair quadros de centro, a despeito da filiação de Geraldo Alckmin ao PSB.

Legendas de centro-direita como PSDB e MDB, que com a União Brasil tentam definir um candidato único à Presidência, também tiveram uma leve queda em relação à bancada eleita em 2018.

As principais perdas do MDB foram para a União Brasil —​​oito deputados estaduais seguiram para o novo partido. O principal algoz do PSDB, por sua vez, foi o PSD liderado por Gilberto Kassab, saltou de 58 para 84 deputados estaduais.

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