Entrevista com
Omer Bartov
Elias Feroz
Elias Feroz
Omer Bartov
É preciso haver uma pressão significativa sobre Israel, e essa pressão deve vir, antes de tudo, dos Estados Unidos, na forma de sanções.
Colaborador
Omer Bartov é professor de história na Universidade Brown.
Elias Feroz é escritor freelancer. Entre outros temas, concentra-se no racismo, no antissemitismo e na islamofobia, bem como na política e na cultura da memória.
Omer Bartov
Entrevista realizada por
Elias Feroz
Elias Feroz
Omer Bartov é um dos principais especialistas mundiais em genocídio e no Holocausto. Professor de história na Universidade Brown, ele escreveu extensivamente sobre nacionalismo, violência política e memória histórica.
Em seu novo livro, Israel: What Went Wrong?, Bartov examina a evolução do sionismo, passando de um movimento que defendia fundamentos universalistas para a autodeterminação judaica para o que ele considera uma ideologia de Estado cada vez mais militarizada, expansionista e excludente. Ele argumenta que a crise atual de Israel tem raízes não apenas em desdobramentos políticos recentes, mas também em escolhas fundamentais feitas na criação do Estado.
Nesta entrevista a Elias Feroz para a Jacobin, Bartov discute a transformação histórica do sionismo, a ascensão de figuras de extrema-direita como Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich, e os limites da oposição política em Israel.
Elias Feroz
Em Israel: What Went Wrong?, você descreve seu pai como “o último sionista” e retrata Benjamin Netanyahu como “o grande destruidor do sionismo tal como meu pai o entendia”. O que exatamente você acha que desapareceu do sionismo hoje — e você acredita que a versão que seu pai representava ainda pode existir politicamente em Israel?
Omer Bartov
Elias Feroz
Em seu novo livro, Israel: What Went Wrong?, Bartov examina a evolução do sionismo, passando de um movimento que defendia fundamentos universalistas para a autodeterminação judaica para o que ele considera uma ideologia de Estado cada vez mais militarizada, expansionista e excludente. Ele argumenta que a crise atual de Israel tem raízes não apenas em desdobramentos políticos recentes, mas também em escolhas fundamentais feitas na criação do Estado.
Nesta entrevista a Elias Feroz para a Jacobin, Bartov discute a transformação histórica do sionismo, a ascensão de figuras de extrema-direita como Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich, e os limites da oposição política em Israel.
Elias Feroz
Em Israel: What Went Wrong?, você descreve seu pai como “o último sionista” e retrata Benjamin Netanyahu como “o grande destruidor do sionismo tal como meu pai o entendia”. O que exatamente você acha que desapareceu do sionismo hoje — e você acredita que a versão que seu pai representava ainda pode existir politicamente em Israel?
Omer Bartov
Acho que essa versão ficou no passado, e não acredito que o sionismo possa ser consertado ou ressuscitado.
Não quero idealizar [a interpretação que meu pai fazia] dele. Tratava-se de um movimento nacional e etnonacional que, como todos os movimentos desse tipo, continha elementos violentos. Mas também possuía fortes componentes socialistas e baseava-se em apelos ao humanitarismo, aos direitos humanos e ao Estado de Direito. O que ele se tornou hoje é algo diferente. Primeiramente, transformou-se de movimento em ideologia de Estado. Tornou-se cada vez mais militarista, expansionista e racista. Após 7 de outubro, passou também a ser utilizado para justificar o genocídio.
A partir do movimento Gush Emunim [o ultranacionalista “Bloco dos Fiéis”, que, a partir da década de 1970, pressionou pela expansão dos assentamentos] e do projeto de assentamentos na Cisjordânia, o sionismo foi sendo gradualmente, ao longo do tempo, apropriado por um determinado elemento religioso. Isso transformou não apenas o sionismo, mas o próprio judaísmo, em uma ideologia fanática, messiânica, racista e de supremacia judaica — algo estranho a qualquer forma de judaísmo existente desde a época romana.
Alguns elementos [do sionismo atual] assemelham-se a aspectos da ideologia do Estado iraniano e de certos ideólogos do Hamas. Há uma estranha convergência entre essa transformação do sionismo e formas de fundamentalismo islâmico.
Essa combinação do Sionismo — enquanto ideologia cada vez mais racista e militarista — com um novo tipo de judaísmo (um tipo que não teria sido reconhecido pelos meus avós ortodoxos e que jamais poderia ser adotado pela maioria dos judeus que vivem fora de Israel) transformou-o em uma ideologia absolutamente insustentável. Um Estado controlado por esse tipo de ideologia tende inevitavelmente a agir da maneira como Israel vem agindo e, de fato, está em processo de se tornar um Estado pária.
Ironicamente, alguns elementos dessa ideologia assemelham-se a aspectos da ideologia do Estado iraniano e de certos ideólogos do Hamas. Existe uma estranha convergência entre essa transformação do Sionismo e formas de fundamentalismo islâmico. De qualquer modo, não acredito que uma ideologia que apoia o genocídio possa ser reformada.
Elias Feroz
Você argumenta que, antes de 1948, o sionismo tinha duas faces — um movimento de libertação e um projeto etnonacionalista de colonialismo de povoamento — e que, após a criação do Estado, esta última passou a dominar cada vez mais a política israelense. O que explica essa mudança?
Omer Bartov
Em 1948, Israel deparou-se com uma escolha. O país havia criado um Estado de maioria judaica por meio da guerra e da limpeza étnica. Tornou-se, então, um Estado reconhecido e legítimo perante a comunidade internacional. Naquele momento, o sionismo havia efetivamente alcançado seu objetivo central: a criação de um Estado de maioria judaica. O passo seguinte poderia ter sido a construção de um Estado que servisse a todos os seus cidadãos de forma igualitária. Uma expressão disso teria sido uma constituição que incorporasse a carta de direitos prometida na Declaração de Independência. No entanto, nenhuma constituição foi jamais adotada. Israel também nunca definiu formalmente suas fronteiras.
Assim como outras ideologias que chegam ao poder, o sionismo ganhou força própria depois de se consolidar nas instituições estatais.
Isso não era inevitável. Houve tentativas — certamente na década de 1990 — tanto de aprovar leis de caráter constitucional quanto de alcançar algum acordo sobre os territórios ocupados, mas todas fracassaram. E, posteriormente — sobretudo após o assassinato de Yitzhak Rabin e a segunda Intifada —, o sionismo tornou-se cada vez mais racista e violento e, como vimos após 7 de outubro, também genocida.
Elias Feroz
Em seu livro, você frequentemente descreve a ausência de uma constituição israelense como um erro histórico. O que você acha que seria diferente se o país tivesse uma constituição?
Omer Bartov
Não podemos afirmar com certeza. Países já tiveram constituições que não impediram necessariamente a prática de atos condenáveis, tanto contra seus próprios cidadãos quanto contra outras nações.
Mas acredito ser possível que, se Israel tivesse uma constituição alinhada ao espírito de sua Declaração de Independência, teria sido muito mais difícil adotar os tipos de políticas que o país começou a implementar logo de início. Mais importante ainda: teria sido difícil manter o regime militar sobre os cidadãos palestinos remanescentes por vinte anos, pois isso seria claramente inconstitucional. E a Suprema Corte, vinculada a tal constituição, talvez tivesse muito mais dificuldade para justificar essa situação.
Isso também poderia ter tornado o país mais disposto a encontrar alguma forma de reparação, ou de repatriação parcial, para os palestinos expulsos em 1948. Novamente, por razões constitucionais, teria sido muito difícil para a Suprema Corte, após 1967, legitimar a situação dos colonos judeus na Cisjordânia — algo que ela efetivamente fez. O tribunal foi cúmplice na criação do que se tornou um regime de apartheid na Cisjordânia. Uma constituição teria tornado isso muito mais difícil, a menos que houvesse grandes alterações na própria constituição.
Haveria também implicações para questões internas, como a limitação do poder dos ultraortodoxos. Israel, em muitos aspectos, já possui leis de caráter teocrático — o casamento civil, por exemplo, não existe. Tudo isso, é claro, situa-se no campo das possibilidades. Constituições podem ser revogadas ou alteradas. Mas acredito que teria sido mais difícil para o Sionismo e para o Estado evoluírem da maneira como o fizeram.
Outro elemento são as fronteiras. Uma constituição poderia ter definido as fronteiras do Estado — algo a que David Ben-Gurion se opôs fortemente. Em vez disso, Israel sempre teve apenas linhas de cessar-fogo; elas são aceitas na prática, mas não constituem fronteiras reais em sentido constitucional.
Se olharmos para os Estados Unidos, por exemplo, vemos que foram aprovadas leis que violavam claramente a constituição, mas, com o tempo, a constituição "voltou a prevalecer". Portanto, ela cria uma estrutura jurídica que Israel nunca teve.
Elias Feroz
Hoje, quando muitas pessoas pensam no Sionismo, elas o associam cada vez mais a figuras como Itamar Ben-Gvir, Bezalel Smotrich ou Benjamin Netanyahu. Recentemente, o comportamento de Ben-Gvir em relação aos ativistas da flotilha — incluindo a maneira como ele os tratou e falou sobre eles publicamente — provocou grande indignação internacional, especialmente na Europa. No entanto, sua retórica desumanizadora em relação aos palestinos vem sendo documentada há anos. O que significa o fato de figuras como Ben-Gvir não apenas se verem como representantes do Sionismo, mas, cada vez mais, também como representantes do próprio Judaísmo — muitas vezes confundindo a distinção entre os dois?
Omer Bartov
Houve muitas reportagens — como o artigo de Nicholas Kristof no New York Times — sobre maus-tratos e até violência sexual contra prisioneiros palestinos, especialmente desde 7 de outubro, e em escala massiva. Mas os países europeus não disseram quase nada a respeito. Foi apenas quando cidadãos europeus foram maltratados — e Ben-Gvir foi, francamente, arrogante o suficiente para publicar um vídeo disso — que eles finalmente reagiram. E, mesmo assim, não vejo muito acompanhamento. Portanto, isso também revela algo sobre as respostas europeias ao comportamento de Israel.
O que Ben-Gvir representa é exatamente essa dinâmica. Dez anos atrás, ele estava sendo investigado pelos serviços de segurança de Israel, com processos contra si, conhecido como um extremista e um infrator violento que jamais deveria ocupar um cargo público. Agora, ele está no comando do sistema prisional e da polícia. E ele é popular. Não é apenas ele. Talvez 30% da população concorde abertamente com ele. Outros podem se sentir envergonhados por ele, mas não discordam fortemente do que está sendo feito — especialmente quando se trata de [injustiça contra] palestinos. Eles podem não gostar de seu extremismo, mas aceitam a direção tomada.
E o que já aconteceu, mesmo antes de 7 de outubro, é que táticas antes usadas contra palestinos estão sendo cada vez mais usadas contra judeus dentro de Israel. Assim, cidadãos judeus — judeus liberais ou seculares — começaram a sentir um pouco do que significa ser palestino nesse sistema. E a maioria deles acabou se alinhando, em parte por medo.
Elias Feroz
Você acha que faria alguma diferença se outra pessoa fosse eleita em vez de Netanyahu?
Omer Bartov
A oposição diz agora que não vai se aliar aos partidos árabes, mas, se não os incluírem, não conseguirão formar governo. Eles não querem fazer isso, em parte porque são racistas e, em parte, porque têm medo de seus eleitores, que também são racistas. Mas teriam de fazê-lo e, acredito, acabariam fazendo.
Elias Feroz
Que diferença isso faria?
Omer Bartov
Em relação aos palestinos nos territórios ocupados, acho que as mudanças seriam mínimas, se é que haveria alguma. Quanto aos cidadãos palestinos de Israel, acho que poderia haver uma mudança. Acredito que um ministro da Polícia diferente — como o cargo era chamado antigamente, em vez de "Segurança Nacional", que é uma invenção de Ben-Gvir — poderia fazer a diferença.
Durante o governo anterior de Naftali Bennett, que durou pouco tempo, houve tentativas de usar a polícia para combater a violência de gangues em comunidades árabes dentro de Israel, um problema que se tornou muito grave. Isso poderia mudar novamente. Pode haver uma certa desaceleração na erosão do Estado de Direito e alguma tentativa de conter uma força policial que, atualmente, está fora de controle. Eles também poderiam ser um pouco mais receptivos à pressão externa, já que Netanyahu luta por sua sobrevivência política. Ele coloca seus próprios interesses em primeiro lugar. Outro líder, mesmo alguém de direita como Bennett, poderia estar mais aberto à pressão externa, pois não estaria lutando por sua sobrevivência imediata.
Mas, a longo prazo, nada disso seria suficiente. A política israelense só mudará com pressão externa na forma de sanções.
Para mim, pessoalmente, uma mudança de governo poderia tornar possível cogitar visitar o país novamente. Por outro lado, se Netanyahu vencesse, acho que muitos israelenses deixariam o país, e eu possivelmente nunca mais poderia visitá-lo, já que outro governo Netanyahu poderia muito bem significar o fim da democracia e do Estado de Direito em Israel por muitos anos.
Elias Feroz
Sua perspectiva e suas opiniões sobre as ações de Israel em Gaza parecem ser uma exceção na sociedade israelense. Parece ser muito difícil, para um israelense, chegar às conclusões a que você chegou — especialmente considerando que a identidade e a história palestinas são frequentemente ignoradas na sociedade israelense, particularmente a Nakba. Quando você ouviu falar da Nakba pela primeira vez e quando começou a interagir com a sociedade e a história palestinas?
Omer Bartov
Eu não conhecia nenhum palestino na minha juventude. Acho que tudo começou na universidade, quando eu era estudante. Meu primeiro contato real ocorreu quando eu servia como soldado em território ocupado. Servi na Cisjordânia e em Gaza. Eu diria que me sentia desconfortável com a situação, mas não posso afirmar que a tenha analisado profundamente na época. Eu já achava a ocupação errada antes mesmo de entrar para o exército. Então, por volta de 1970–71, quando estava no ensino médio, participei de grupos muito pequenos que já se opunham à ocupação. Mas éramos muito jovens. Não havia palestinos envolvidos. Eram apenas estudantes judeus de origem secular e asquenaze. Meu pensamento mais político se desenvolveu mais tarde. Envolvi-me com o movimento Peace Now em 1977–78, como um dos membros fundadores.
Naquela época, também era um movimento exclusivamente judaico. Não havia palestinos envolvidos. O foco principal era a paz com o Egito. Um ponto de virada importante para mim foi a primeira Intifada, em 1987. A ideia de ter que reprimir manifestantes palestinos na condição de oficial da reserva não me agradava nem um pouco. Em vez disso, fui para os Estados Unidos com uma bolsa de estudos. Mas, mesmo assim, o contato direto com palestinos só aconteceu muito mais tarde. Eu diria que as interações mais intensas só começaram por volta de 2015. Isso ocorreu por meio de um projeto de pesquisa que organizei na Universidade Brown, reunindo acadêmicos israelenses, judeus, palestinos e de outras origens. Foi então que comecei a conhecer as pessoas não apenas intelectualmente, mas pessoalmente — como colegas e, às vezes, como amigos. E isso mudou as coisas significativamente.
Elias Feroz
Desde o anúncio de um cessar-fogo no ano passado, foi relatada a morte de mais de mil palestinos em Gaza, além de milhares de feridos. Como essa violência contínua afeta sua avaliação sobre se o que está acontecendo em Gaza constitui genocídio — e, na sua opinião, o genocídio chegou ao fim?
Omer Bartov
Concluí que um genocídio já estava ocorrendo no verão de 2024. O que aconteceu desde o cessar-fogo é, como você disse, que a violência persiste na forma de assassinatos. Há também violência contínua decorrente das condições desumanas em que as pessoas vivem. Sabemos que as Forças de Defesa de Israel (FDI) têm avançado a "linha amarela" cada vez mais para dentro do que deveria ser o território palestino remanescente em Gaza. Recentemente, Netanyahu afirmou que Israel controlará 70% da área.
De certa forma, o que Israel está fazendo agora é a mesma coisa, porém por outros meios. O país continua tentando realizar o que buscou desde o início: promover uma limpeza étnica e remover a população de Gaza; e, como essa população não tem para onde ir, Israel cria condições de vida insustentáveis. Antes, fez isso por meio da destruição; agora, continua utilizando outros métodos. Israel não optou por parar; foi forçado — em parte por Donald Trump — a interromper a fase de destruição em larga escala. Assim, agora torna a vida inviável. A política de limpeza étnica prossegue, mantendo as mesmas dimensões estruturais e sociais.
Israel ainda tenta fazer o que tentou desde o início: promover uma limpeza étnica, remover a população de Gaza e — como a população não tem para onde ir — criar condições de vida insustentáveis.
Não sabemos sequer quantas pessoas estão morrendo indiretamente, todos os dias, em decorrência dessas condições; no entanto, tal situação pode enquadrar-se na Convenção sobre Genocídio, visto que esta abrange a imposição de danos físicos e mentais graves, a prevenção de nascimentos e o assassinato de membros do grupo.
Quanto ao futuro, vislumbro um cenário quase de pesadelo. O chamado plano Trump — o plano de vinte pontos — e outras declarações poderiam levar à continuidade do genocídio sob uma nova forma. Seria uma situação em que todos lucram, exceto os palestinos. Estados árabes financiariam a construção de uma cidade com ares futuristas, uma espécie de "Riviera". A mão de obra seria composta pelos palestinos que permanecessem no local. A área além da "linha amarela", que foi arrasada, seria transformada em zonas de assentamento arborizadas. Incorporadoras imobiliárias e figuras como Trump, Jared Kushner e outros lucrariam ao administrar esse empreendimento imobiliário.
Os palestinos seriam confinados nas chamadas cidades humanitárias e, posteriormente, passariam a atuar efetivamente como mão de obra — realizando serviços de limpeza e manutenção da área, entre outras tarefas — para atender aqueles que viriam da Europa e dos Estados Unidos para desfrutar do litoral. Essa seria uma perspectiva aterradora, não apenas para os palestinos, mas também para qualquer pessoa que reflita sobre as futuras formas de violência e expropriação, nas quais a destruição é seguida pelo lucro.
Elias Feroz
As atuais operações das FDI no Líbano parecem refletir aspectos da sua estratégia em Gaza.
Omer Bartov
Por um lado, Israel está a fazer no Líbano o que tem feito desde a década de 1970. Não há nada de fundamentalmente novo nisso. Naquela altura foi a Organização de Libertação da Palestina que Israel tentou destruir, e hoje é o Hezbollah, que matou muitos civis no processo e depois se retirou porque não é capaz de ocupar o Líbano. E isso se repete.
Por outro lado, há também elementos que se assemelham claramente a Gaza: deslocamento massivo de população — mais de um milhão de pessoas — e demolição sistemática de casas. Isto está muito de acordo com as tácticas de Gaza. Mas não há um objetivo estratégico claro. Essa é a coisa impressionante. Israel não vai destruir o Hezbollah arrasando aldeias, tal como não conseguiu destruir o Hamas, porque não está envolvido na política, apenas na destruição.
É preciso haver uma pressão significativa sobre Israel, e essa pressão deve vir, antes de tudo, dos Estados Unidos, na forma de sanções.
Portanto, nesse sentido, existe a mesma lógica em Gaza e no Líbano. A diferença é que não acredito que Israel vá ocupar ou anexar partes do Líbano. Não vejo isso acontecendo. Já em relação a Gaza, há claramente mais vozes defendendo essa ideia. E acredito que o principal motor de grande parte disso, incluindo as tensões com o Irã, seja o próprio Netanyahu. Ele luta pela sua sobrevivência política. Grande parte dessa situação não é impulsionada por uma estratégia de longo prazo, mas pela necessidade de manter o conflito em curso até as eleições.
Elias Feroz
Dado que Israel nunca definiu formalmente suas fronteiras definitivas, até que ponto essa configuração territorial em aberto molda a forma como as operações militares se desenrolam no Líbano, em Gaza e além?
Omer Bartov
Obviamente, há pessoas que pensam nesses termos — de tomar territórios da Síria, do Líbano e da Jordânia, alegando tratar-se de terras mencionadas na Bíblia, territórios tribais, e assim por diante. Mas não acredito que esse seja um projeto sério ou realista.
Como eu disse, a questão principal não é realmente a relação entre Israel e o Hezbollah, a Síria ou a Jordânia, mas sim a relação entre Israel e a Palestina. Isso está no cerne da questão desde o início, desde 1948. Muitos israelenses desejam uma terra sem palestinos; essa ideia conta com amplo apoio em Israel. No entanto, mudar esse paradigma não é algo que possa ser feito dessa maneira, pois os palestinos não vão embora, e os judeus também não.
Portanto, é preciso haver uma pressão significativa sobre Israel, e essa pressão deve vir, antes de tudo, dos Estados Unidos, na forma de sanções. Israel contribuiu muito para se tornar um Estado pária e caminha para sofrer sanções que obrigariam a sociedade israelense — e, consequentemente, a política de Israel — a repensar sua postura e a redefinir o paradigma vigente desde 1948.
Omer Bartov é professor de história na Universidade Brown.
Elias Feroz é escritor freelancer. Entre outros temas, concentra-se no racismo, no antissemitismo e na islamofobia, bem como na política e na cultura da memória.

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