7 de março de 2025

O século de Hobsbawm

A biografia de Eric Hobsbawm escrita por Richard J. Evans, A Life in History, foi aclamada como o estudo definitivo sobre um grande historiador marxista. Forjada em relação a eventos históricos mundiais como a Revolução Russa de 1917, a Segunda Guerra Mundial e o antifascismo, e a ascensão e queda do stalinismo e da social-democracia, a obra de Hobsbawm traçou novas perspectivas sobre a história. Evans oferece um retrato fascinante dessa figura influente, mas que não atinge o nível de profundidade e análise crítica que seu biografado exige.

Bryan D. Palmer


Vol. 4 – No. 1

Richard J. Evans
Eric Hobsbawm: A Life in History
(New York: Oxford University Press, 2019)

Os historiadores marxistas britânicos seriam um grupo coerente, aglutinados pela mesmice de sua filiação ao materialismo histórico? Quão sintonizados estavam Eric Hobsbawm, E. P. Thompson, Dorothy Thompson, Rodney Hilton, Maurice Dobb, George Rudé, John Saville, Christopher Hill, Victor Kiernan, Dona Torr e Margot Heinemann? O senso comum tende a agrupar essas figuras; discussões recentes gesticulam levemente em direção à diferenciação.

Havia, é claro, um respeito mútuo entre esses historiadores dissidentes. Todos compartilhavam um certo status de "marginalidade" durante os anos da Guerra Fria, período em que suas pesquisas e escritos surgiram pela primeira vez. A comunhão registrava-se no projeto de injetar uma dose forte de desigualdade de classe no "chá ralo" das histórias das elites (High Table), preocupadas com o cardápio insosso de sociedades de uma classe só e suas continuidades de longue durée. Mas presumir que os historiadores marxistas britânicos produziram histórias a partir de um modelo comum obscurece distinções importantes relativas a métodos de pesquisa, sensibilidades estilísticas e orientações analíticas. Os marxismos desses distintos praticantes do materialismo histórico divergiram intelectualmente e, com o tempo, politicamente. Muitos deixaram o Partido Comunista em 1956; outros não. Disputas fervilhavam sob a superfície de um consenso aparente e sempre inquieto.

O primeiro entre iguais nesse extraordinário contingente marxista era Eric J. Hobsbawm. Amplamente reconhecido como o principal historiador marxista do mundo, o alcance intelectual de Hobsbawm era inigualável. Jamais alguém que cedesse a considerações vigentes, ele foi muitas vezes uma voz corajosa de dissidência, desafiando convenções. Bem recebido em todo o Sul Global, onde seus escritos foram ansiosamente traduzidos e vendidos em larga escala, a influência e o prestígio de Hobsbawm eram resolutamente internacionais. Houve poucos marxistas a quem foi concedido o respeito que Hobsbawm angariou em camadas distintas do mercado literário; suas histórias foram abraçadas por públicos díspares, entre os quais muitos não especialmente comprometidos com uma reconstrução radical do status quo.

Hobsbawm foi cedo ungido como um "escolhido". O semanário estudantil de Cambridge, Granta, editado por Hobsbawm, traçou seu perfil em 1939, declarando: "Há um calouro no King’s que sabe sobre tudo". Eric foi eleito para a Cambridge Conversazione Society, um corpo secreto conhecido como os Apóstolos (the Apostles), cujos jantares ele gostava de frequentar. Eventualmente, Hobsbawm conviveria nesses encontros apostólicos com figuras como John Maynard Keynes, E. M. Forster e os que viriam a ser os notórios agentes russos Anthony Blunt e Guy Burgess.

Décadas mais tarde, a capacidade inigualável de Hobsbawm de sintetizar o desenvolvimento do capitalismo rendeu-lhe elogios de seus pares. Eles apreciavam seu projeto de produzir uma "história da sociedade" totalizante, onde o reconhecimento da determinação econômica não terminava por negligenciar "a arte, a ciência, a religião, a ideologia e até a psicologia social". A insistência de Hobsbawm em abordar a história como uma narrativa holística surgiu, ademais, em um momento em que muitos supostos esquerdistas sucumbiam ao particularismo da moda do pós-modernismo. Como concluem Raphael Samuel e Gareth Stedman Jones, "talvez uma das conquistas excepcionais e menos comentadas de Hobsbawm tenha sido sua capacidade de reunir as proposições do marxismo clássico e as preocupações empíricas dos historiadores sociais e econômicos em uma teia virtualmente sem costuras". Isso significou que a transição do feudalismo para o capitalismo, a formação de classes e o desenvolvimento capitalista industrial, o protesto e a rebelião, a sindicalização, a urbanização, os partidos de esquerda e as mobilizações insurgentes tornaram-se, ao longo das décadas de 1970 e 1980, "quase parte do 'senso comum' da investigação e pesquisa acadêmica".

Como o jazz que ele tanto amava, a improvisação histórica de Hobsbawm abrangia o quente e o frio, notas de swing e blues, um engajamento de "chamada e resposta" com entendimentos convencionais que servia de palco para argumentos dissonantes. Na orquestração polifônica de sua apresentação do passado, Hobsbawm entregou uma periodização abrangente dos ritmos econômicos, políticos e sociais do capitalismo, canalizando as discórdias do desenvolvimento de formas que nunca esqueciam o preço do "progresso". A experiência histórica moderna, insistia Hobsbawm, necessitava da "expectativa do apocalipse". A Era dos Extremos (1994), seu relato sobre "o breve século XX, 1914–1991", termina com uma advertência:

Se a humanidade quer ter um futuro reconhecível, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base, fracassaremos. E o preço do fracasso, ou seja, a alternativa para uma sociedade mudada, é a escuridão.

Uma biografia recente de Hobsbawm, escrita por um historiador europeu politicamente convencional e ex-colega de "Eric, o Vermelho", Richard J. Evans, oferece uma oportunidade para medir a estatura deste preeminente historiador marxista. Espécie de relato "oficial" da vida de Hobsbawm, Evans obviamente contou com o apoio da família do historiador. Sua interpretação generosa de um homem de letras da esquerda do século XX baseia-se em um extenso arquivo pessoal, incluindo um diário que Eric manteve durante grande parte de sua juventude e esporadicamente depois disso. Uma autobiografia publicada anteriormente, Tempos Interessantes: Uma Vida no Século XX (2002), concentrou-se no homem público das ideias e da política, oferecendo a autoapresentação de Hobsbawm. Era tão impenitente quanto frequentemente pouco reflexiva, pelo menos quanto ao período de sua idade adulta. Ao mergulhar profundamente na pessoa privada, Evans elabora sobre o que Hobsbawm parecia reticente em revelar. No entanto, ao confrontar a política e as publicações de seu fascinante biografado, é difícil não ver Evans como o "curador" de Hobsbawm. A Life in History é uma tentativa orquestrada de trazer um marxista para a corrente principal (mainstream), revelando quão distante Evans está do meio de esquerda no qual Hobsbawm estava imerso e onde frequentemente criava ondas de oposição.

Evans também produziu esta biografia rapidamente. Erros não forçados inevitavelmente rastejam para dentro do texto. Teria um Eric de dezessete anos realmente lido “uma obra antiga do comunista americano Farrell Dobbs”? Improvável, pois no ano citado, Dobbs havia publicado pouco, se é que publicara algo, que Hobsbawm pudesse ter encontrado; ele nunca fora membro do Partido Comunista e estivera envolvido em uma insurgência dos Teamsters (caminhoneiros) em 1934 que o levaria a tornar-se um trotskista. Evans deve ter lido mal o diário de Hobsbawm, que provavelmente se referia a escritos do comunista britânico Maurice Dobb. Ele também erra ao datar o presente de Eric — o livro de Stalin, História do Partido Comunista da União Soviética (Bolchevique): Breve Curso — a um primo em 1935, sendo que o livro só foi publicado no final da década de 1930. A história do trabalho, campo de estudo original de Hobsbawm, não é algo com o qual Evans esteja particularmente sintonizado (ele se refere erroneamente ao líder da American International Longshore and Warehouse Union na Costa Oeste como Harry Bridge [em vez de Bridges]). No entanto, ele é apressado demais ao oferecer vereditos — baseados em pouca apreciação pelas nuances do julgamento historiográfico — de que o estudo da classe operária havia “entrado em um período de crise — uma crise terminal” na década de 1980. Sheila Rowbotham, identificada como coautora de uma crítica feminista a um ensaio de Hobsbawm de 1978 sobre iconografia socialista e imagens de mulheres, não esteve envolvida na publicação da réplica que Evans menciona. Lapsos à parte, e não obstante o peso que Evans coloca na esfera íntima, é o político que é primordial para transmitir os significados da vida de Hobsbawm e para engajar-se criticamente com o estudo dessa história.

(Sobre)determinações: Uma vida na história

Nascido no ano da Revolução Russa, Eric John Ernest Hobsbawm viveria sob a sombra do experimento do comunismo soviético durante toda a sua longa vida adulta. Centro-europeu de criação, Hobsbawm teve uma mãe austríaca que aspirava ser romancista e um pai que era o tipo piedoso do "homem viril" inglês, que gostava de Rudyard Kipling, canções de music hall e esportes, e valorizava o vigor físico masculino. Ambos os pais eram judeus, mas nenhum era "praticante". Sua mãe, muito mais influente, transmitiu a Eric a necessidade de nunca fazer nada que sugerisse vergonha de ser judeu. Hobsbawm mais tarde associou a judeidade a uma rede doméstica "que se estendia por países e oceanos [e na qual] mudar-se entre países era uma parte normal da vida". Órfão aos quatorze anos — seu pai sucumbiu ao que foi vagamente descrito como "trauma cardíaco" e sua mãe foi vítima da tuberculose pulmonar dois anos depois —, Hobsbawm viveu o resto de sua juventude com parentes e sua irmã, Nancy, em Berlim e Londres. Uma década depois, com seu marxismo funcionando como um substituto para o amor sexual e sua filiação ao Partido Comunista da Grã-Bretanha (CPGB) como reposição para a família nuclear que havia perdido, Hobsbawm estava, apesar de suas certezas políticas, “sozinho, à deriva, com um futuro incerto”.

“Cresci no ponto mais sectário da divisão socialista-comunista”, recordou Hobsbawm em meados dos anos 1980. Ele acrescentou: “Agora está claro para todos que aquilo foi um desastre. Foi minha experiência política mais formativa”. Na época, porém, o diário de Hobsbawm ecoava a visão tragicamente derrotista do Comintern de que a ascensão de Adolf Hitler ao poder na Alemanha abriria caminho para avanços revolucionários: “Talvez o fascismo traga algo de bom — será a escola pela qual o proletariado passará, para então emergir vitorioso sob a liderança do P.C.”. Alguns anos depois, Hobsbawm participou do desfile do Dia da Bastilha em Paris, em 1936. Ele foi no caminhão que filmava os eventos inspiradores do dia, sua posição privilegiada e emocionante garantida pelo status de um tio na unidade oficial de câmeras do Partido Socialista. Hobsbawm escreveu mais tarde que “pertencia à era da unidade antifascista e da Frente Popular. Isso continua a determinar meu pensamento estratégico na política até hoje”.

Poderia ser possível conciliar esse círculo de origens e influências políticas, explicando dois momentos formativos tão diferentes na filiação ao comunismo: o sectarismo do Terceiro Período e a subsequente Frente Popular ecumênica. Isso exige um certo acerto de contas. Hobsbawm nunca o fez. Afirmar que a política de alguém foi forjada, por razões específicas e com consequências muito particulares, tanto na Berlim de 1932–33 quanto na Paris da Frente Popular em 1936, é difícil. Essa justaposição é ainda mais problemática se você alude a cada momento formativo como uma explicação de por que permaneceu filiado ao Partido Comunista através dos altos e dos crescentes baixos da degeneração stalinista e seu desfecho deprimente. No entanto, é isso que Hobsbawm faz, e o que Evans aceita sem questionar. Ao falhar em interrogar rigorosamente, muito menos desafiar, as alusões de Hobsbawm sobre como sua história aparentemente contraditória determinou uma lealdade contínua à União Soviética e a uma política de stalinismo, Evans nunca escrutina seriamente a vida "dentro da história" que está apresentando. Como Perry Anderson comentou de forma incisiva, há dicotomias evidentes em Hobsbawm que estão estratificadas em todos os aspectos de sua obra, intelectual e política. Elas clamam por um sério interrogatório analítico e político. As afirmações do objeto de estudo não são, ao fim e ao cabo, substitutas para uma dissecação mais distanciada do que muitas vezes parece ser um senso de inevitabilidade conveniente e até egoísta. Evans não está equipado ou não está disposto a realizar esse tipo de incisão cirúrgica no corpo político de Hobsbawm. Ele não empunha nada que se assemelhe a um escalpelo analítico; em vez disso, serve seu tratamento da formação de um marxista com uma espátula de bolo.

A Life in History nos dá, por vezes, comentários detalhados e ocasionalmente perspicazes sobre os pensamentos privados e a vida íntima de Eric, baseando-se especialmente no diário de Hobsbawm. Evans relata encontros sexuais da juventude, entre eles uma aventura em um bordel que Hobsbawm relatou pela primeira vez em sua autobiografia de 2002. Mais importante é a morte lenta do casamento de Hobsbawm em 1943 com sua primeira esposa, Muriel Seaman, uma colega comunista sobre quem Tempos Interessantes é surpreendentemente silencioso. Uma união que era, de certa forma, de conveniência política, o par Muriel e Eric enfraqueceu, e os dois se distanciaram; por volta de 1950, suas diferenças, ao menos na avaliação de Muriel sobre a situação, eram irreconciliáveis. Sexualmente insatisfeita há algum tempo, ela disse a Eric — por quem ainda nutria um carinho considerável — que precisava ser “comida a noite inteira”.

"Amor bruto" (Tough love), de fato. Hobsbawm achou a notícia difícil de aceitar; mergulhado em depressão, considerou o suicídio. Ele conseguiu encontrar a saída desse mal-estar pessoal, e não lhe faltou companhia. Sua irmã, Nancy, subestimava os atrativos de Eric, que incluíam ser um conversador fascinante e possuir uma sagacidade iconoclasta, abençoado com vigor físico, ainda que não com uma beleza convencional. “Ele é um homem tão feio”, proclamava Nancy em espanto, “eu simplesmente não consigo entender por que todas essas mulheres se sentem atraídas por ele!”. Em Paris, Eric manteve um caso intenso com uma mulher casada que circulava em grupos de marxistas ortodoxos, Hélène Berghauer; o marido dela (de quem Eric também era muito amigo) era aluno de Henri Lefebvre. Evans rotula isso como um ménage à trois, com Hobsbawm reconhecendo que o tempo passado com o casal, logo após a dissolução de seu primeiro casamento, proporcionou-lhe “o mais próximo de uma família que eu já tive”. Mais tarde, enquanto o CPGB se fraturava em 1956–57, ele se envolveu com uma estudante de psicologia na Birkbeck, Marion Bennathan. A ligação durou alguns anos, e Marion deu à luz um filho de Eric. Ela não quis deixar o marido, que era psicologicamente frágil, e o relacionamento inevitavelmente se esgotou, com Eric aventurando-se em novos terrenos nos clubes de jazz do Soho.

À medida que Evans necessariamente lida com a política da extrema-esquerda para a qual o desenvolvimento político de Hobsbawm o atraiu, ele se vê pisando em terreno desconhecido, onde cada passo interpretativo exige consideração cuidadosa. O ponto mais grave é o malabarismo evidente na abordagem de Evans sobre a relação de Hobsbawm com o stalinismo. Evans reconhece, por um lado, o apreço que Hobsbawm e seu círculo nutriam pelo líder máximo soviético, enquanto, por outro, acaba minimizando a extensão em que Joseph Stalin e/ou o stalinismo foram influentes na cosmovisão emergente de Eric e na política posterior do historiador marxista. Uma entrada no diário de 1934, por exemplo, registra a admiração de Hobsbawm por Stalin, a quem ele considerava um dos “grandes estadistas deste século”, ostensivamente um homem de princípios que era flexível o suficiente para utilizar uma variedade de meios para atingir seus fins importantes. No entanto, Evans segue isso com a afirmação de que “a formação intelectual de Eric deveu pouco a Stalin”. A fé de Hobsbawm na União Soviética “tinha todo o absolutismo intransigente de uma paixão adolescente”.

Talvez. Contudo, como Hobsbawm deixou claro de forma inequívoca e rotineira, essa paixão juvenil durou a vida inteira. Hobsbawm defendeu as absurdas alegações dos Processos de Moscou de que o alto escalão bolchevique teria se alinhado a Leon Trotsky para subverter a Revolução, chegando ao ponto de trabalhar em conluio com a Alemanha de Hitler para entregar a União Soviética à agressão fascista. Durante as lutas de classe da Frente Popular que abalaram Paris em 1936 e 1937, Hobsbawm reduziu o papel dos trotskistas ao de “provocar levantes e motins entre grevistas”. Ele insistiu, até o fim de seus dias, que na Guerra Civil Espanhola não havia alternativa senão apoiar a URSS, passando pano para o papel desempenhado pelo Comintern na supressão de iniciativas revolucionárias e caricaturando anarquistas catalães e outros militantes não comunistas como pouco mais que sabotadores. Quando a União Soviética finalmente implodiu na virada dos anos 1980 para os 1990, o historiador marxista considerou esse um dos golpes mais devastadores sofridos no deslize para o abismo político do final do século XX.

Nunca atraído pelo componente ativista da militância partidária, Hobsbawm desenvolveu, desde seu tempo em Cambridge, um desdém pelas “tarefas monótonas e cotidianas” que Evans sugere ser o fardo tedioso “dos membros comuns da base do Partido Comunista”. “Eu não tinha gosto natural ou temperamento adequado” para as atividades ortodoxas do Partido, confessou Hobsbawm mais tarde, notando que, depois de 1950, ele “operou inteiramente em grupos acadêmicos ou intelectuais”. O lugar de Hobsbawm dentro do CPGB era cada vez mais o de um híbrido conveniente, o insider-outsider. Evans não interroga tanto esse dualismo — perguntando como e por que Hobsbawm foi capaz de se equilibrar em certas cercas incômodas de crença e identificação —, mas o molda em seu esforço contínuo para encaixar seu objeto no que ele considera ser a melhor apresentação política possível.

Dizem-nos, por meio da citação de uma lembrança dos anos 1990, que Hobsbawm chegou à conclusão, logo cedo em seu treinamento militar na Segunda Guerra Mundial, de que “a linha do Partido era absolutamente inútil”. Algumas páginas depois, no entanto, Eric escreve ao primo Ron que “o discurso de Stalin significa uma guerra do povo em todos os sentidos — técnico e político”, e organizou o envio de uma bola de futebol, assinada por toda a sua unidade, para os homólogos fraternais do Exército Vermelho. “Cada dia que eles resistem, cada vitória que conquistam, cada avião que derrubam”, pensava Hobsbawm, “aproxima os povos inglês e soviético”. Com seu tédio no treinamento de guerra palpável, Hobsbawm promoveu a visão comunista de que uma Segunda Frente deveria ser aberta, ecoando a posição oficial do CPGB em artigos escritos para o jornal de mural que editava em seu acampamento. Isso chamou a atenção do serviço secreto, a Seção 5 da Inteligência Militar Britânica. O MI5 considerou as postagens de Hobsbawm e sua defesa da linha soviética, por mais lógicas que fossem, como subversivas.

Descrito pelos espiões do Estado de segurança como “um membro fervoroso e muito ativo do Partido e bem visto na sede do Partido”, Hobsbawm era agora um homem marcado para vigilância próxima pelas autoridades, que o consideravam perigoso o suficiente para justificar mantê-lo em solo inglês e restringir seu destacamento no exterior. Cansado do teatro, Hobsbawm candidatou-se a uma vaga de pesquisador em Cambridge e foi dispensado do Exército no início de 1946. Privadamente, Hobsbawm estaria questionando as capacidades da liderança do Partido, sugerindo que a militância precisava da revitalização da discussão democrática, levando Evans a alegar que “a independência de espírito de Eric estava colidindo com a rigidez stalinista da liderança do Partido”. Hobsbawm recorda em Tempos Interessantes que ele, como muitos intelectuais comunistas britânicos, estava ficando cada vez mais cético em relação ao ataque soviético do pós-guerra imediato contra Josip Broz Tito e seu revisionismo iugoslavo. Também aparentemente perturbadora foi a onda de julgamentos encenados stalinistas na Europa Oriental e Central entre 1949 e 1952, muitos dos quais visavam judeus e exibiam um antissemitismo repugnante. No entanto, na época, Hobsbawm contribuía com artigos para a revista controlada pelos comunistas New Central European Observer, defendendo a orientação soviética para as “democracias populares”, algo que Evans evita mencionar. Junto com Christopher Hill e outros, Hobsbawm gozava de prestígio suficiente com as cúpulas partidárias na Grã-Bretanha e na URSS para ser convidado a Moscou pela Academia de Ciências Soviética, embora a viagem — sua primeira à querida pátria socialista — o tenha deixado desanimado e sem pressa de retornar. É apenas um pequeno passo para Evans alegar que Eric Hobsbawm foi um dos líderes, se não a principal inspiração, por trás da mobilização dissidente de 1956, na qual o Grupo de Historiadores do Partido Comunista, que ele presidia, teve papel de destaque. Isso começou como uma crítica ao fracasso da liderança do CPGB em responder adequadamente às revelações dos crimes de Stalin, tornadas públicas no discurso de Nikita Khrushchev em fevereiro de 1956 perante o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética. Terminou com a relação, na melhor das hipóteses ambivalente, de Hobsbawm com a subsequente New Left (Nova Esquerda), que surgiu em parte da crise do Partido em 1956. Em sua apresentação do papel de Hobsbawm nesses desenvolvimentos do final dos anos 1950 e início dos 1960, Evans interpreta erroneamente onde Eric estava situado e por quê.

A repressão soviética a uma iniciativa de liberalização em seu satélite, a Hungria, levou as coisas ao limite. Enquanto protestos estudantis eclodiam em meio a greves operárias e manifestações antissoviéticas na Polônia, tanques do Exército Vermelho entraram em Budapeste. O primeiro-ministro reformista da Hungria, Imre Nagy, foi destituído por ordens de Moscou e posteriormente executado; mais de 2.500 húngaros e 700 soldados soviéticos morreram nas batalhas de rua que se seguiram, e 200.000 húngaros fugiram do país. Essa foi a gota d'água para muitos membros do CPGB. Quando a fumaça baixou dentro do partido britânico, em 1957, um quarto dos quadros havia renunciado; um terço da redação do jornal comunista, o Daily Worker, abandonou suas mesas; e praticamente todo o corpo de intelectuais conquistado para o suposto partido da esquerda revolucionária nas décadas de 1930 e 1940 recusou-se a continuar filiado à causa de sua juventude. O Grupo de Historiadores dividiu-se, mas a maior parte de suas figuras de proa não podia mais trabalhar sob os auspícios do Partido. Hobsbawm podia e o fez, embora com reservas e arrependimento. Ele renunciou à presidência do Grupo de Historiadores que, de qualquer modo, estava agora fraturado além de qualquer reparo.

A contribuição de Evans para a extensa historiografia sobre esses eventos de 1956 é situar Hobsbawm dentro do conflito interno do Partido. Ele o faz valendo-se amplamente de transcrições do MI5 de conversas grampeadas nos escritórios do CPGB na King Street. Seu relato ilumina como o "insider-outsider" marxista forçou os limites da dissidência em 1956, com Hobsbawm entrando em choque com a hierarquia partidária. No entanto, Evans exagera significativamente o papel de liderança de Hobsbawm entre os críticos comunistas dissidentes e anti-stalinistas, e ofusca os limites da oposição política de Hobsbawm na crise de 1956 do comunismo britânico. Muitos consideravam que a postura de Eric carecia de determinação. Ele era visto como alguém que vacilava, tendendo a justificar as ações soviéticas, especialmente no que dizia respeito à intervenção na Hungria. Há também um lado negativo importante no fato de Evans confiar tão pesadamente em evidências estatais que enfatizam conversas ríspidas, embora enclausuradas, ocorridas no santuário interno do comunismo britânico, onde trocas privadas gravadas clandestinamente pelo MI5 nunca foram destinadas ao debate público. Ao privilegiar essa disputa de bastidores entre Hobsbawm e a liderança do Partido, Evans olha apenas superficialmente para a onda de oposição pública dos membros do CPGB que denunciavam o stalinismo fora do Partido. Nessa discussão mais aberta e rancorosa, historiadores como E. P. Thompson e John Saville desempenharam um papel muito diferente do que Christopher Hill apelidou de "Ericismo".

Evans, como "curador" de Hobsbawm, apresenta Eric como um intermediário entre os rebeldes e os legalistas de Moscou, elevando isso a uma posição de primazia dentro da oposição. Hobsbawm abraçou genuinamente a desestalinização, mas descrevê-lo, como Evans faz, como um oponente "perigoso" do regime burocrático do CPGB — em grande parte porque essa era a visão interna da cúpula partidária da King Street, cada vez mais acuada — é ignorar muito do que estava acontecendo. Falha em abordar como Hobsbawm estava negociando uma crise política que outros viam como irreconciliável. Hobsbawm conseguiu, no rastro de 1956, apresentar-se como um crítico da burocracia do Partido e dos piores excessos do retrocesso stalinista, enquanto permanecia associado ao movimento comunista oficial alinhado aos soviéticos, tanto na Grã-Bretanha quanto em outros países ao redor do mundo. Hobsbawm, assim, "manteve o bolo e também comeu uma parte dele". Isso poderia ser considerado uma conquista de certa forma, mas também pode ser visto como uma marca do apetite de Eric por acomodações políticas que garantissem sua autopreservação e até seu avanço pessoal. Pelo resto de sua vida, Thompson considerou a luta de 1956 como uma insígnia de honra anti-stalinista a ser usada com orgulho por todos os que lutaram as difíceis batalhas do comunismo dissidente. A compreensão de Hobsbawm era inteiramente outra. Ele considerava a crise do CPGB como uma ocorrência que deixou trinta mil comunistas britânicos perturbados, um evento lamentável melhor relegado à categoria de "más lembranças".

Evans lida com pouco disso. No rastro de 1956, ele situa Hobsbawm na Nova Esquerda (New Left) que emergiu da dissolução daquele ano de forma semelhante. Esse novo movimento consolidou-se em clubes e publicações que evoluíram do The Reasoner e New Reasoner (editados por Thompson e Saville), ampliando-se na formação paralela da Universities and Left Review e na eventual fusão dessas correntes na New Left Review. Eric, de acordo com Evans:

[...] permaneceu pessoal e politicamente próximo de seus amigos na Nova Esquerda, incluindo Edward Thompson, John Saville, Rodney Hilton e muitos outros. Eles não tinham diferenças políticas reais além da meramente simbólica filiação ao Partido, e estavam engajados em um empreendimento comum para construir um novo tipo de história social e política radical "vinda de baixo".

Isso simplesmente não é verdade. Deixando de lado as simpatias e congruências historiográficas (que são facilmente exageradas), sugerir que Thompson e outros teriam considerado a manutenção da filiação ao Partido Comunista no final dos anos 1950 como algo "meramente simbólico" revela o quão alheio Evans está de qualquer compreensão da política acalorada da época.

Após as convulsões de 1956, a relação de Hobsbawm com a emergente Nova Esquerda foi de um envolvimento distanciado, decerto, mas continha excessiva ambivalência, não pouca condescendência e até mesmo uma investigação questionável para o Partido que ele continuava a apoiar. Assim, Hobsbawm colaborava com as publicações esporádicas da Nova Esquerda, mas também oferecia "inteligência" aos líderes do CPGB sobre reuniões e mobilizações de seus antigos camaradas, que agora se esforçavam para construir uma política alternativa. Em seus relatórios para a King Street, Hobsbawm apresentava a Nova Esquerda como uma desordem organizacional, um tipo de caos político que, no entanto, atraía pessoas progressistas e rebeldes de maneiras que o CPGB não conseguia mais. Hobsbawm, contudo, nunca foi um grande construtor de nenhuma dessas iniciativas. Seu status de insider-outsider dentro do CPGB era, de certa forma, replicado na Nova Esquerda, permitindo-lhe equilibrar-se em cercas políticas sem que os pés do envolvimento ativista tocassem o chão. Se Evans tenta situar Hobsbawm na encruzilhada da formação da Nova Esquerda, Tempos Interessantes é um relato mais confiável da avaliação amarga de seu autor sobre esse experimento político.

A primeira Nova Esquerda britânica, concluiu Hobsbawm em 2012, não reformou nem o Partido Trabalhista nem o Partido Comunista; falhou em estabelecer novas organizações, instituições duradouras de relevância ou mesmo líderes nacionais de destaque. Evans reconhece que Hobsbawm era, de fato, cético quanto ao desapego da realidade em que a Nova Esquerda se encerrou, mas insinua que Eric foi influente e envolvido, citando o caso do Partisan Coffee House do movimento, no qual nota que Hobsbawm era um "diretor da empresa". Mas o empreendimento do café, fruto da imaginação de um dos alunos de doutorado de Eric e futuro fundador do movimento History Workshop, Raphael Samuel, não era realmente algo com o qual Hobsbawm tivesse qualquer relação. O Partisan precisava de algumas "personalidades de esquerda adequadas" para presidenciá-lo, e Hobsbawm deixou-se "convencer a aceitar uma dessas diretorias, contra seu melhor julgamento". O mesmo aconteceu com alguns ex-comunistas abastados. Como Hobsbawm, eles descobririam que "Raph não dava a mínima importância para nenhum de nós". O esquema foi "projetado para o desastre", condenado pela reação alérgica de Samuel a qualquer coisa que lembrasse a praticidade do senso comum. "Apenas a nostalgia e a necessidade de manter contato entre as gerações da esquerda pré e pós-1956 podem explicar por que me vi neste empreendimento lunático", concluiu Hobsbawm de forma esclarecedora, ainda que pouco caridosa. Politicamente, Hobsbawm acabou descartando a Nova Esquerda que surgiu de 1956 como uma "nota de rodapé semiesquecida".

Se Hobsbawm era um "outsider" dentro do comunismo britânico, sua marginalização na vida acadêmica convencional em meados do século era impressionante. Evans oferece uma denúncia contida, embora devastadora, da intolerância anticomunista mesquinha e sórdida que infundia um ambiente acadêmico ostensivamente livre de valores no final dos anos 1940 e início dos 1950. Foi nessa época que Hobsbawm — sempre atraído pela literatura, como tantos marxistas britânicos — optou por estudar história, concentrando suas primeiras pesquisas nos reformadores fabianos e na condição da classe operária. A tese de doutorado de Hobsbawm, produzida rapidamente e altamente crítica aos fabianos, foi aprovada no exame, ainda que alguns de seus leitores considerassem o estudo “severo demais com os líderes da Sociedade”. R. H. Tawney barrou sua publicação, condenando-a como “superficial, pretensiosa e de estilo fácil”. Eric foi rejeitado em sua primeira candidatura a uma bolsa de pesquisa júnior no King’s College, Cambridge, porque um professor local declarou que sua “memória dos fabianos não guardava relação com a análise de Hobsbawm”. Nada mais precisava ser dito! Destemido, Hobsbawm reescreveu a dissertação exigida de todos os candidatos, usando seu conhecimento do material impresso acumulado por Sidney e Beatrice Webb para o estudo de fins do século XIX, The History of Trade Unionism (1894), e suas edições revisadas subsequentes. Em uma decisão metodológica que seria definidora, Hobsbawm focou em um corpo de fontes publicadas para produzir uma “história estrutural e orientada por problemas” que rompeu decisivamente com o senso comum do campo. Intitulando seu “esboço preliminar” de Studies in the ‘New’ Trade Unionism, 1889–1914, Hobsbawm enfrentou a questão de por que uma nova forma de organização trabalhista surgiu na Grã-Bretanha após 1870 e como ela obteve sucessos entre trabalhadores anteriormente desorganizados. Tawney (novamente!) foi convidado a avaliar o projeto e ofereceu alguns elogios ambíguos, reconhecendo que fora escrito sob pressão de tempo. Um segundo leitor, o historiador econômico conservador T. S. Ashton, descartou-o de forma mais categórica. Eric, no entanto, conseguiu garantir a bolsa júnior que, embora mal paga, oferecia refeições e acomodação gratuita no King’s College. Era um começo.

A história do trabalho de Hobsbawm encontrou seu caminho nas páginas da Economic History Review. Ele conseguiu um cargo docente em Birkbeck, onde todo o ensino era noturno. Eric conseguiu estruturar suas aulas em três — e, eventualmente, duas — noites por semana. Em 1954, a Hutchinson Library encomendou-lhe um estudo intitulado The Rise of the Wage Worker, parte de uma série editada pelo eminente socialista libertário e prolífico teórico-economista-historiador G. D. H. Cole. Entregue em 1955, o livro foi rejeitado. Supostamente continha material “objetável”. A academia aceitável deveria “ser escrita sem nenhum ponto de vista”, uma afirmação que Hobsbawm considerava, com razão, absurda e facilmente refutada pelo exame do catálogo da própria Hutchinson. Hobsbawm estava se tornando uma figura controversa, chocando-se com historiadores conservadores em disputas públicas. Um deles foi Hugh Trevor-Roper. Eles debateram a importância de Karl Marx nos círculos acadêmicos, embora Trevor-Roper tenha sido liberal o suficiente em suas posturas de Guerra Fria para recomendar que seu oponente nas guerras culturais dos anos 1950 fosse admitido nos Estados Unidos para proferir uma série de conferências na Universidade de Stanford. O MI5 ficou horrorizado com o fato de Hobsbawm ter escapado pelas frestas da brigada internacional "anti-vermelha": seu pedido de visto não havia sido verificado pelo aparelho de segurança britânico, e os americanos foram pegos de surpresa, desconhecendo o histórico comunista de Eric.

Pequenos sucessos à parte, os anos 1950 de Hobsbawm foram de tédio (ennui). O pessoal (a partida de Muriel) e o político (a crise de 1956, a crescente precariedade de seu status de insider-outsider tanto no CPGB quanto na Nova Esquerda, e as restrições da Guerra Fria em sua carreira acadêmica) convergiam no descontentamento. Como antídoto para a infelicidade, Hobsbawm voltou-se para o trabalho intelectual e os prazeres do reino sensorial. Uma das melhores partes do relato de Evans sobre a vida privada de Hobsbawm explora como essas esferas se uniram na cena do jazz, onde o "eu" político marginalizado de Eric podia circular livremente. A maioria das pessoas com um conhecimento superficial de Hobsbawm sabe que ele publicou The Jazz Scene em 1959 sob o pseudônimo de Francis Newton, emprestando o nome de um trompetista comunista que tocou na gravação de "Strange Fruit" de Billie Holiday. Newton/Hobsbawm escreveu bem mais de cem artigos sobre jazz para o New Statesman de 1956 a 1966, dedicando sua pena também à essência comercial dos clubes de strip-tease do Soho. Amante do jazz desde a adolescência, quando descobriu Duke Ellington, Hobsbawm não tinha paciência para o desdém soviético pelo gênero, evidente durante os anos de Stalin (saxofones foram proibidos na URSS em 1949, milhares de instrumentos confiscados e alguns músicos enviados para o gulag). Com a morte de Stalin, contudo, a atitude oficial comunista em relação ao jazz abrandou em meados dos anos 1950, encorajando Hobsbawm a gravar um programa para a BBC sobre “A Arte de Louis Armstrong” em dezembro de 1955. Detetives zelosos do MI5 avisaram os radiodifusores que Eric era um comunista ativo, promovendo relações culturais com a União Soviética. O programa foi ao ar mesmo assim. Ainda assim, Hobsbawm manteve seus escritos sobre jazz e suas incursões noturnas pelos clubes de Londres um tanto reservados, tanto nos círculos comunistas quanto nos acadêmicos.

A convicção de Eric era de que o jazz, especialmente suas variantes mais ortodoxas, oferecia uma estética radical como antídoto para a crise de uma modernidade artística dominada pelo consumo de massa. Isso era congruente com suas crenças comunistas. Ele também achava os clubes do Soho libertadores e gostava de frequentar “lugares onde as pessoas do dia se livravam de suas inibições após o anoitecer”. A bebida, as drogas, a música, o abandono das barreiras raciais, as "garotas" — em suma, a cena — obviamente cativaram Eric. Ele era um observador, mas também um participante, de forma voluntária e feliz. Hobsbawm, então na casa dos quarenta anos, consumou um relacionamento contínuo com uma trabalhadora do sexo e aficionada por jazz de vinte e dois anos que conheceu em um clube da Wardour Street em 1958. Jo, como Evans a chama, trabalhava nas ruas para sustentar a si mesma e à sua filha pequena, bem como para manter seu vício em drogas. Hobsbawm, cujo relacionamento com Jo começou como uma amizade, eventualmente sugeriu: “Gostaria de transar com você”, recebendo a resposta resignada: “Bem, mais cedo ou mais tarde isso teria que acontecer”. O caso, que nunca foi exatamente uma labareda de paixão sexual, estava destinado a seguir seu curso, mas, enquanto durou, Jo e Eric supriram as necessidades um do outro e ofereceram companhia mútua, selada menos por um beijo do que por uma atração mútua pelo jazz e pelas formas como ele podia transcender diferenças de idade, origem, política e caráter. Para Hobsbawm, certamente não era amor, mas nunca era tedioso. Eles se separaram quando Jo e sua filha se mudaram para Brighton, e os dois perderam o contato. Quando restabeleceram a conexão, Hobsbawm ajudou Jo com fundos ocasionais e a apresentou à sua segunda esposa, Marlene, que foi acolhedora e amigável com a antiga namorada do marido.

Os escritos de Hobsbawm sobre jazz eram conservadores e irregulares, sujeitos a críticas daqueles que consideravam sua intolerância a inovações como o bebop cansativamente retrógrada. Para Eric, o jazz era um gênero tradicional, fundamentado em ritmos africanos — um idioma folclórico que expressava o trauma vivido pelos pobres negros. Ele tinha pouca paciência para qualquer coisa que diluísse ou deslocasse essa história essencialmente política, considerando as estrelas em ascensão no firmamento do jazz das décadas de 1940 e 1950 — figuras como Miles Davis e Thelonious Monk — como decepcionantemente limitadas. Seu obituário de Billie Holiday, um talento trágico porém monumental, transmitiu o que havia de melhor em Hobsbawm. Nada do que ele escreveu capturou de forma tão sucinta seu sentimento apaixonado pelos oprimidos. Ao confrontar a injustiça cruel e violenta que sobrecarregou e desfigurou a grande cantora, Hobsbawm buscou as causas raízes do que destruía o potencial humano. Isso suscitou um ódio pelo sistema, capitalista em sua essência, que viciava as cartas de forma tão brutal contra as massas: “Nascer com beleza e autorrespeito no gueto negro de Baltimore em 1915 era uma desvantagem grande demais, mesmo sem o estupro aos dez anos e o vício em drogas na adolescência. Mas, enquanto se destruía, ela cantava — amelódica, profunda e dilacerante. É impossível não chorar por ela, ou não odiar o mundo que a tornou o que ela foi”.

Hobsbawm permaneceu como um insider-outsider dentro do Partido Comunista britânico por décadas após os desprezos acadêmicos da Guerra Fria, os embates na King Street e as incursões no Soho do final dos anos 1950. Se estas últimas proporcionavam consolo, os primeiros clarificavam sua relação com o socialismo. Isaac Deutscher aparentemente disse a Hobsbawm, em 1957, que este errara ao permitir ser expulso do Partido Comunista Polonês. Lamentando não ter permanecido dentro do Comintern para melhor lutar por uma política de rejuvenescimento revolucionário, Deutscher supostamente convenceu Eric a não deixar o Partido. No entanto, Hobsbawm não era movido pela mesma intenção política de Deutscher. Sua relação com o Partido, nas décadas seguintes a 1956, envolveu pouco ou nenhum engajamento disciplinado.

A filiação de Hobsbawm ao CPGB registrava-se majoritariamente em contatos intelectuais, além do interesse do MI5 em suas viagens ao exterior, que incluíram, ao longo dos anos 1960, visitas aos Estados Unidos, Cuba e Europa continental. Quando os protestos contra a Guerra do Vietnã ganharam força em 1967 e 1968, Hobsbawm aliou-se, previsivelmente, às forças anti-imperialistas, marchando com sua esposa, Marlene, e seus filhos pequenos. Convocado para atuar em debates (teach-ins), Hobsbawm esforçou-se para transmitir aos estudantes radicais que os exemplos e lições dos protestos do século XIX poderiam ter relevância para sua causa — agora conhecida como uma outra, a segunda Nova Esquerda. Suas posições anti-guerra, quase instintivas, pareciam ter pouca conexão direta com o CPGB; ele aparentemente ia às manifestações como indivíduo, e não tanto como parte dos contingentes do Partido. Seu casamento com Marlene e o nascimento de um filho, Andy, e uma filha, Julia, em 1963 e 1964, somados à sua crescente proeminência como um tipo particular de historiador, situaram Hobsbawm em uma relação mais estável com seu lugar na sociedade britânica do que jamais experimentara. Isso, aliado à sua idade, colocou-o fora da revolta juvenil de meados ao fim dos anos 1960 — uma efervescência rebelde que, embora ele viesse a apreciar mais tarde, deixou-o confuso e politicamente desconcertado na época. Dito sem rodeios: “Quaisquer que fossem as aparências, minha geração permaneceria estranha aos anos 1960”. Hobsbawm confessou mais tarde: “Surpreende-me quão pouca atividade política direta houve em minha vida após 1956”. Ele não tomou parte em um conflito acirrado dentro do CPGB em 1968; seu marxismo limitou-se amplamente a “escrever livros e artigos”. Estes estabeleceriam sua reputação como o historiador marxista mais realizado do mundo em histórias transnacionais sintéticas, caracterizadas por sua visão grandiosa e metropolitana.

O status de Hobsbawm na esquerda da Itália, onde o eurocomunismo lançava raízes profundas, recebeu um impulso pela promoção de seus escritos por seus editores e pela receptividade do Partido Comunista Italiano (PCI) aos seus comentários sobre a política britânica. Eles apareciam regularmente na revista mensal do partido italiano. Hobsbawm também era rotineiramente citado no L’Unità, o diário comunista, e considerava a Itália e suas tradições antifascistas como uma espécie de lar político, mais acolhedor do que a Grã-Bretanha. Cultivando uma amizade com o principal intelectual do PCI, Giorgio Napolitano — que mais tarde serviria dois mandatos presidenciais —, Hobsbawm via o caminho para o socialismo pavimentado com soluções intermediárias, em vez de rupturas anticapitalistas decisivas. O imperativo político exigia a criação de amplas alianças progressistas que fossem além da classe para criar a possibilidade de maiorias parlamentares. O comunismo italiano parecia trabalhar nesse sentido, e Hobsbawm apostou no impulso reformista, embora com certa trepidação, temendo que o PCI estivesse se tornando “apenas mais um partido reformista e gradualista, um novo tipo de fabianismo”.

O ensaio de Hobsbawm com o eurocomunismo coincidiu com o que seria sua última, e talvez mais malfadada, intervenção política. Em 17 de março de 1978, Hobsbawm proferiu a Marx Memorial Lecture. Intitulada “A Marcha Adiante do Trabalho Estancada?” (The Forward March of Labour Halted?) e posteriormente publicada na Marxism Today e pela Verso, a palestra suscitou forte oposição e comentários críticos. Seu argumento era analiticamente simples: o avanço da classe operária britânica, evidente na ascensão de um movimento sindical respeitável, havia se esgotado em meados do século XX. Devido a uma economia em mudança, o proletariado industrial clássico, que liderara o movimento operário por décadas, estava agora diminuído e dividido. Ele não poderia “realizar o destino histórico outrora previsto para ele”. Partidos políticos, mais enfaticamente o Partido Trabalhista, que apostavam tudo na classe operária tradicional, enfrentavam agora a necessidade de reconsiderar políticas e expectativas de longa data. Pouco depois do alerta de Hobsbawm, precedido pelo que ele chamou de os “anos 1970 obcecados por greves”, os Trabalhistas sofreram uma derrota massiva na eleição de 1979. Isso inaugurou uma nova era de guerra de classes vinda de cima, sendo o Thatcherismo a ideologia dominante dos anos 1980. O Partido Trabalhista estava agora em frangalhos, dividido por cisões e lutando para sobreviver.

Espécie de "conselheiro externo" do Partido Trabalhista, Hobsbawm posicionou-se contra "a Esquerda", composta por Tony Benn, trotskistas "entristas" e militantes sindicais cuja experiência unia os partidos Comunista e Trabalhista, como Arthur Scargill. Apelidado de "o marxista favorito de Neil Kinnock", Hobsbawm provou-se útil para derrotar a esquerda trabalhista nos anos 1980; seus argumentos voltavam-se contra o que ele considerava um extremismo que ameaçava entregar o terreno da política real à reação thatcherista. Central para essa escolha supostamente racional era a negação da primazia da classe e, claro, da luta de classes. A necessidade era orientar o Partido Trabalhista para bases mais amplas (que nunca haviam sido tão marginalizadas assim), nas quais intelectuais e "novas classes" teriam protagonismo. Martin Jacques, editor da renovada Marxism Today, que frequentemente destacava Hobsbawm naqueles anos, batizou-o de "um guru intelectual no Partido Trabalhista... De intelectual comunista, ele se tornou o intelectual da Esquerda". A questão, naturalmente, era a qual Esquerda Hobsbawm servia. Ao pressionar o Partido Trabalhista a se revigorar e se reconstituir como um "amplo partido do povo" dedicado a "uma sociedade justa, livre e socialmente equânime", Hobsbawm certamente ajudou a frustrar qualquer avanço da esquerda bennista dentro do partido.

Após o colapso eleitoral de 1992 do Partido Trabalhista, então liderado pelo desafortunado Kinnock e favorito nas pesquisas, uma reordenação radical da política partidária entrou na pauta. Com a chegada do New Labour de Tony Blair, a obliteração do socialismo dentro do Partido Trabalhista estava garantida. O livro Tempos Interessantes, de Hobsbawm, é muito mais convincente em sua avaliação abjeta do que ocorreu do que Evans, que evita discutir até que ponto Eric teve responsabilidade na ascensão do Blairismo — algo que o próprio Hobsbawm lamentou. Relembrando o ocorrido, Hobsbawm considerou o fracasso de Kinnock e dos Trabalhistas em vencer a eleição de 1992 como a experiência política “mais triste e desesperadora” de sua vida — uma confissão assombrosa para alguém que viveu 1933, 1937, 1956, 1989–1990 e outros marcos de desapontamento. Anderson comenta, com razão, que “tal inflação absurda é a medida da perda de contato com a realidade que sua ‘cruzada para salvar o Partido Trabalhista’ — o velho slogan de Gaitskell resgatado — parece ter induzido temporariamente no historiador”.

A política da Esquerda havia, sem dúvida, estagnado ao final do século XX. Mas a ideia de que a classe havia sido interrompida em sua trajetória no meio do século — como sugeriu Hobsbawm e como destacou a intervenção política mais significativa de seus anos de crepúsculo — era analiticamente pouco convincente e politicamente um recuo conservador. O jovem Eric aliou-se pela primeira vez aos trabalhadores no início da década de 1930 e, no desenvolvimento subsequente de Hobsbawm como o historiador marxista mais conhecido do mundo, a classe operária fora seu objeto inicial de estudo, uma força social central e uma categoria analítica vital. Indicar que sua "marcha adiante" havia estancado não estava necessariamente errado como descrição da situação política, por mais simplificado e historicamente prematuro que o argumento pudesse ser. Mas sugerir que essa realidade decepcionante estava agora gravada irreversivelmente na pedra de uma política de retrocesso, exigindo uma orientação inteiramente nova que deslocasse a política de classe, era interromper o projeto de conceituação e política justamente no ponto em que um escrutínio mais profundo era exigido.

Assimilando Hobsbawm à sua própria política social-democrata moderada, Evans insiste que Hobsbawm sempre esteve “mais próximo do Partido Trabalhista britânico” do que de qualquer coisa que lembrasse uma organização comunista. Essa afirmação, mais asseverada do que demonstrada de forma convincente, repousa na proposição insustentável de que Hobsbawm rompeu definitivamente com o comunismo em 1956, embora o próprio Evans reconheça que Eric transferiu suas lealdades políticas do Partido Comunista britânico para o italiano. Um olhar sobre as histórias que Hobsbawm escreveu sugere outra forma de entender sua relação com o comunismo internacional, as forças que o controlavam e a política que pesou tão fortemente em sua vida dentro da história.

Agência e determinação: Política e a formação de um marxista metropolitano

Se Evans falha ao situar Hobsbawm e sua política dentro da história, seu comentário sobre as obras escritas de seu biografado também deixa a desejar. Uma sensibilidade burguesa permeia A Life in History, com Evans chegando a fornecer um gráfico traçando o salário e a pensão de Hobsbawm, sua renda como freelance e despesas declaradas ao longo dos anos entre 1962 e 1987. Como Hobsbawm mantinha registros meticulosos de seus contratos de livros, ganhando a vida nas últimas três décadas de vida com direitos autorais, honorários de palestras e períodos de docência nos Estados Unidos, Evans dispõe de um tesouro de detalhes sobre vendas, adiantamentos e ganhos, suplementado pelo acesso aos arquivos de um agente literário. Ele se deleita em expor esses dados contábeis. Isso transmite bem como um marxista britânico passou de um autor com vendas decepcionantes no final dos anos 1950 para uma estrela editorial, recebendo adiantamentos superiores a £100.000. No entanto, também estabelece que até Eric, com seu controle de registros e seu olhar atento ao pagamento, podia cometer deslizes. Quando Hobsbawm contribuiu para a lista de best-sellers da Verso ao escrever uma longa introdução para uma reedição luxuosa do Manifesto Comunista, a editora de esquerda falhou em pagar a Eric os direitos autorais estipulados em contrato. Após doze anos, como apurou o agente de Hobsbawm, a Verso lhe devia a impressionante quantia de £20.678,19.

Tais informações — e há uma abundância delas à disposição — tendem a ofuscar a discussão real sobre a substância dos escritos de Hobsbawm, que acabam recebendo pouca atenção. A maior parte do que Evans tem a dizer sobre os livros de Hobsbawm resume-se a sínteses e citações de resenhas, em vez de uma leitura perspicaz e engajada. São o volume e o valor monetário das páginas de Hobsbawm que cativam Evans, não sua contribuição analítica ou abordagem metodológica. Isso é lamentável, pois a contribuição e a singularidade de Hobsbawm como historiador podem ser relacionadas à sua vida política dentro da história e à sua capacidade de abordar a interpretação histórica de maneiras particulares e, muitas vezes, únicas.

As histórias escritas por Hobsbawm, desde o início de sua produção nas décadas de 1940 e 1950, enfrentaram a bifurcação entre agência e determinação que animava boa parte da produção do Grupo de Historiadores do Partido Comunista. Em suas incursões originais como historiador do trabalho, ele explicava a agência recorrendo à determinação. Os artigos reunidos naquela que foi sua contribuição mais influente para a história da classe operária, Trabalhadores: Estudos sobre a História do Trabalho (1964), frequentemente situavam práticas de classe particulares e mobilizações operárias dentro de ciclos comerciais e outros determinantes econômicos. Em um ensaio original e impressionante, “Costume, Salários e Carga de Trabalho na Indústria do Século XIX”, Hobsbawm explorou os ritmos mutáveis do processo de trabalho. À medida que a racionalização capitalista se estabelecia, imprimindo na consciência de patrões e empregados que o trabalho era uma mercadoria, tanto seu produto quanto sua remuneração passaram a ser determinados por lutas cada vez mais codificadas nas relações industriais como “regras do jogo”. Este ensaio abrangente, que passava pela Europa continental, Estados Unidos e (principalmente) Grã-Bretanha, baseava-se quase inteiramente em fontes primárias impressas e em um amplo levantamento da literatura secundária; continha praticamente nenhuma pesquisa de arquivo. O método de Hobsbawm era sondar a experiência de classe a partir do que o material impresso disponível em um sistema de bibliotecas metropolitano permitia reunir, focando não tanto em descobertas inéditas de povos e acontecimentos obscuros, mas na construção de um panorama amplo que visava um problema, abordando-o de formas que culminavam em uma reinterpretação histórica.

Hobsbawm, é claro, nunca foi apenas um historiador do trabalho em sentido estrito; um de seus ensaios mais impressionantes e minuciosamente argumentados da década de 1950 foi uma escavação da crise do século XVII, cuja resolução abriu caminho para o triunfo subsequente do capitalismo. Nesse artigo analiticamente vasto, orquestrado novamente por um problema interpretativo a ser resolvido e valendo-se de fontes publicadas em inglês, francês, português e alemão, Hobsbawm delineou como a antiga economia feudal europeia ruiu sobre si mesma, vítima de suas contradições internas. Novas economias progressistas emergiram, fortalecendo o absolutismo e seus centros metropolitanos continentais, expandindo mercados internos — especialmente em uma Inglaterra socialmente transformada — e gerando um novo colonialismo, cujos pilares gêmeos eram as plantações do Novo Mundo e o tráfico de escravos, que sustentava as colheitas e estimulava o eventual surgimento de baluartes da Revolução Industrial, como a manufatura de algodão.

A luta de Hobsbawm com a agência e a determinação tomou seu rumo mais voluntarista, compreensivelmente, no final dos anos 1950. Seu descontentamento com as ossificações burocráticas do marxismo da King Street estava no auge, e sua vida pessoal estava saturada pelos sons do jazz rebelde, reverberando em uma disposição para desafiar comportamentos convencionais. Suas histórias do trabalho colidiram com o muro da animosidade da Guerra Fria. Isso foi reforçado por rejeições editoriais que provavelmente tinham algo a ver com o "método metropolitano" de Hobsbawm, distanciado que estava da imersão na pesquisa de arquivo original. Tudo isso, talvez, impeliu Eric a buscar e justificar uma nova abordagem, na qual a agência, inicialmente ganhando vantagem, seria gradualmente confinada dentro das fronteiras da determinação.

Suas conexões italianas empurraram Hobsbawm para o estudo das culturas camponesas, especialmente onde elas se cruzavam com posturas de rebelião, por mais “pré-políticas” que fossem. Um engajamento precoce com os volumosos, embora opacos, escritos de cárcere de Antonio Gramsci (décadas antes de ser moda citar o revolucionário italiano) despertou seu interesse pelo subalterno. Tanto quanto qualquer conselho de Deutscher — aludido retrospectivamente por Hobsbawm como decisivo em sua resolução de permanecer filiado ao CPGB — esse novo interesse de pesquisa pode muito bem ter imposto a Eric uma realidade pragmática: suas conexões comunistas garantiam acesso a pessoas e lugares aos quais ele seria restringido ou barrado caso rompesse todos os vínculos com Moscou e seus partidos afiliados.

Rebeldes Primitivos, escrito e publicado na mesma época de seus textos para o New Statesman sob o nome de Francis Newton e de The Jazz Scene, seguiu o método metropolitano de Hobsbawm, baseando-se principalmente em fontes impressas. Ele complementou esse corpo de textos publicados com muitas discussões e conversas (ainda que não entrevistas formais) com pessoas conhecedoras e, em alguns casos, diretamente envolvidas com os bandidos, máfias, milenaristas, anarquistas, fasci, turbas e seitas trabalhistas que abordava — muitos deles sendo comunistas. O livro também permitiu que o arcabouço histórico de Hobsbawm fosse enriquecido por sua atração por sensibilidades antropológicas. Em Rebeldes Primitivos, Hobsbawm empenhou-se em fazer com que os leitores “pensassem e sentissem dentro da pele” dos agitadores arcaicos que ele achava tão atraentes. Christopher Hill, resenhando o livro na History Today, considerou que a obra era inspirada “por uma humanidade e uma profunda simpatia pelas pessoas humildes”. Nisso, o livro ressoava com o obituário de Billie Holiday e, como tal, explorava a agência por meio de um tributo à resiliência dos oprimidos. Esse acento analítico também ficou evidente em Bandidos, publicado em 1969 — um texto acessível e abrangente que estendeu o alcance de Hobsbawm ao México, Brasil, Peru, China e outros países não europeus. Essa escrita levou Hobsbawm à América Latina e o impressionou com as possibilidades revolucionárias da região. A partir desse ponto, a atração de Hobsbawm por países como Brasil, Peru e Colômbia tornou-se pronunciada, e ele viajou para lá ao longo das décadas de 1960 e 1970. Tanto quanto qualquer um de seus escritos, Rebeldes Primitivos e Bandidos ajudaram a estabelecer um campo de estudo, o “banditismo social”, de grande consequência no Sul Global, consolidando a reputação internacional de Hobsbawm e garantindo vendas futuras de seus livros em mercados populosos onde os despossuídos predominavam. O MI5 mantinha sua preocupação habitual, especialmente quando Hobsbawm aparecia em transmissões da BBC, enquanto o CPGB, embora informado das visões do partidário itinerante sobre a América Latina, não lhe dava atenção. Quando um governo de Frente Popular sob Salvador Allende prometeu uma transição pacífica para o socialismo no Chile, Eric achou a perspectiva “empolgante”. O banho de sangue subsequente sem dúvida o deixou desmoralizado.

Hobsbawm, portanto, debateu-se com a agência e a determinação em sua escrita tanto quanto em sua política. Seu marxismo metropolitano — no qual a conceituação do desenvolvimento capitalista fornecia um andaime coerente de economias, políticas e ideologias, bem como desdobramentos na vida cultural e social — adequava-se ao apetite voraz de Hobsbawm pelo consumo de bibliografia disponível e à sua inclinação metodológica pela generalização. A resolução de problemas interpretativos era a raison d’être da escrita histórica. Ele claramente desfrutava da visão de qualquer tema histórico escolhido a partir de um posto privilegiado no British Museum, na Widener Library em Harvard ou na Biblioteca Giustino Fortunato em Roma. Desse ponto de vista, a determinação fatalmente eclipsaria a agência. Fosse uma decisão consciente ou não, no início dos anos 1960, Hobsbawm optou por um tipo específico de história: aquela em que seus talentos de destilação analítica e síntese abrangente, desenvolvidos a partir de uma vasta leitura de fontes impressas, fossem bem aproveitados. Assim como sua política, sua escrita revelou-se sobredeterminada. O método de Hobsbawm estava destinado a pender para um lado particular do dualismo agência/determinação.

No prefácio de A Era das Revoluções: 1789–1848 (1962), Hobsbawm descreveu sua abordagem como um exemplo do que os franceses chamavam de haute vulgarisation (alta divulgação). Escritos para o leitor culto e não apenas para o acadêmico, livros concebidos nessa linha não seriam sobrecarregados por citações excessivas de literaturas correlatas. Nas mãos de Hobsbawm, tais estudos eram marxistas em suas preocupações e pressupostos ordenadores, ao mesmo tempo que se recusavam a elaborar sobre qualquer coisa que pudesse ser interpretada como uma postura teórica. O resultado cumulativo, fruto de décadas de trabalho, seria a sua emblemática série Eras, uma tetralogia da história moderna que se expandiu de um foco original na Europa para um alcance ostensivamente global. A relação entre infraestrutura e superestrutura ordenava claramente as apresentações originais de Hobsbawm sobre o longo século XIX (1789–1914), mas os conceitos não dominavam a narrativa; estavam, antes, embutidos nela. Mesmo a luta de classes era apresentada de formas que sugeriam mais suas limitações do que um esforço transcendente para superar as determinações da época. Em A Era do Capital: 1848–1875 (1975), Hobsbawm concluiu suas observações sobre 1848 e a revolucionária "Primavera dos Povos" com uma sóbria insistência de que o que prevaleceu foi a restrição, e não o desafio:

Quanto aos pobres que trabalhavam, faltava-lhes organização, maturidade, liderança e, talvez acima de tudo, a conjuntura histórica para fornecer uma alternativa política. Fortes o suficiente para fazer a perspectiva da revolução social parecer real, eram fracos demais para fazer algo além de assustar seus inimigos.

A Era do Capital nunca perdeu de vista o domínio hegemônico do capitalismo sobre os acontecimentos momentâneos de meados do século XIX, optando por não encerrar o arco narrativo de acumulação e conquistas da classe com um teatro de resistência, por mais atraente que fosse. “As exigências do drama e da realidade, como acontece tantas vezes, não são as mesmas”, declarou Hobsbawm, evitando o impulso de encerrar seu estudo no auge da luta de classes da Comuna de Paris.

As análises de Hobsbawm sobre as eras da revolução e do capital, respectivamente, iniciavam-se com os desenvolvimentos (economia, política e grandes mudanças) e concluíam-se com os resultados (no campo, nas cidades, por meio de ideologias e atividades de classe, e dentro da ciência e das artes). A Era dos Impérios: 1875–1914 (1987) dissolveu essa estrutura heurística em uma sequência única de capítulos que, embora continuassem a privilegiar a economia, mantinham uma ampla cobertura da política, sociedade e cultura. O conforto estabelecido e a confiança da sociedade burguesa de meados do século XIX deram lugar, em A Era dos Impérios, a novas formas de organização corporativa e movimentos sociais ameaçadores. Isso expandiu a fachada de igualdade de maneiras que racharam os alicerces do poder patriarcal, inaugurando uma crise do liberalismo. Hobsbawm tentou, pela primeira vez em A Era dos Impérios, abordar as mulheres, mas o esforço foi considerado pífio aos olhos de muitas feministas, que viram seu gesto de inclusão como insuficiente, tardio e desinformado sobre a já vasta literatura relativa ao gênero. O resultado é um livro que, em sua antecipação de um evento além de suas fronteiras — 1917 —, deleita-se em ver a burguesia ser atingida pelo próprio feitiço revolucionário. “[O]bservamos o curioso fenômeno de uma burguesia, ou pelo menos uma parte significativa de sua juventude e de seus intelectuais”, mergulhando “voluntariamente, até entusiasticamente, no abismo”, concluiu Hobsbawm.

A determinação havia triunfado claramente. Ela sobrepuja, em grande parte, qualquer escrutínio sério da agência da classe trabalhadora. A globalização — muito antes de o termo dominar a política de resistência — percorreu A Era dos Impérios como uma descarga elétrica. No tratamento dado aos “Trabalhadores do Mundo”, isso deixou de fora muito do que seria um engajamento significativo com a vida da classe operária. Até comentaristas conservadores ficaram surpresos com o fato de Hobsbawm ter prestado tão pouca atenção “ao proletariado”.

Em Era dos Extremos: O Breve Século XX, 1914–1991 (1994), Hobsbawm obscurece essa narrativa de determinação. Guerras e fome; revoluções e depressões; culturas de hedonismo e o culto à personalidade; bem-estar social e direitos da classe trabalhadora conquistados, mas invariavelmente perdidos; o fim do socialismo e a aceleração do caos — sobre tudo isso paira a ameaça da morte social e da ruína iminente. A partir da cisão da burguesia apresentada em A Era dos Impérios, Hobsbawm procede, em Era dos Extremos, ao esboço da dissolução da civilização. A burguesia como classe mal aparece. Os trabalhadores, claro, entram no palco desta tragédia perturbadora periodicamente, mas sua agência dificilmente pode competir com as forças impessoais que fustigam suas lutas para manter a luz acesa. A política de classe é amplamente extinta — salvo pelos avanços registrados com a criação da União Soviética — enquanto o mundo “cambaleava de uma calamidade para outra” entre 1914 e 1945. Deixando de lado a crueldade da liderança de Stalin, a União Soviética derrotou o fascismo militarmente durante a Segunda Guerra Mundial. A partir de então, ela foi, acima de tudo, o contraponto da Guerra Fria que impôs as reformas que as economias capitalistas avançadas do Ocidente ofereceram aos trabalhadores e a vastos setores de despossuídos — tudo para mantê-los acorrentados à aceitação de sua sorte, aparentemente superior a qualquer coisa imaginável sob o “totalitarismo” comunista.

Evans apresenta Era dos Extremos como o livro mais bem-sucedido de Hobsbawm: sua tradução para mais de trinta idiomas e suas vendas fenomenais, sem mencionar os prêmios prestigiados, ajudaram a canonizá-lo internacionalmente. No entanto, as críticas nem sempre foram elogiosas. Muitos não se convencem de que Hobsbawm possua um alcance suficientemente global. O foco eurocêntrico da análise de Hobsbawm ficou evidente na escolha geográfica de A Era das Revoluções, o que inevitavelmente relegou acontecimentos cruciais no Haiti às margens. Volumes subsequentes, embora menos restritos espacialmente, ainda empurram a China e o Japão para escanteio, passam por cima de grandes extensões da África e dão aos Estados Unidos menos atenção do que seus desenvolvimentos justificariam. Poucos familiarizados com estudos sobre nacionalismo consideram que Hobsbawm tenha dado o devido peso ao tema. As feministas continuam a fustigá-lo por não integrar as mulheres e o gênero em sua análise, pelo menos não de formas que reflitam uma leitura ampla e antenada com as percepções contemporâneas.

A despeito destas e de outras críticas, Era dos Extremos consolidou a estatura de Hobsbawm como um intelectual público; nenhum outro historiador comandou tanto o seu público leitor quanto a sua relevância global. No Brasil, onde Eric alcançou o status de celebridade e tornou-se amigo do líder do Partido dos Trabalhadores e eventual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, as vendas do livro ultrapassam 300.000 exemplares. Se todas as suas publicações forem consideradas, com bem mais de um milhão de seus livros comprados, Hobsbawm supera as vendas de qualquer outro escritor de não ficção no país.

Como explicar essa ascensão na arena pública? Enquanto o marxismo estava sendo descartado e o socialismo real parecia estar em declínio em quase todos os lugares, um historiador inegavelmente comunista permanecia como um intelectual público reverenciado e aclamado internacionalmente. Certamente, os talentos de Hobsbawm justificam o reconhecimento que ele recebeu. Erudição, clareza de argumento e a insistência na primazia das considerações materiais são realçadas por um alcance cosmopolita que atravessa o espectro dos desenvolvimentos artísticos e científicos. Una essa fusão de forma e substância a uma mobilização convincente e impressionante de evidências empíricas — orquestrada por rigor conceitual e reflexão sóbria, bem como por um domínio metropolitano de escritos extensos e multilíngues não apenas em história, mas em economia, sociologia, antropologia e ciência política — e o resultado não pode ser senão impressionante. Este conjunto considerável de características extraordinárias nas publicações tardias de Hobsbawm necessariamente o elevou à preeminência entre o coro de críticos do capitalismo tardio.

Ocorreu também que, em seu ímpeto implacável de detalhar a descida da determinação rumo ao mal, a indignação moral de Hobsbawm tendeu a apequenar seu arcabouço analítico marxista. Em seus últimos anos, Hobsbawm frequentemente escrevia — como observou Terry Eagleton — como se a própria "História" estivesse falando em sua "sabedoria irônica, onisciente e desapaixonada", embora cada vez mais sombria. O resultado é uma análise menos atenta aos tipos de explicações desafiadoras evidentes nos volumes anteriores das Eras. As publicações de Hobsbawm das décadas de 1990 e 2000 não pressionam tanto seus leitores com o tipo de interpretação materialista histórica que exige um esforço dos seus músculos interpretativos; em vez disso, elas se abstêm de abordar a causalidade da crise capitalista — a bigorna sobre a qual a determinação martelou resolutamente os povos do mundo nas formas que limitaram e condicionaram sua agência. Em conjunto com seus pontos fortes inegáveis como escritor e cronista dos tempos modernos, esse rebaixamento do marxismo ajuda a explicar como a estatura de Hobsbawm disparou com aquele que é possivelmente seu livro menos marxista, elevando-o ao que Evans designa como um "Tesouro Nacional".

A brutalidade caótica e a desigualdade perversa do final do século XX prestaram-se facilmente a uma ira justificável diante do balanço da barbárie, registrado nas 187 milhões de mortes que Hobsbawm atribui às guerras, fomes, massacres e execuções do "breve século XX". Por mais compreensível que fosse o animus de Hobsbawm, isso se traduziu em uma espécie de recuo interpretativo. A explicação foi substituída pelo recurso ao perplexo, à medida que a irracionalidade, o absurdo e a incompreensão são anexados aos eventos históricos, deixando-os "além do alcance do historiador". Com a publicação de Era dos Extremos, Hobsbawm escrevia como um defensor apaixonado da humanidade, mas cada vez mais incapaz de articular a trajetória do capitalismo ou explicar o fim do socialismo. Enquanto a determinação degenerava em destruição, os cães do apocalipse pareciam, para Hobsbawm, libertados pela implosão da União Soviética. O que Perry Anderson considerou uma variante do "fim da história" que deixou os "instintos ferozes" do individualismo possessivo sem amarras, Hobsbawm lamentou como uma "tragédia", cuja "verdadeira magnitude" era pouco compreendida na véspera de um novo século. Isso indubitavelmente proporcionou a um público de massa uma zona de conforto na qual o exigente rigor analítico do marxismo recuou. A evolução de Hobsbawm como escritor e suas publicações tardias tenderam a substituir um processo histórico multidimensional por uma representação unilateral de degeneração que apelava à indignação progressista, mas esquivavam-se da responsabilidade materialista histórica, mais difícil, de abordar o capitalismo e a inevitabilidade estrutural da crise como a raison d'être da necessidade do socialismo.

Logo à direita de Marx

Hobsbawm sobreviveu aos seus contemporâneos do Grupo de Historiadores do Partido Comunista, adiando a morte até que, aos noventa e cinco anos, travou sua última batalha perdida em 2012. Seus restos mortais repousam em um lote garantido por sua esposa, Marlene, no Cemitério de Highgate. “Logo à direita de Karl Marx”, foi o comentário irônico de seu genro, Alaric Bamping, ex-trotskista e atual entusiasta do Brexit. As ironias abundam na vida de Hobsbawm, mas a maior de todas talvez seja que, por mais que a determinação tenha ordenado sua existência, ele fez muito para manter as limitações dessa determinação sob controle. Ele fez história — nem sempre como teria escolhido, mas fez. Vivemos sob suas sombras. Poucos conseguem projetar sua influência de forma tão ampla, influente e, quase certamente, tão contínua quanto Hobsbawm.

Evans proporciona a ironia final. Hobsbawm resistiu a "curadores" (handlers) durante toda a vida, mas sucumbiu a um na morte. Se tivesse tido qualquer escolha ao nomear seu biógrafo, Hobsbawm bem poderia ter dado a Evans sua bênção para assumir a tarefa, pois provavelmente intuiria que Evans faria pouco para abalar sua reputação de “Tesouro Nacional”. Tal designação, para um marxista com as sensibilidades internacionalistas de Hobsbawm, certamente teria provocado escárnio público de “Eric, o Vermelho”, que não prezava identificação com nenhuma entidade nacional, considerando-se sempre “alguém que não pertence inteiramente ao lugar onde se encontra”. No entanto, ao mesmo tempo, o Hobsbawm que passamos a conhecer melhor através do relato de Evans sem dúvida teria sentido um certo prazer privado em ser homenageado dessa maneira.

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