Editorial
Choldraboldra
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Red Star Over the Third World
Em Red Star Over the Third World, Vijay Prashad oferece uma interpretação sintética, porém politicamente densa, do impacto da Revolução de Outubro de 1917 sobre as lutas anticoloniais e os projetos revolucionários do chamado Terceiro Mundo ao longo do século XX. Longe de se limitar à história da União Soviética ou a uma cronologia dos partidos comunistas, o autor investiga o poder ideológico e simbólico do comunismo como horizonte de emancipação para povos submetidos ao colonialismo, ao imperialismo e a formas diversas de dominação social.
O argumento central do livro é que a Revolução Russa funcionou como uma “faísca global”, capaz de demonstrar, de maneira concreta, que as massas — trabalhadores urbanos e camponeses — poderiam não apenas derrubar regimes autocráticos, mas também construir um novo tipo de Estado. Essa experiência histórica rompeu com a ideia de que a modernização política e social seria monopólio do liberalismo ocidental, abrindo caminho para projetos revolucionários enraizados em realidades coloniais e periféricas.
Prashad enfatiza dois elementos fundamentais dessa herança: a aliança entre trabalhadores e camponeses e a noção de partido de vanguarda. Esses princípios, reinterpretados de forma criativa em contextos locais, orientaram experiências revolucionárias na Ásia, África e América Latina. Ao mobilizar figuras como Ho Chi Minh, Fidel Castro e líderes comunistas chineses e africanos, o autor mostra como o comunismo se tornou uma linguagem política comum para a luta pela autodeterminação nacional e pela justiça social, ainda que assumisse formas diversas e, muitas vezes, conflitantes.
Um dos méritos centrais da obra está na recusa de uma visão eurocêntrica do comunismo. Prashad propõe a ideia de um comunismo policêntrico, construído a partir de múltiplas experiências históricas e não subordinado mecanicamente a Moscou. Nesse sentido, o livro dialoga com debates contemporâneos da história global e da história transnacional, ressaltando a circulação de ideias, símbolos e práticas revolucionárias entre diferentes regiões do mundo.
Ao mesmo tempo, Red Star Over the Third World não se apresenta como um estudo exaustivo. O próprio autor reconhece o caráter ensaístico e introdutório do livro. Trata-se de uma obra curta, marcada mais pela força interpretativa e política do que pela acumulação documental. Essa opção torna o texto acessível a um público amplo, mas pode frustrar leitores que busquem análises mais detalhadas de cada experiência nacional ou uma problematização mais profunda das contradições internas dos regimes comunistas.
Ainda assim, o livro se destaca por sua dimensão memorial e militante. Prashad escreve contra o esquecimento e a deslegitimação das experiências comunistas do Sul Global, frequentemente reduzidas, no discurso dominante, a fracassos autoritários. Sem negar os limites e derrotas dessas experiências, o autor insiste em resgatar o horizonte de esperança que elas representaram: a possibilidade concreta de um mundo pós-colonial baseado na igualdade, na soberania popular e na solidariedade internacionalista.
Em suma, Red Star Over the Third World é uma contribuição relevante para quem deseja compreender o comunismo não como um fenômeno exclusivamente europeu, mas como uma força histórica decisiva na formação política do século XX no Sul Global. Pequeno em extensão, mas ambicioso em alcance, o livro convida uma nova geração a revisitar o espírito revolucionário que animou trabalhadores e camponeses em contextos marcados por séculos de dominação colonial — e a refletir sobre o que ainda pode ser aprendido com essa tradição.
Vijay Prashad
Nova Delhi: Leftword Books, 2020. 132 p.
Em Red Star Over the Third World, Vijay Prashad oferece uma interpretação sintética, porém politicamente densa, do impacto da Revolução de Outubro de 1917 sobre as lutas anticoloniais e os projetos revolucionários do chamado Terceiro Mundo ao longo do século XX. Longe de se limitar à história da União Soviética ou a uma cronologia dos partidos comunistas, o autor investiga o poder ideológico e simbólico do comunismo como horizonte de emancipação para povos submetidos ao colonialismo, ao imperialismo e a formas diversas de dominação social.
O argumento central do livro é que a Revolução Russa funcionou como uma “faísca global”, capaz de demonstrar, de maneira concreta, que as massas — trabalhadores urbanos e camponeses — poderiam não apenas derrubar regimes autocráticos, mas também construir um novo tipo de Estado. Essa experiência histórica rompeu com a ideia de que a modernização política e social seria monopólio do liberalismo ocidental, abrindo caminho para projetos revolucionários enraizados em realidades coloniais e periféricas.
Prashad enfatiza dois elementos fundamentais dessa herança: a aliança entre trabalhadores e camponeses e a noção de partido de vanguarda. Esses princípios, reinterpretados de forma criativa em contextos locais, orientaram experiências revolucionárias na Ásia, África e América Latina. Ao mobilizar figuras como Ho Chi Minh, Fidel Castro e líderes comunistas chineses e africanos, o autor mostra como o comunismo se tornou uma linguagem política comum para a luta pela autodeterminação nacional e pela justiça social, ainda que assumisse formas diversas e, muitas vezes, conflitantes.
Um dos méritos centrais da obra está na recusa de uma visão eurocêntrica do comunismo. Prashad propõe a ideia de um comunismo policêntrico, construído a partir de múltiplas experiências históricas e não subordinado mecanicamente a Moscou. Nesse sentido, o livro dialoga com debates contemporâneos da história global e da história transnacional, ressaltando a circulação de ideias, símbolos e práticas revolucionárias entre diferentes regiões do mundo.
Ao mesmo tempo, Red Star Over the Third World não se apresenta como um estudo exaustivo. O próprio autor reconhece o caráter ensaístico e introdutório do livro. Trata-se de uma obra curta, marcada mais pela força interpretativa e política do que pela acumulação documental. Essa opção torna o texto acessível a um público amplo, mas pode frustrar leitores que busquem análises mais detalhadas de cada experiência nacional ou uma problematização mais profunda das contradições internas dos regimes comunistas.
Ainda assim, o livro se destaca por sua dimensão memorial e militante. Prashad escreve contra o esquecimento e a deslegitimação das experiências comunistas do Sul Global, frequentemente reduzidas, no discurso dominante, a fracassos autoritários. Sem negar os limites e derrotas dessas experiências, o autor insiste em resgatar o horizonte de esperança que elas representaram: a possibilidade concreta de um mundo pós-colonial baseado na igualdade, na soberania popular e na solidariedade internacionalista.
Em suma, Red Star Over the Third World é uma contribuição relevante para quem deseja compreender o comunismo não como um fenômeno exclusivamente europeu, mas como uma força histórica decisiva na formação política do século XX no Sul Global. Pequeno em extensão, mas ambicioso em alcance, o livro convida uma nova geração a revisitar o espírito revolucionário que animou trabalhadores e camponeses em contextos marcados por séculos de dominação colonial — e a refletir sobre o que ainda pode ser aprendido com essa tradição.

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