15 de maio de 2014

Lenin em 1914: A “nova época de guerras e revoluções”

A Primeira Guerra Mundial, resultado de conflitos interimperialistas, é objeto de numerosas publicações neste ano de “comemorações”. No entanto, um profundo silencio reina na “esquerda da esquerda” sobre os debates estratégicos, relacionados à análise do contexto mundial, na socialdemocracia internacional revolucionária de antes de 1914. Debates que apontam a dialética entre imperialismo, guerra e revolução.

A irrupção da Primeira Guerra Mundial levou Lenin a romper com o marxismo da II Internacional? Neste fragmento de um livro que será publicado no final de 2014, traduzido pela redação de A I’Encontre, Lars T. Lih explica que o correto é justamente o contrário. Este historiador rompe assim com quem não tem examinado com cuidado o encadeamento das elaborações que, no início do século XX, realizaram estes dois intelectuais militantes, Kautsky e Lenin, a quem a guerra e a revolução viriam a separar mais tarde. Lars T. Lih é autor, entre outras, de uma obra de referência, intitulada Lenin Rediscovered. What is to Be Done? In Context (Ed. Haymarket, Historical Materialism Book Series, 2008).

Lars T. Lih

A l'encontre

Tradução / Em outubro de 1914, pouco depois de irromper a Primeira Guerra Mundial, Lenin escreve a seu camarada Alexandre Chliapnikov (1885-1937): “Daqui em diante odeio e desprezo a Kautsky mais que a ninguém, por sua vil, suja e auto satisfeita hipocrisia”. Este mordaz resumo da atitude de Lenin em relação a Kautsky, que se manterá sem mudanças o resto de sua vida, é citado muitas vezes.

Mas, em última instância, para compreender a visão de Lenin, há outro comentário mais útil. Quatro dias depois, Lenin escrevia ao mesmo Chliapnikov:

“Busque sem falta e volte a ler (ou peça que o traduzam), ‘O cominho do poder’ de Kautsky e note o que escreveu sobre a revolução em nossa época! E como hoje joga ao conformismo e renega tudo isso!” [1]

Lenin seguiu seu próprio conselho. Em dezembro de 1914, tomou o tempo de folhear o livro e reuniu uma página e meia de citações que incluiu em um artigo intitulado “Chauvinismo morto e socialismo vivo”. Ali escreveu: “Aqui está o que Kautsky escrevia faz muito, muito tempo, fazia cinco anos. Isto era a socialdemocracia alemã ou, mais exatamente, o que pretendia ser. Era o tipo de socialdemocracia que podia e devia ser respeitada”. [2]

Pode-se extrair destes comentários três afirmações cruciais sobre o impacto da Primeira Guerra Mundial em Lenin. Em primeiro lugar, Lenin reafirmou apaixonadamente a perspectiva que tinha da ala da II Internacional que ele e outros chamavam “a socialdemocracia revolucionária”. Não a rechaçou nem a reafirmou. Em segundo lugar, apesar de seu enfado pelas ações de Karl Kautsky (Praga 1854 - Amsterdam 1938) depois da irrupção da guerra (Kautsky em 1914 se alinha com a maioria da socialdemocracia alemã e vota a favor dos créditos de guerra), Lenin continuou considerando o Kautsky anterior à guerra como o porta-voz mais perspicaz da socialdemocracia revolucionária. Em terceiro lugar, o mais importante para Lenin neste momento crucial, era a análise que Kautsky havia elaborado sobre a “revolução de nossa época” ou, na fórmula mais expressiva do próprio Kautsky,” a nova época de guerras e revoluções”.

Segundo o relato habitual, o sentimento de traição causado pelo apoio à guerra pelos partidos socialistas chocou tanto a Lenin, que empreendeu uma revisão radical que o levou a abandonar o “marxismo da II Internacional”, ao renunciar sua antiga admiração por Kautsky e retomar as fontes originais do marxismo. O trabalho de repensar o marxismo se associa frequentemente com seu intenso estudo da Ciência da lógica de Hegel no outono de 1914. Uma série de ideias inovadoras, encontradas nos escritos de Lenin durante a guerra, revelariam o impacto da nova compreensão do marxismo por Lenin. [3]

O relato alternativo

O relato habitual que acabamos de resumir torna-se mais plausível se esquecemos duas coisas cruciais. Para começar, a retórica de agressiva carência de originalidade de Lenin em 1914-1916. Lenin insistiu, sem cessar, com especial veemência, que ele apenas respeitava o consenso existente na socialdemocracia revolucionária anterior à guerra. O que também se esquece é o conteúdo do consenso marxista anterior à guerra, especialmente a parte fundamental para Lenin, ou seja, a análise que Kautsky havia feito da “revolução de nossa época”. Recentes estudos têm tornado mais difícil ignorar estas questões [4]. O objetivo do presente ensaio é proporcionar uma visão alternativa que não se esqueça destes fatos básicos. Minha interpretação dos fatos se pode resumir como se segue:

Durante os anos de 1902 a 1909, Karl Kautsky elaborou um cenário do estado do mundo que mais tarde exerceu uma grande influência em Lenin. O tema central deste cenário é que o mundo estava entrando em uma “nova época de guerras e revoluções”, caracterizada sobretudo por um sistema global de interação revolucionária. Para Lenin esta visão se plasmou no Manifesto de Basiléia de 1912, que vinha como um resumo da posição da socialdemocracia revolucionária. O cenário de Kautsky e os conteúdos do Manifesto de Basiléia se tornaram parte integrante da perspectiva dos bolcheviques no período imediatamente anterior à guerra, como aparece não apenas nos artigos de Lenin, mas também nos de seus comissários, Zinoviev e Kamenev.

A irrupção da guerra levou Lenin a insistir na continuidade entre o que ele considerava como o consenso do marxismo revolucionário anterior à guerra e o programa bolchevique de 1914-1916. Esta continuidade explica por que chegou rapidamente a este programa básico – um programa que permaneceu sem mudanças até o início de 1917. Ao longo dos anos da guerra 1914-1916, Lenin adotou uma atitude de chamativa carência de originalidade e uniu sua própria posição mais proximamente possível do cenário de Kautsky anterior à guerra e ao Manifesto de Basiléia. [Ver na internet alencontre.org, o artigo de Geoges Haupt: "Guerre ou révolution? L'Internationale et l'Union secrée en août 1914"] Em suas polêmicas com os camaradas da esquerda, eram eles os inovadores e ele era quem defendia fervorosamente a continuidade ideológica. Qualquer que fosse a originalidade e as profundas ideias de seus argumentos e análises, as posições que defendeu não eram originais e estava orgulhoso disso.

A reação de Lenin à irrupção da guerra não se pode entender se não se capta profundamente o cenário da interação revolucionária mundial exposta nos escritos de Karl Kautsky. A primeira parte de meu ensaio, incluída no presente artigo, trata de resumir a visão que Kautsky tinha da nova época de guerras e revoluções. A parte seguinte analisa o Manifesto de Basiléia em 1912 que Lenin considerava como uma expressão fundamental do consenso anterior da guerra. A terceira parte está dedicada aos artigos escritos entre 1910 -1912, pelo porta-voz bolchevique, Lev Kamenev. Kamenev voltou a publicar estes artigos em 1922 com a finalidade de ilustrar a continuidade das posições bolcheviques antes e durante a guerra e o faz admiravelmente. [5]

Estas três partes estabelecem as bases de minha interpretação da relação de Lenin à irrupção da guerra e as atuações dos partidos socialdemocratas europeus. Mas antes de me centrar na relação de Lenin, vou esboçar uma interpretação alternativa. Uma das versões mais surpreendentes e influentes na versão habitual do novo posicionamento radical de Lenin, que diz respeito a sua leitura da Ciência da lógica de Hegel e ao domínio mais profundo da dialética que lhe deu esta leitura. Acredito que os argumentos históricos da influência de Hegel na posição de Lenin durante a guerra não resistem a um superficial exame.

A interpretação hegeliana (como vou chamá-la) desenha um retrato surpreendente de Lenin durante os primeiros meses da guerra, em um isolamento político total. Lenin se retira da agitação da atividade política, fecha-se na biblioteca universitária de Berna com Hegel e sai dai somente depois de rer repensado as bases dialéticas do marxismo. Sua nova visão encontra onde se expressar, entre outros, nos escritos sobre a autodeterminação nacional de finais de 1916.

As últimas duas partes de meu ensaio estão dedicadas a avaliar as duas interpretações alternativas à luz dos fatos. Para começar, examino os sete meses posteriores ao início da guerra em agosto de 1914, até a Conferência dos bolcheviques imigrados que se realiza em fevereiro de 1915 em Berna; depois dedico a parte final aos escritos de Lenin sobre a autodeterminação nacional ao final de 1916. Concluo que Lenin tinha razão ao destacar a continuidade entre sua plataforma política durante a guerra e o consenso anterior a ela dos “socialdemocratas revolucionários” a propósito da ”nova época de guerras e revoluções”que surgia na volta da esquina.

O cenário de Kautsky

“Uma época de desenvolvimento revolucionário começou. A época dos avanços lentos, quase imperceptíveis, vai ceder passagem a uma época de revoluções, de bruscos saltos para adiante, quiçá de grandes derrotas ocasionais, mas também – temos que ter confiança no proletariado – de grandes vitórias no final das contas” (Karl Kautsky, 1905).

Kautsky publicou a Revolução social em 1902, Socialismo e política colonial, em 1907 e o caminho do poder em 1909. [6] Nas três obras, assim como em vários artigos importantes e influentes, Kautsky desenha uma visão global do mundo contemporâneo. Os elementos chave do cenário de Kautsky eram os seguintes:

  1. Depois de uma geração de estabilidade e de progresso gradual, a Europa e o mundo entram em uma nova etapa de guerras e revoluções que estará marcada por profundos conflitos e rápidas mudanças na correlação de forças.
  2. A nova época de guerras e revoluções difere principalmente da precedente, que durou de 1789 a 1871, em sua amplitude mundial e na nova intensidade das interações, tornadas possíveis pelas crescentes relações entre os países e em especial dos novos meios de comunicação que permitem um acesso acelerado às ideias e a técnicas modernas. [7]
  3. A transição de uma situação não revolucionária a uma situação revolucionária requererá táticas radicalmente novas.
  4. As revoluções que marcam esta nova época se dividem em duas grandes categorias: a revolução socialista que está na ordem do dia na Europa ocidental e na América do Norte, e as revoluções democráticas que estão em outras partes do mundo. As revoluções democráticas para conseguir certas liberdades e derrubar a opressão absolutista; as revoluções de autodeterminação contra a opressão nacional; as revoluções anticoloniais contra a opressão estrangeira.
  5. Não é necessário dizer que uma revolução socialista todavia não está “madura” na Europa Ocidental. Um acirramento dos antagonismos de classe é um dos indicadores de que estamos na véspera de uma revolução socialista. Toda política que não rechaçar firmemente o oportunismo e a colaboração de classes seria um suicídio político. [8]
  6. Os quatro tipos de revolução se entrelaçam e interagem de maneira imprevisível, mas isto sem dúvida vai aumentar a intensidade da crise revolucionária mundial. Como consequência, o cenário de futuro deve ficar enormemente aberto.
  7. A interação mundial supõe o abandono de modelos simplistas que os países “avançados” mostram aos países “atrasados” a imagem do futuro. Por exemplo, em dois aspectos cruciais, a Alemanha vê a imagem de seu futuro na Rússia “atrasada”. [9]
  8. Os principais tipos de interação mundial são: a intervenção direta, como a conquista, os investimentos e a dominação colonial; a observação da experiência de outros países que permite aos atrasados alcançar rapidamente e ultrapassar os mais avançados; a repercussãodireta de acontecimentos revolucionários, devido ao entusiasmo de uns e o pânico de outros, a ruptura de certos vínculos e o estabelecimento de outros. [10]
  9. O mundo capitalista vai tentar se proteger das mudanças revolucionárias através de diversos meios, em particular, o imperialismo, o último refúgio do capitalismo [11]. As ideologias imperialistas e militaristas podem atrasar aprofundamento, ao permitir a aristocracia operária obter uma parte dos benefícios coloniais e apresentá-los como uma saída plausível à iminente crise. No entanto, estas tentativas fracassaram já que o mundo foi repartido entre as potencias imperialistas. [12]
  10. O imperialismo e o militarismo têm aumentado em grande medida as probabilidades de guerra, mas o proletariado não tem um objetivo próprio nas guerras entre as potencias imperialistas e, portanto, não vai se unir às classes dominantes para fazer a guerra. O papel da guerra como incubadora da revolução provavelmente seja muito grande e existirá uma forte correlação entre derrota e revolução. [13]
  11. Apenas uma plataforma radicalmente antirracista permitirá à socialdemocracia se orientar nas turbulências que virão com a mudança revolucionária. A condescendência racista impede, inclusive, a alguns socialdemocratas apreciar um fato básico da política mundial: as colônias vão exigir, lutar e ganhas sua independência.
  12. A Rússia ocupa uma posição crucial no processo das situações revolucionárias globais. Os triunfos e os retrocessos da revolução russa vão ter um amplo eco nos outros países. [13]

Estes eram as características fundamentais do cenário de interação revolucionária mundial de Kautsky. O que fica por mostrar é a maneira como estas propostas se articulam entre elas para formar um sistema, posto que como sistema foram retomadas por Lenin. [15]

Colonialismo e democracia

Kautsky havia adiantado sua visão da situação na Europa ocidental em 1902, em sua polêmica contra a concepção oportunista de que os antagonismos de classe estavam se dissolvendo (a figura principal desta corrente era Eduard Bernstein). Para Kautsky era justamente o contrário: o antagonismo de classe estava se acirrando justamente porque o domínio dos carteis de empresas na metrópole e as políticas coloniais no exterior mostravam que o capitalismo atravessava sua fase final e que a revolução socialista estava na ordem do dia.

Segundo ele, conforme os cartéis crescem e se expandem, mais clara é a prova de que o modo de produção capitalista tem ultrapassado o estado em que podia ser o agente mais potente do desenvolvimento das forças produtivas e a prova de que freia cada vez mais esse desenvolvimento e cria condições cada vez mais insuportáveis... O socialismo se converteu em uma necessidade econômica hoje; apenas o poder determinará quando chegará. [16]

Em seu esforço por “passar maquiagem em suas bochechas para parecer saudável e juvenil”, a sociedade burguesa recorre ao militarismo e ao imperialismo, como um imperativo econômico, como um conjunto de ideologias que prometem uma saída do ameaçador beco do desenvolvimento capitalista e como um meio de subornar as camadas superiores da classe operária. Como Kautsky havia remarcado em 1906, na Inglaterra (ao contrário da Rússia ou a Índia) a explosão capitalista era “uma forma de enriquecer o país, de acumular ganhos sempre crescentes obtidos saqueando o planeta inteiro. Inclusive as classes despossuídas se aproveitam de muitas maneiras desta pilhagem”. Esta espécie de explicação da ausência de militância operária no Reino Unido e em outros lugares era habitual na socialdemocracia anterior à Primeira Guerra Mundial. [17]

A experiência colonial não era mais do que um remédio de curto prazo aos males do capitalismo, porque inexoravelmente levaria ao aumento de conflitos tanto na metrópole como no exterior. Posto que o mundo estava praticamente repartido, a expansão colonial apenas podia levar a conflitos armados entre as potencias imperialistas. A opressão imperialista levaria também a lutas coloniais pela independência nacional que destruiriam o sistema imperialista quando fossem coroadas pelo êxito. “O capitalismo inglês vai sofrer um horrível desmoronamento quando os países oprimidos se revoltem e deixem de pagar títulos”. [18]

Chegamos agora ao segundo nível do sistema de interação revolucionária mundial, a saber, as revoluções democráticas contra a opressão absolutista, nacional e colonial. Kautsky falou muito sobre cada um destes tipos de revolução democrática. A principal luta revolucionária para a destruição do absolutismo e o estabelecimento das liberdades políticas estava acontecendo na Rússia. O que deve se destacar é que Kautsky dava sua aprovação, com toda sua autoridade, à estratégia bolchevique para dirigir a revolução anti-czarista: uma aposta pelo campesinato russo como combatente pela transformação democrática do país [19]. Quase se poderia tachar Kautsky de bolchevique honorário e assim era considerado pelas partes interessadas na socialdemocracia russa e alemã.

Em relação às revoluções nacionais pela autodeterminação, Kautsky e Lenin compartilham uma posição que abandona tanto a supervalorização do papel da nacionalidade pela socialdemocracia austríaca, como sua sub-valorização por Rosa Luxemburgo na Polônia. O convencimento fundamental compartilhado pelos dois homens era a ideia de que “as massas não podem se entusiasmar de forma duradoura pelo socialismo mais que onde e na medida em que a questão nacional se resolva” [20]. A partir daí, tanto Kautsky como Lenin argumentavam que o direito à autodeterminação devia ser respeitado, enquanto a socialdemocracia não advogava necessariamente para que este direito fosse exercido em casos concretos. Deveria se combater o separatismo das organizações socialistas e de outras organizações operárias. O chauvinismo de grande potência (alemães contra poloneses no caso de Kautsky, russas contra distintas nacionalidades no caso de Lenin) devia ser combatido para evitar ofender os sentimentos da nacionalidade oprimida. A solução última aos nacionalismos é garantir as minorias nacionais que seus direitos democráticos serão respeitados. [21]

A atitude de Kautsky em relação aos movimentos de libertação nacional nas colônias, pode ser melhor percebida na resposta que deu em 1907 a um grupo de socialdemocratas iranianos, que não estavam seguros de que fora conveniente a participação dos socialdemocratas na luta contra o capital estrangeiro [22]. Kautsky respondeu: “os lutadores socialistas não podem adotar uma atitude passiva em relação à revolução e ficar de braços cruzados. E se o país não está suficientemente desenvolvido para ter um proletariado moderno, apenas um movimento democrático (pré-socialista) contra a dominação estrangeira oferece aos socialistas a possibilidade de participar na luta revolucionária”.

E Kautsky aconselhou seus companheiros iranianos que os socialdemocratas podem ter que participar “como simples democratas nas fileiras dos democratas burgueses e pequeno burgueses”. Não obstante, sempre terão uma perspectiva mais ampla, porque para eles “a vitória da democracia não é o fim da luta política, mas apenas o início de uma nova luta desconhecida, que era praticamente impossível no regime absolutista”. Esta nova luta não apenas requer a liberdade política mas a independência nacional. A luta socialdemocrata contra o capitalismo em países como o Irã pode não ser capaz de colocar a revolução socialista entre as prioridades imediatas, no entanto, esta luta vai “delimitar o capitalismo europeu e conferir uma força maior ao proletariado europeu... Pérsia e Turquia, lutando por sua própria libertação, lutam pela libertação do proletariado mundial”.

Em 1909, Kautsky ressaltou de novo que os rebeldes anticoloniais eram frequentemente partidários do capitalismo. “Isto não muda em nada o fato de que debilitam o capitalismo europeu e seus governos e que introduzem no mundo um elemento de perturbação política”. [23]

Os sentimentos de Kautsky sobre a libertação colonial eram profundos. Segundo seu biógrafo, Gary Steenson, Kautsky já havia previsto em artigos escritos nos anos 1880 que “a modernização, mesmo demasiadamente gradual, dos países colonizados, produzia em última instância, sublevações indígenas contra a dominação dos europeus”. Em consequência, destacava “os interesses comuns e uma possível coalizão do proletariado industrial das nações europeias e dos nativos das colônias” [24]. A atitude de Kautsky sobre os movimentos de independência colonial não era devido somente à observação empírica e a estratégia política, mas também a seu visceral antirracismo.

“A política colonial do imperialismo está baseada no postulado de que os povos que gozam da civilização europeia são os únicos capazes de um desenvolvimento independente. Os homens de outras raças são considerados como crianças, como idiotas ou como burros de carga, segundo o grau de má vontade com o que os trate; em qualquer caso, como seres que possuem um nível de desenvolvimento inferior e que podem ser governados como se quiser. Inclusive os socialistas atuam segundo este pressuposto quando tentam levar a cabo uma política de expansão colonial-moral. Mas a realidade os tem ensinado rapidamente que o princípio de nosso partido de que todos os homens são iguais, não é uma figura retórica, mas uma força muito real”. [25]

O cenário de uma nova época descrito por Kautsky era um sistema mundial de inter-relação revolucionária, em primeiro lugar, pelo papel que tem os movimentos de libertação nacional. Como escrevia em O caminho do poder: “Hoje, as batalhas na luta pela libertação da humanidade trabalhadora e explorada não se livra apenas no Spree e o Sena, mas também no Hudson e o Mississipi, em Neva e nos Dardanelos, em Ganges e o Hoang Ho”. [26]

Interação

No cenário de Kautsky, os diversos tipos de revolução não se desenvolvem apenas em suas próprias vias de forma isolada, mas estão afetadas profundamente em todos os aspectos pela interação mundial. Kautsky definiu claramente a lógica do que mais tarde seria denominado o “desenvolvimento desigual e combinado” ou, nas palavras de Kautsky, a “combinação de formas de sociedades e estados mais avançados com formas mais atrasadas”,

“As nações atrasadas aprenderam das mais avançadas desde tempos imemoriáveis, por isso as vezes tem sido capaz de superar por meio de um grande salto várias etapas de desenvolvimento que seus predecessores haviam alcançado trabalhasomente

Desta forma, aparecem variações ilimitadas na fenda histórica do desenvolvimento das nações… E conforme mais se incrementam estas variações, o isolamento das nações individuais diminuem, mais se desenvolve o comércio mundial e mais nos aproximamos da era moderna. Esta variação tem se tornado tão grande que vários historiadores negam que existam leis da história. Marx e Engels lograram descobrir as leis que governam estas variações, mas apenas nos deram o fio de Ariadna para encontrar o próprio rumo no labirinto da história, não tem conseguido converter o labirinto em uma zona urbana moderna com ruas uniformes, rigidamente paralelas.” [27]

Desenhei o cenário da interação revolucionária mundial. Antes de continuar, é necessário destacar algumas consequências que Kautsky extraiu do mesmo sobre a época de guerras e revoluções que se acercava. Uma destas consequências é a posição privilegiada da Rússia no sistema.

Em 1902, Kautsky escreveu um artigo para o jornal clandestino de Lenin Iskra, intitulado Os eslavos e a revolução onde afirmava que” o centro revolucionário se deslocava do oeste para o leste”. “Colocado em marcha o espírito revolucionário” no povo russo vai conduzir a “grandes ações que não podem deixar de influenciar no oeste da Europa” e o sangue dos mártires revolucionários russo vai “pagar os frutos da revolução social em todo o mundo civilizado”. [28] Lenin gostava tanto deste artigo que leu grandes extratos em 1920 na celebração pública de seu 50º aniversário. Pouco tempo depois, incluiu fragmentos em seu folheto O esquerdismo, doença infantil do comunismo, destacando “como escrevia bem Kautsky faz 18 anos!” [29]

Nos anos posteriores a 1905, Kautsky descreve frequentemente este ano como uma mudança de rumo nos assuntos do mundo que inaugurou um “período de distúrbios contínuos em todo o Oriente” (referindo-se tanto à Ásia oriental como ao mundo islâmico). [30]

Para ele, o acontecimento que desencadeou a nova época não era a Revolução russa em si, mas a vitória do Japão sobre a Rússia czarista, uma vitória que pôs fim ao “complexo de inferioridade” dos não europeus e lhes deu confiança em si mesmo. [31]

No entanto, a imagem da Rússia que emerge dos abundantes escritos de Kautsky sobre o tema, é a de um país cujas proezas revolucionárias tinham uma grande influência sobre a revolução socialista na Europa ocidental, a revolução nacional na Europa oriental e sobre os movimentos de libertação nacional “no Oriente”.

Kautsky argumentava que a situação revolucionária que se anunciava em um futuro próximo ia requerer uma mudança radical de tática. Era o ponto – amplamente incompreendido hoje – que tentava estabelecer em 1910 com sua famosa distinção entre uma “estratégia de desgaste” e uma “estratégia de derrubada”. Kautsky explicava que “o desgaste” (a atividade habitual do Partido Socialdemocrata alemão, de educação socialista e de forte organização), era conveniente para uma situação normal, não revolucionária, enquanto que a “derrubada” (greves gerais de massa e outros meiosde pressão não parlamentares) convinha a uma situação verdadeiramente revolucionária. Kautsky acrescentava que, mesmo neste momento a Alemanha estava todavia em uma situação não revolucionaria, se podia esperar no entanto que logo alcançaria uma crise revolucionária. [32]

Lenin tomou a palavra de Kautsky. Escrevendo em 1910, indicava que “Kautsky disse claramente e diretamente que a transição (a uma estratégia de derrubada) é inevitável em uma fase avançada de desenvolvimento da crise política”. [33] Por isto Lenin minimizava a importância do conflito entre os bolcheviques honorários do Partido alemão pois Kautsky e Rosa Luxemburgo acreditavam que era iminente um giro comparável ao do Domingo Sangrento de janeiro de 1905, A única diferença estava em saber se o giro se produziria “agora ou ainda não, neste momento ou no seguinte”. [34]

Um socialdemocrata polonês próximo aos bolcheviques, Julian Marchlewsky, equiparou Lenin e Kautsky nesta questão: “Lenin recomenda (em 1909), se quiser, o mesmo que Kautsky (um ano depois): a aplicação da estratégia de derrubada e da estratégia de desgaste cada uma no momento oportuno”. [35]

Já em 1902, Kautsky havia chagado à conclusão de que “devemos assumir a possibilidade de uma guerra em futuro próximo e, portanto, também a possibilidade de convulsões políticas que desemboquem diretamente em levantes proletários ou pelo menos na abertura de um caminho para tais levantes.” [36] Em qualquer guerra deste tipo entre potencias imperialistas – em contraposição aos movimentos de libertação nacional ou colonial – o proletariado não teria nenhuma razão para lutar ombro a ombro com os burgueses. Como Kautsky escrevia em 1907:

“A burguesia e o proletariado de uma nação estão igualmente interessados em sua independência nacional e sua autodeterminação, na eliminação de qualquer forma de opressão e exploração por uma nação estrangeira. (Mas na etapa atual do imperialismo) não se pode esperar em nenhum lugar uma guerra em defesa da liberdade nacional na que burgueses e proletariados possam se unir… No momento presente, os conflitos entre estados não podem provocar uma guerra em que os interesses do proletariado não se oponham a ela firmemente, como um dever”. [37]

Olhando para trás, Lenin insistiu com veemência no consenso marxista anterior à guerra de que a irrupção da mesma levaria quase por definição a uma situação revolucionária. As citações seguintes – uma de inicios de 1916 e a outra de finais de 1918 – ilustram a retórica de Lenin de “agressiva falta de originalidade”.

  • “O que hoje nega a ação revolucionária (Kautsky) é a mesma autoridade da II Internacional que em 1909 escreveu um livro inteiro, ‘O caminho do poder’, traduzido para as principais línguas europeias, para demostrar o vínculo entre a futura guerra e a revolução”. [38]
  • “Muito antes da guerra, todos os marxistas, todos os socialistas, estavam de acordo em considerar que uma guerra europeia provocaria uma situação revolucionária… Portanto, a espera de uma situação revolucionária na Europa não era uma obsessão dos bolcheviques, mas uma opinião generalizada entre todos os marxistas.” [39]

Lenin declarou em uma ocasião que havia lido praticamente todo o Kautsky e verdadeiramente é difícil de acreditar que alguém de sua geração conhecerá a obra de Kautsky tão bem como ele. [40] Tudo o que Lenin disse sobre Kautsky deve ser levado muito seriamente. Os estudos recentes estão compreendendo a tese de Lenin segundo a qual “a nova época de guerras e revoluções” era um tema central nos escritos de Kautsky na virada do século. Nesta primeira parte, mostrei como este tema dota de unidade dinâmica e amplo leque de posições e argumentos de Kautsky. [41]

Notas:

[1] W. I. Lenin, Chosen Works, Nova York 1960-68, Vol. 35, p.167; W.I. Lenin, Polnoe sobranie sochinenii, Moscou,1958-64, Vol 49, p.24 (cartas de 27 de outubro, e 31 outubro de 1914).
[2] W. I. Lenin, Polnoe sobranie sochinenii, Moscou, 1960-68, Vol. 21, pp.94-101, «Chauvinisme mort et socialismevivant» (dezembro de 1914). Para maior discusão, ver L.T. Lih, "Lenin’s aggressive unoriginality 1914-16", SocialistStudies, 5, 2, 2009: pp.90-112.
[3] Uma discusão mais detalhada do relato habitual vai aparecer em Cataclysm 1914.
[4] Ver R. Day et D. Gaido (eds.), Witnesses to permanent revolution: the documentary record, Leyde, 2009; igualmente R. Day et D. Gaido (eds.), Discovering imperialism: social democracy to World War I, Chicago, 2011; e os documentos traduzidos por Ben Lewis et Maciej Zurowski: K Kautsky, Nationalité et internationalité (1907- 08)Critique, 37, 3, 2009, pp.371-389 y Critique 38, 1, 2010, pp.143-63; M. Macnair (éd.), Kautsky sur le colonialisme, Londres, 2013. As relações de Lenin com Kautsky é um tema que aflora em todos meus escritos sobre Lenin. Paraosanos da guerra, verem particular "Lenin and Kautsky, the final chapter", International Socialist Review, No.59,2008; "Lenin’s aggressive unoriginality, 1914-16", Socialist Studies 5, 2, 2009, pp.90-112; "Kautsky when he was a Marxist (Database of post-1914 comments by Lenin)", Historical Materialism 2011: http://www.historicalmaterialism.org/journal/online-articles/kautsky-as-marxist-data-base 2011a.
[5] A discusão completa contida na segunda e terceira parte aparecerá em Cataclysm 1914.
[6] Para as traduçõesinglesasdestastrêsobras, verK. Kautsky, The social revolution, Chicago, 1902; K.Kautsky, Socialism and colonial policy (1907): http://www.marxists.org/archive/kautsky/1907/colonial/index.htm; K. Kautsky, Theroad to power: political reflections on growing into the revolution (1909), New Jersey, 1996. As três obras estãodisponiveis em inglés em Marxists Internet Archive.
[7] Por falta de espaço, não posso documentar de forma completa as ideias de Kautsky. Em relação as questões que não se discutem especificamente aqui, proporcionei referências as observações pertinentes que se podem encontrar em R. Day et D. Gaido (éds.), Witnesses to permanent revolution: the documentary record, Leyde,2009, pp.183, 395-396 (sobre Japón), p. 640.
[8] Ibid, p. 536.
[9] Ibid, p. 219.
[10] Ver em particular K Kautsky, «Questions révolutionnaires» (1904) dans R. Day et D. Gaido (éds.),Witnesses topermanent revolution: the documentary record, Leyde, 2009; et K. Kautsky, «Les conséquences de la victoirejaponaise et la social-démocratie» (1905), en el mismo libro.
[11] K. Kautsky, Der WegzurMacht 1909. Karl Kautsky, El camino del poder, traduzido por A.P. V.Giard et E.Brière,1910; Editions Anthropos, 1969. The Road to Power, New Jersey 1996, chapitre 9.
[12] R. Day et D Gaido (éds), Witnesses to permanent revolution: the documentary record, Leyden, 2009, p.400.
[13] Ibid, p. 386.
[14] Ibid, p. 184.
[15] Georg Lukács oferece uma excelente análise da natureza sistematica da concepção que tinha Lenin da situação mundial, mesmo não mostrando que as raízes estão em Kautsky e em outros: G. Lukács, Lénine, une étude del’unité de sa pensée (1924), EDI, Paris, 1965.
[16] Karl Kautsky, Sozialismus und Kolonialpolitik (Le socialismeet la politiquecoloniale), 1907. Em alemão e em inglês: http://www.marxists.org/archive/kautsky/1907/colonial/index.htm.
[17] R. Day et D. Gaido (éds.), Witnesses to permanent revolution: the documentary record, Leyde, 2009, p.631. Em 1915, Lenin citava Kautsky, unindo Marx e Engels, como um autoridade sobre o oportunismo britanico (W. I. Lenin, ChosenWorks, New York 1960-68, Vol. 21, p. 154). Em 1916, Karl Radek citava um socialdemocrata alemão favorável a guerra, Paul Lensch, sobre a corrupção imperialista dos trabalhadores ingleses ele comentava: “A opnião de Lensch não é nova. É uma das numerosas ideias que tomou emprestado dos socialdemocratas de esquerda. Mas correta sem dúvida”.(J. Riddell, Lenin’s struggle for a revolutionary international,New York, 1984, pp.461-62)
[18] R. Day et D. Gaido (éds.), Witnesses to permanent revolution: the documentary record, Leyde, 2009, p.633.Para uma declaração semelhante no momento da guerra dos Boers, ver R. Day et D. Gaido (éds.),Discovering imperialism: social democracy to World War I, Chicago, 2012, pp.155-164.
[19] A clássica declaração de Kautsky de apoio da posição bolchevique “As forças motrizes da revolução da revolução russa e suas perspectivas”, 1906, reproduzida em R. Day et D. Gaido (éds.), Witnesses to permanent revolution: thedocumentary record, Leyde, 2009,que inclui também comentários de Lenin e Trotsky. O jovem Stalin também escreveu um comentário: «Préface à l’édition géorgienne de la brochure de K. Kautsky “Las fuerzas motrices de larevolución rusa y sus perspectiva” en J.V. Staline, Ruvres, Vol 2.
[20] J. Jacobs, «Karl Kautsky: between Baden and Luxemburg» in On socialists and “The Jewish question” afterMarx, New York, 1992, p.510. Cita um artigo de Kautsky de 1897. O estud de Jack Jacobs compara de maneira útil aatitude de Kautsky em relaçãoaos judeos e os tchecos.
[21] Para a crítica de Kautsky dos escritos sobre a questão nacional dos socialdemocratas autríacos, ver K.Kautsky, «Nationality and internationality» (1907- 08), Critique 37, 3, 2009, pp.371-389 et Critique 38, 1, 2010, pp.143-163; ver também R. Day et D. Gaido (éds.) Witnesses to permanent revolution: the documentary record,Leyde, 2009, pp.213-214.
[22] C. Chaqueri, The left in Iran, 1905-1940, London, 2010, pp.123-28.
[23] K. Kautsky, El camino del poder, 1909, op.cit., p.83.
[24] Gary Steenson, Karl Kautsky 1854-1938: Marxism in the classical years, Pittsburgh,1978, p.75.
[25] K. Kautsky, El camino del poder, 1909, op.cit., p.8o-81.
[26] Ibid pp. 88-91.
[27] K. Kautsky, Socialisme et politique coloniale, 1907: http://www.marxists.org/archive/kautsky/1907/colonial/index.htm.
Ver também R. Day et D. Gaido (éds.) Witnesses to permanent revolution: the documentary record, Leyde, 2009,pp.395-397.Como Richard Day e Daniel Gaido assinalam acertadamente, “ao abandonar a noção de único modelo de desenvolvimento capitalista, Kautsky abandona ao mesmo tempo qualquer ideia de um determinismo econômico unilateral.(p. 617)
[28] R. Day et D. Gaido (éds.), Witnesses to …., op.cit., pp.61-65.
[29] W.I. Lenin, Chosen Works, New York 1960-68, Vol 40, pp.325-327; Vol 41, pp.4-5.
[30] K. Kautsky, El camino del poder, 1909, op.cit., p.83.
[31] K. Kautsky, Socialismo y política colonial, 1907, op.cit
[32] A. Grunenberg (éd.), Die Massenstreikdebatte, Francfort, 1970
[33] W.I. Lenin, Polnoe sobranie sochinenii, Moscou, 1958-64, Vol 19, pp.367.
[34] Ibid, Vol. 20, p. 18.
[35] J. Marchlewsky (J. Karski), «Ein Missverständnis»(un malentendu), Die Neue Zeit, julho de 1909, p.102. Ver W.I.Lenin, Polnoe sobranie sochinenii, Moscou, 1958-64, Vol. 15, p.458 et vol.19, p.50.
[36] K. Kautsky, Die soziale Revolution, 1902/The social revolution, Chicago 1902, pp.96-97.
[37] Como Rosa Luxemburgo a citou com aprovação em seu panfleto de Junius: La crisis de la socialdemocracia (1916), editiones la taupe, Bruxelas, 1970.
[38] W.I. Lenin, Polnoe sobranie sochinenii, Moscou, 1958-64, Vol. 27, pp.109-10.
[39] Ibid, Vol. 28, pp.289 et 292.
[40] W.I. Lenin, Chosen Works, New York, 1960-68, Vol. 41, p.468, (1920).
[41] O mais parecido a uma declaração de síntese de Kautsky, é o capítulo final de “El camino del poder”.

O texto acima é a primeira parte de um artigo de Lars T. Lih em uma obra coletiva de próxima aparição. Alexander Anievas (Ed.). Cataclysm 1914: The First World War and the making of modern World Politics. Brill: Leyde, 2014.

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